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Novo supervegetal vem do mar e substitui a couve

Além de nutritivas, algas ajudam a mitigar efeitos de emissões de gases de efeito estufa

Stephanie Stroud
Combinar cultivo com captura de alimento oferece benefícios para os mares e para os humanos
Por Patrick Mustain

As opiniões expressas são as do autor e não necessariamente as da Scientific American

Alimente-se de algas (kelp, em inglês). Elas estão cheias de nutrientes, atenuam mudanças climáticas ao sequestrarem carbono, melhoram o estado de saúde dos oceanos ao absorverem o excesso de nitrogênio e fósforo, e têm potencial como um valioso fertilizante e bicombustível.

Além disso, são deliciosas.

Bren Smith, proprietário da Thimble Island Oyster Company, com sede em Connecticut, e diretor da organização Greenwave, começou a cultivar algas e crustáceos em reação a várias crises que enfrentou na vida: sobrepesca, alterações climáticas e desemprego galopante na indústria pesqueira. Ele trabalhava no mar de Bering (entre a Rússia e os Estados Unidos), quando os estoques de bacalhau despencaram, e perdeu safras de ostras tanto para a acidificação oceânica como para dois furacões.

Baseado em parte na pesquisa do Dr. Charles Yarish da University of Connecticut, o modelo de cultivo oceânico 3-D de Smith usa toda a profundidade oceânica, como se fosse uma coluna, para cultivar a maior diversidade de alimentos concebível na menor área possível. “Agora estou produzindo mais alimentos em oito hectares de oceano que em40,5 hectareshá alguns anos atrás”, comemora.

Gaiolas de ostras pontilham o leito marinho e cortinas de algas brotam ao longo de linhas suspensas por boias superficiais. Estruturas de malha contendo vieiras, mariscos e mexilhões pendem entre as longas folhas de algas marinhas (kelp). Todas essas espécies absorvem nutrientes que penetram na água por meio de escoamentos agrícolas terrestres (contribuintes significativos para as chamadas zonas mortas oceânicas), o que é fundamental para a abordagem de Smith.

Seu trabalho com a Greenwave visa criar uma economia “verde-azul”: identificando espécies restauradoras em qualquer dado ecossistema que tornem os oceanos mais saudáveis, sejam nutritivas, deliciosas, e economicamente viáveis. Essa é uma “solução elegante” para alguns dos problemas inerentes ao nosso atual sistema alimentar, resumiu Smith.

De fato, soluções são necessárias. A Menus of Change (Cardápios de Mudança) [MOC, na sigla em inglês], uma conferência sobre alimentos sustentáveis organizada pelo Instituto Culinário da América (CIA, na sigla em inglês) e pela Harvard School of Public Health, destacou a necessidade de reformarmos o modo como produzimos alimentos. O relatório anual da MOC apontou para uma avalanche de problemas associados à produção de alimentos industrializados, inclusive desafios como o esgotamento de terras cultiváveis e água doce, resistência a antibióticos, secas e outros extremos climáticos associados às mudanças climáticas; além da insegurança alimentar e da obesidade.

Um relatório de 2011 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) identificou o setor de produção alimentar global como uma das causas mais importantes das mudanças climáticas, sendo responsável por cerca de 30% do consumo total de energia do mundo e produzindo mais de 20% das emissões de gases de efeito estufa do planeta.

Uma sessão da MOC discutiu o potencial de alimentos marinhos subutilizados e a promessa de uma produção alimentar baseada em oceanos: ela não requer água doce, nenhuma terra, e, se executada corretamente, pode de fato mitigar as mudanças climáticas em vez de contribuir para elas.

Mas há desafios: o conferencista William Bradley descreveu tentativas frustradas de servir vegetais marinhos a visitantes do Aquário da Nova Inglaterra, onde atua como principal executivo. Outro palestrante, o “chef” Bun Lai, teve algum sucesso em seu restaurante Miya’s Sushi, mas salientou que muitos americanos simplesmente ainda não estão familiarizados ou não se sentem confortáveis com a ideia de consumir plantas do mar.

Bren Smith espera que isso mude e vem trabalhando com o “chef” David Santos no Restaurante Louro, em Nova York, para desenvolver receitas inovadoras com vegetais marinhos. As possibilidades são infinitas. Folhas de kelp cortadas em tiras resultam em um perfeito macarrão “al dente”; os talos em conserva são crocantes, saborosos e refrescantes; a manteiga de kelp é uma pasta singular, porém suave e rica; e um simples prato de kelp com um pouco de molho de gergelim doce supera qualquer salada rebuscada de couve em termos de preço.

“Simplesmente faz sentido que esse seria o próximo superalimento”, argumentou Santos, apontando para a salubridade, o impacto ambiental, e a diversidade de usos e sabores de algas marinhas.

De acordo com uma recente matéria publicada pela Business Insider, há muitas razões para que a agricultura marinha no modelo de Smith talvez seja um componente fundamental no modo como pensamos sobre o futuro da produção de alimentos. A Menus of Change concentrou-se em soluções que favorecem a saúde, a sustentabilidade e a economia. Mas, no fim das contas, essas soluções também precisam ser deliciosas. A agricultura 3-D de Smith preenche todos esses critérios e mostra que abordagens similares podem ser viáveis.

“Em minha opinião, o que é tão empolgante agora, uma vez que estragamos as coisas tão terrivelmente, é que estamos contra a parede e precisamos inovar. Quero dizer que em todo o mundo precisamos encontrar respostas para realmente mudarmos nossas relações com os oceanos e reformatar a economia, e é daí que vem grande parte da minha esperança, e de onde vem muita empolgação, porque precisamos fazer alguma coisa, e acredito que isso gerará muita criatividade, resiliência e soluções”, resumiu Smith.

Mas essas soluções só funcionarão quando nós, como consumidores, estivermos prontos e dispostos a aceitar novos alimentos e novas formas de nos alimentarmos. Portanto, vá comprar algumas algas marinhas e bom apetite.

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As opiniões expressas são as do autor e não necessariamente as da Scientific American

Sciam 11 de julho de 2014

Sciambr16jul2014
obre o autor: Patrick Mustain é um gerente de comunicações no Yale Rudd Center for Food Policy and Obesity (Centro Rudd de Política Alimentar e Obesidade de Yale). Ele está interessado em como fatores ambientais (construídos, sociais, de mídia, econômicos, etc.) afetam comportamentos e resultados de saúde, especialmente nos lugares onde a mídia e a saúde pública se intersectam. Você pode encontrar mais informações sobre seu trabalho em seu site, patrickmustain.com. Siga-o no Twitter em @ @patrickmustain.