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Informação científica para deficientes visuais

Um acordo global de direitos autorais aumentará a disponibilidade de textos científicos em formatos acessíveis

ViewPlus
John Gardner é um ávido apoiador dos padrões de publicação EPUB 3. 
Por Declan Butler e revista Nature

Da revista Nature

Um tratado internacional aprovado em 27 de junho é uma grande vitória para pessoas com problemas visuais.

Os 186 estados membros da Organização Mundial de Propriedade Intelectual chegaram a um acordo histórico para remover obstáculos de copyright que dificultavam a disponibilidade global de livros didáticos e outros trabalhos publicados em formatos acessíveis como braille, letras grandes e áudio.  

O acordo, que demorou uma década para ser feito, foi firmado em Marrakesh, no Marrocos, após mais de uma semana de negociações intensas. Todos os estados participantes agora devem introduzir isenções de copyright que permitam que agências governamentais e organizações sem fins lucrativos convertam trabalhos publicados em versões acessíveis, e as distribuam globalmente a pessoas com problemas visuais.

O acordo também significa que organizações para deficientes visuais serão capazes de compartilhar livremente suas coleções de trabalhos acessivelmente formatadas através de fronteiras, especialmente com nações em desenvolvimento.

Apenas um terço dos países do mundo, principalmente os mais ricos, aplicam essas exceções de copyright. Mas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, 90% das 285 milhões de pessoas do mundo com problemas visuais vivem em países em desenvolvimento.

O tratado ajudará indivíduos com deficiência visual do mundo todo a ter “acesso e total participação em ciência, educação e pesquisa”, declara Richard Weibl, diretor do Projeto de Ciência, Tecnologia e Deficiência da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Washington capital.

Mas organizações para deficientes visuais só têm recursos para converter uma fração dos livros e outros materiais publicados todos os anos. Assim, eles estão pressionando para que editoras também formatem seus principais produtos para que sejam completamente acessíveis a deficientes visuais e a fornecedores de dispositivos como e-readers, tablets e smartphones, para garantir que esse conteúdo seja utilizável.

“Nós ainda não vimos a adoção de padrões e formatos acessíveis na escala que gostaríamos de ver, particularmente na área de textos científicos e matemáticos”, comenta Chris Danielsen, porta-voz da Federação Nacional de Deficientes Visuais dos Estados Unidos em Baltimore, no estado de Maryland. 

Um grande avanço na direção desse objetivo foi realizado em março, quando a Associação Internacional de Editoras aprovou o EPUB 3 – determinando padrões internacionais para a publicação de conteúdos ricos em multimídia e conteúdo digital interativo em todos os dispositivos.

O EPUB 3 incorpora os padrões do Consórcio DAISY (Sistema Digital de Informações Acessíveis, em tradução literal) que muitas organizações de deficientes visuais usam para converter livros e outros conteúdos publicados em formatos acessíveis.

Os padrões DAISY são um conjunto de especificações para a formatação de documentos digitais que permitem acesso falado incomparável a textos. Eles permitem que deficientes visuais naveguem com facilidade por livros volumosos, por exemplo, para adicionar notas de áudio, e para criar e encontrar marcações.

Os padrões DAISY também permitem que figuras, gráficos e equações sejam lidos por máquinas e portanto se tornem acessíveis aos deficientes visuais por meio de uma variedade de softwares e dispositivos, incluindo braille atualizável [refreshable braille], impressoras de gravação e tablets táteis.

“Estou muito empolgado com o EPUB 3”, conta Mark Doyle, diretor de sistemas de informações de periódicos da American Physical Society (APS) em Nova York. A APS é uma das poucas editoras até agora que já testaram os padrões DAISY. De acordo com ele, adicionar a funcionalidade DAISY aos artigos da sociedade teria sido muito difícil e caro. Mas será muito mais fácil incluí-la no futuro, agora que a APS está mudando seu fluxo de publicações para o EPUB 3.

Mas se editoras tirarão vantagem total das oportunidades que o EPUB 3 oferece para tornar gráficos e equações acessíveis ainda é uma preocupação, declara John Gardner, um físico de estado sólido e fundador da ViewPlus Technologias em Corvallis, no Oregon. Gardner perdeu a visão aos 48 anos, e desde então dedica seus talentos a desenvolver softwares e dispositivos de assistência para tornar o conteúdo científico mais acessível aos deficientes visuais. 

Mesmo que editoras realmente abracem as ferramentas de acessibilidade do EPUB 3, outro grande mistério é se e-readers e outros dispositivos vão suportá-los. O leitor Kindle da Amazon, por exemplo, dá acesso a uma vasta biblioteca, que inclui clássicos como Molecular Biology of the Cell (5ª edição, Garland Science, 2012), mas ele “ainda não está totalmente acessível”, observa Danielsen.

Uma acessibilidade maior veio em maio, quando a Amazon liberou um aplicativo que permite que muitos e-books do Kindle sejam lidos em dispositivos Apple usando o VoiceOver – um leitor projetado para deficientes visuais. Organizações de deficientes visuais dão notas máximas a produtos Apple por sua atenção à acessibilidade. Larry Hjelmeland, pesquisador cego da University of California, Davis, que estuda a biologia do envelhecimento dos olhos, declara que o sistema operacional mais recente da Apple tornou muito mais fácil para ele ler tudo: de emails a artigos científicos.

Gardner espera que o tratado e os avanços em tecnologia também ajudem a abordar a sub-representação dos deficientes visuais na ciência. “Essas pessoas normalmente têm oportunidades limitadas de interação social e entretenimento”, lembra ele. “Então frequentemente elas são muito mais produtivas que pessoas sem deficiências”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 9 de julho de 2013.