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Novas espécies encontradas na Renca apresentam indícios de contaminação por mercúrio

Relatório da WWF-Brasil apresentou 381 descobertas de fauna e flora na Amazônia

Zig Koch/WWF-Brasil
Região da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), que contempla parte do Amapá e do Pará
Quatro espécies de peixes recém-descobertas na Amazônia estariam contaminadas com mercúrio, segundo estudo apresentado pela WWF-Brasil. Apesar de serem ornamentais e de se deslocarem facilmente pelo rio, eles são parte da cadeia alimentar da região e são consumidos pelas comunidades locais.

Os peixes foram encontrados na região Renca - Reserva Nacional de Cobre e Associados - criada em 1984 para restringir a atuação da atividade garimpeira, e que esteve no centro de uma controvérsia política na última semana. O mercúrio é um metal pesado utilizado no processo de extração do ouro. Apesar da restrição, a atividade de mineração ilegal realizada na região da reserva teria ocasionado a contaminação dos peixes.

Pelo seu efeito cumulativo, não é possível eliminar naturalmente o mercúrio organismo. Ele se acumula nos seres vivos ao longo da cadeia alimentar e pode ser letal quando em grandes quantidades. Segundo a bióloga e pesquisadora Fernanda Pain, do Instituto Mamirauá - que colaborou no levantamento das novas espécies - a presença do metal causa impacto tanto na fauna quanto na população local.

Recentemente, a reserva tem sido alvo de discussão devido ao decreto do dia 23 de agosto feito pelo presidente Michel Temer, que decide por extingui-la e liberar parte dela para a exploração mineral. A reação popular levou o presidente a anular o decreto e a publicar um segundo decreto, que foi posteriormente suspenso pelo juiz federal Rolando Spanholo. O governo já sinalizou que vai recorrer. Fernanda diz que, caso a nova legislação sobre a Renca seja mantida, não apenas a biodiversidade e os peixes recém descobertos serão afetados, mas também aqueles que dependem dessas espécies para sua sobrevivência.

Os animais fazem parte de um relatório de todas as novas espécies de vertebrados e plantas descobertas entre 2014 e 2015 na Floresta Amazônica, divulgado ontem (30 de agosto) pela ONG. O relatório foi feito em parceria com o Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), baseando-se em bancos de dados de publicações científicas de 39 pesquisadores - de instituições brasileiras e internacionais - feitas no período dos dois anos. Ao todo, 381 novas espécies foram relatadas pela ONG: uma ave, dois fósseis de mamíferos já extintos, 18 mamíferos, 19 répteis, 32 anfíbios, 93 peixes e 216 plantas.

A maioria das descobertas foi feita em unidades de conversação, destacando a importância da preservação ambiental. Contudo, algumas espécies estão em condições preocupantes e, segundo Fernanda, serão classificadas, no mínimo, como estando “em risco”. O macaco zogue-zogue-rabo-de-fogo (Plecturocebus milton), por exemplo, foi encontrado no sul da Amazônia, uma das áreas que mais sofre pressão pelo desmatamento. Outro caso é a nova espécie de boto (Inia araguaiaensis), encontrada na bacia do rio Araguaia: sua população é de apenas mil indivíduos, além de possuir distribuição restrita e baixa diversidade genética.

Com mais de 2 mil novas espécies de vertebrados e plantas descritas nos últimos 17 anos, de acordo com as três edições de relatório já feitas pela WWF-Brasil, a Amazônia é a maior floresta tropical remanescente existente hoje. Ela abriga uma das mais extensas biodiversidades do mundo, com uma média de uma nova espécie descoberta a cada dois dias. Mesmo assim, é um local com diversas lacunas de conhecimento: de acordo com Ricardo Mello, coordenador do Programa Amazônia da WWF-Brasil, apenas cerca de 20% do ecossistema é conhecido.

De acordo com Mariana Napolitano, coordenadora do Programa de Ciências do WWF-Brasil, cerca de 50% de todo território da Amazônia se encontra em áreas protegidas. Contudo, a região tem sofrido com cortes orçamentários junto às instituições de preservação e propostas governamentais de diminuição dessas áreas. Ela ressalta que essas medidas de flexibilização colocam em risco a biodiversidade amazônica. Para Mello, o governo deveria ouvir outras vozes antes de tomar essas decisões. “O processo certo é envolver toda população nisso, tanto especialistas quanto o povo. A consulta pública e a ciência precisam fazer parte dessas decisões.”

O relatório completo pode ser acessado neste link.

Marília Fuller


Confira a galeria com algumas das espécies descritas no relatório: http://bit.ly/2wqECd6.
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