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O balanço dos gibões

Genes explicam sua flexibilidade e seus cromossomos tão peculiares

 

Mark Dumont via Flickr
Geneticistas são fascinados por gibões porque eles foram os primeiros primatas a se separar do ancestral comum que compartilham tanto com humanos quanto com macacos.

 

 

 
Por Ewen Callaway e Revista Nature

Asia, uma fêmea de gibão de bochechas brancas que mora em um zoológico da Virgínia, é a primeira desses primatas de braços longos a ter seu genoma decodificado. A sequência de seu DNA, e as de sete outros gibões – um total de seis espécies diferentes – ajuda a explicar como esses primatas se adaptaram à vida nas árvores. Elas também podem explicar por que gibões são tão diversos se comparados aos grandes primatas – humanos, chimpanzés, gorilas e orangotangos.

Gibões são reconhecidos por sua destreza em densas coberturas de árvores, atravessando até 15 metros em um único balanço a velocidades de mais de 55 quilômetros por hora. O grupo abarca quatro gêneros e 19 espécies, todas vivendo nas florestas da Ásia tropical, do gibão-prateado (Hylobates moloch) em Java, ao gibão-hoolock-ocidental (Hoolock hoolock) no nordeste da Índia.

Geneticistas são fascinados pelos gibões porque eles foram os primeiros primatas a se separar do ancestral comum que compartilham tanto com humanos quanto com macacos. E gibões têm cromossomos peculiares. Quando comparados a outros primatas, seus genomas têm muito mais rearranjos cromossômicos, como duplicações, deleções ou inversões de grandes trechos de DNA, que podem afetar o funcionamento dos genes. “Rearranjos cromossômicos são como terremotos: um evento que modifica completamente a paisagem, e você pode ver essa modificação após uma geração”, compara Lucia Carbone, geneticista evolutiva da Oregon Health and Science University em Portland, que conduziu o trabalho com o genoma dos gibões. “Encontramos muitos terremotos no genoma desses animais”.

Os autores atribuem a explosão na diversidade do gibão a um tipo de `gene saltador` – um trecho de DNA que pode mudar sua posição no genoma – encontrado apenas nos gibões entre os primatas. Os pesquisadores sugerem que esse trecho de DNA tenha aterrissado perto de genes envolvidos na replicação cromossômica, tornando o genoma mais propício a rearranjos. Rearranjos cromossômicos podem evitar o acasalamento de dois indivíduos, e assim acelerar a especiação. 

A equipe também descobriu que quatro gêneros diferentes de gibões parecem ter evoluído simultaneamente entre quatro e cinco milhões de anos atrás, quando níveis oscilantes dos oceanos começaram a dividir as florestas do Sudeste Asiático, criando barreiras geográficas que teriam restringido o contato entre grupos. O trabalho foi publicado no volume de 11 de setembro da Nature.

O estilo de vida único dos gibões também pode tê-los ajudado a prosperar. Carbone e sua equipe descobriram que genes envolvidos no desenvolvimento de ossos e cartilagens e na produção de colágeno parecem ter evoluído mais rápido em gibões que em outros primatas. “Isso faz todo sentido porque gibões têm tendões e flexores modificados que lhes permitem escalar com facilidade”, observa ela.

“Esse poderia ser o segredo de seu sucesso – o fato de que eles conseguiram se adaptar a esse ambiente que domina o Sudeste Asiático”, aponta Aylwyn Scally, geneticista evolutivo da University of Cambridge, no Reino Unido. Orangotangos, em contraste, estão à beira da extinção nessa mesma região, devido à perda de habitat. “Os gibões conseguiram sobreviver na mesma situação”, comenta ele. 

Gibões estão se saindo bem se comparados a outros primatas, mas algumas espécies estão em alto risco de extinção. Estima-se que a população de gibões-negros-crisados-orientais (Nomascus hainanus), que vive apenas em uma pequena região da Ilha Hainan, na China, esteja reduzida a 23 ou 25 membros.

Carbone, que tem um gibão de bochechas brancas batizado em sua homenagem no centro de conservação da Califórnia, espera que o genoma de gibão ajude nos esforços de conservação tornando mais fácil avaliar a diversidade genética e a alocação de recursos.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado pela primeira vez em 11 de setembro de 2014. 

Scientific American 11/set/2014