Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

NSF cancela financiamento para ciências políticas nos Estados Unidos

Medida é consequência das restrições impostas pelo Congresso americano, denunciam cientistas

Flickr / Talk Radio News Service
O senador Tom Coburn (republicano, de Oklahoma) ajudou a inserir uma linguagem na lei que restringe o financiamento federal de pesquisas em ciências políticas.
 

A medida parece ser uma tentativa de burlar restrições impostas pelo Congresso

 

Por Beth Mole e revista Nature

 

Em geral os cientistas políticos estão atarefados no início de agosto dando os últimos retoques a propostas para obter verbas da National Science Foundation (NSF, na sigla em inglês). Não este ano.

 

A menos de um mês do prazo final para a apresentação dos pedidos anuais, em meados de agosto, a agência de financiamento cancelou novas concessões de verbas para ciências políticas até o final de2013. ANSF se recusa a explicar seus motivos para eliminar o pedido de subvenções, um dos dois que ocorrem normalmente a cada ano. No entanto, os líderes da área culpam o Congresso que no dia 21 de março aprovou uma lei que exige que pesquisas em ciências políticas financiadas pela NSF beneficiem a segurança nacional ou os interesses econômicos.

 

“É difícil imaginar que isso não seja um fator na decisão”, afirma Michael Brintnall, diretor-executivo da Associação Americana de Ciências Políticas,em Washington D.C., que descreve o corte como “preocupante”. Brintnall diz que a NSF o notificou sobre o cancelamento no dia 25 de julho. Outros pedidos de financiamento na divisão de ciências sociais, comportamentais e econômicas da NSF, que inclui as ciências políticas, continuam normalmente.

 

A decisão da NSF estanca uma das principais linhas vitais financeiras para a pesquisa em ciências políticas. “Isso se situa em algum lugar entre devastador e incapacitante”, lamenta Henry Farrell, um cientista político da George Washington Universityem Washington D.C.e um dos autores do Monkey Cage, um blog amplamente lido de ciências políticas. Mas Farrell culpa o clima político em vez da agência de financiamento pelo corte. “A NSF está em uma situação extremamente constrangedora”, diz ele.

 

As exigências para os gastos da NSF em ciências políticas foram feitas de última hora durante as negociações para a chamada “lei de gastos omnibus” 2013. (A lei de gastos omnibus define o orçamento de vários departamentos do governo americano de uma só vez).

Trechos da linguagem da lei, proposta pelo senador Tom Coburn (republicano, de Oklahoma), impedem a NSF de “desperdiçar recursos federais em projetos de ciências políticas, a menos que o diretor da NSF certifique que os projetos são vitais para a segurança nacional ou os interesses econômicos do país”.

Desde então, as autoridades da NSF têm lutado para traduzir essa linguagem em normas para avaliar propostas de subvenções e gastar seu orçamento de cerca de US$ 10 milhões para ciências políticas.

Em 7 de junho, a agência anunciou que equipes de revisão por pares levariam em conta as exigências adicionais em sua avaliação das propostas.

No entanto, o cancelamento dos pedidos de financiamento em agosto sugere que a agência sucumbiu diante da incerteza de como interpretar as estipulações da lei, diz John Aldrich, um cientista político da Duke University em Durham, na Carolina do Norte.

John Hart, um porta-voz de Coburn, afirma não ter certeza se os esforços de Coburn podem ser vinculados à decisão da NSF; mas o senador apoiou com veemência a eliminação completa do financiamento para ciências políticas. Em seu site, a NSF cita incertezas orçamentárias como a razão por trás de sua decisão.

A porta-voz da NSF, Deborah Wing, negou o pedido da Nature para entrevistar Brian Humes, um diretor do programa de ciências políticas e não quis responder a perguntas sobre a suspensão do ciclo de subvenções.

No entanto, o site da agência diz que manterá sua convocação para a apresentação de propostas de ciências políticas em janeiro como de costume. Aldrich observa que isso sugere que o cancelamento do financiamento é uma resposta às exigências do Congresso, marcadas para expirar em 30 de setembro, no fim do ano fiscal de 2013.

Evitar a rodada de financiamentos de agosto pode ser uma jogada estratégica de Humes para ver se as limitações desaparecerão quando a próxima lei de gastos for aprovada, comenta Aldrich. “Seria útil se ele pudesse economizar o dinheiro e gastá-lo mais tarde, quando houver mais clareza”, conclui Aldrich.

Outros pesquisadores concordam. “Acredito que eles provavelmente estão preocupados em não irritar o Congresso”, diz Rick Wilson, um cientista político da Rice University em Houston, no Texas, e editor da revista American Journal of Political Science. “Então, por que não puxar o plugue em vez de arriscar?”

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 5 de agosto de 2013.