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05 de outubro de 2011
Novo Bicudinho
Subestimando brejos e comendo moscas
por Glaucia Del Rio
Bruno Rennó
Fêmea do bicudinho-do-brejo-paulista (Formicivora sp. nov.), espécie descoberta em 2005, teria passado tanto tempo despercebida por habitar áreas tão subestimadas quanto brejos
Aves são, sem dúvida, o grupo de vertebrados mais conspícuo. Ornitólogos se gabam da facilidade que têm de observar e entrar em contato com seu alvo de estudo, afinal de contas, sem nenhuma timidez, muitas espécies fazem-se visíveis e audíveis até mesmo em parques urbanos ou nos quintais de nossas casas. Essas facilidades permitiram que, ao longo de séculos, o grupo das aves se tornasse um dos mais bem estudados quanto à diversidade de táxons. É por isso que, em 2005, quando uma espécie de ave completamente nova foi descoberta dentro da região metropolitana da maior cidade da América do Sul, São Paulo, muitos perceberam que a ornitologia ainda podia guardar grandes surpresas.

O bicudinho-do-brejo-paulista não é uma ave cheia de cores, ou com uma vocalização chamativa. Trata-se de um passarinho tão pequeno quanto um pardal e tão colorido quanto uma choquinha. Não obstante, é uma das espécies mais instigantes da ornitologia brasileira. Grandes ícones do meio, como Olivério Pinto (1896-1981), que catalogou quase todos os táxons de aves atualmente conhecidos no país, nem sequer sonhavam com sua existência. Mas por que o bicudinho passou tanto tempo sem ser descoberto? Segundo o ornitólogo Fernando Pacheco, a principal razão para essa “comida de moscas” foi o pequeno esforço de coleta na região, “nenhum dos naturalistas mais detalhistas passou por suas áreas de ocorrência.” Além disso Pacheco cita que “no passado os bicudinhos estavam em ambientes mais 'encaixados' no meio das matrizes de florestas, lugares difíceis de acessar”.

Se as áreas de ocorrência da espécie foram mal exploradas pela ciência, hoje são alvo de intensa exploração imobiliária, agrícola, pecuária e mineradora. Até agora, sabe-se que a espécie tem distribuição restrita a poucas localidades na Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, nos municípios de Mogi das Cruzes, Biritiba-Mirim e Salesópolis e outros poucos pontos recém-descobertos na Bacia do Rio Paraíba do Sul, no município de São José dos Campos. Estima-se que nos entornos da Bacia do Tietê habitem 17,5 milhões de pessoas, o que faz dos brejos da região, localidades extremamente ameaçadas pela ação humana, apesar do status de APPs (Áreas de Preservação Permanente). De fato, visitar áreas alagadas “naturais” em torno dessa bacia pode ser uma experiência frustrante. Muitos brejos estão sendo drenados por mineradoras, outros são cercados por asfalto e pastos. O bicudinho não é atrativo para o comércio ilegal de aves, mas parece ser exigente quanto aos locais que habita, de forma que, hoje, é considerado “criticamente ameaçado de extinção”. Mas como preservar áreas tão subestimadas quanto brejos?

Nos Estados Unidos, após o declínio vertiginoso de populações de sanãs, saracuras e socós na década de 1970, surgiram várias iniciativas de proteção a áreas alagadas. Muitas destas, como as de Onalaska, Wisconsin, ao longo do rio Mississippi, além de serem protegidas e fiscalizadas, oferecem infraestrutura para visitantes e são amplamente divulgadas entre os observadores de aves. O Brasil ainda não conta com os 70 milhões de birdwatchers encontrados nos Estados Unidos, mas todos os anos milhares de observadores, vindos de toda a parte do mundo todo, visitam nosso país em busca de novas espécies a ser acrescentadas em suas listas, pelo simples prazer de compilar memórias e experiências em meio à natureza.

Nosso país não hesita em seguir os modelos de progresso dos países de primeiro mundo, destruindo desgovernadamente muito de nosso patrimônio natural. Por que não seguir seus modelos de conservação, enquanto ainda temos áreas naturais atrativas e que resguardam muitas descobertas?

Certamente o bicudinho-do-brejo-paulista e muitas outras espécies experimentariam melhores dias se suas áreas fossem protegidas e visitadas por amantes da natureza, em vez de coligidas e devastadas por ações pretensamente mais lucrativas.
Glaucia Del Rio Atualmente, trabalha como colaboradora na seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, como ornitóloga assistente em projetos de monitoramento e inventário de avifauna e como educadora ambiental.
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