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O bom uso da energia solar precisa superar diversos dilemas

Benefícios de paineis solares em casas americanas podem ser difíceis de alcançar

TETO SOLAR: Conforme fotovoltaicos em telhados se tornam mais acessíveis, eles se tornam uma ameaça cada vez maior a companhias elétricas tradicionais
Por David Biello

O problema da melhoria doméstica começou, como sempre, com uma visita ao depósito. Lá, Richard Lindley, empreiteiro de 50 anos que mora em Somerville, Massachusetts, encontrou alguns jovens que ele descreveu como “fervorosos” e que tinham o que ele acreditava ser um “modelo de negócios muito interessante”.

Foi isso que ele ouviu: uma empresa, nesse caso a SolarCity, vai até sua casa e instala um sistema solar de US$20 mil para você. Você não paga nada.A SolarCity também obtém todas as permissões necessárias se você assinar um contrato de 20 anos para comprar a eletricidade gerada por esses paineis solares recém-instalados.

Essa eletricidade é vendida a um preço menor que o da companhia elétrica local – no caso de Lindley, cerca de 11 cents para cada kilowatt-hora de eletricidade produzido pela luz do sol no primeiro ano (com um aumento anual de 2,5%). Qualquer excesso é vendido de volta para a rede, o que lhe traz uma conta de eletricidade muito menor.

Para Lindley isso parecia a realização de um sonho, especialmente quando ele considerou a chance de fazer algo pelo meio-ambiente sem ter que se preocupar com seguros, manutenção ou reparos de um sistema solar. “Eles estão fazendo uma coisa muito boa com a energia verde”, declara ele, “construindo uma infraestrutura baseada em energia solar, não em combustíveis fósseis”.

Mas existe uma problema: a coordenação entre empresa solar, companhia elétrica e dono da casa pode falhar – deixando o morador encurralado.

A energia solar está crescendo, graças a fotovoltaicos acessíveis, modelos inovadores de negócios como o descrito acima e subsídios federais e estaduais.

Desde 2010, instalações solares nos Estados Unidos aumentaram seis vezes – de dois mil para mais de 12 mil megawatts. Ao mesmo tempo, o custo de instalar equipamentos solares caiu pelo menos 60%.

À frente dessa indústria estão empresas como a SunRun, SunPower e SolarCity – essa última instalou o sistema de Lindley em 2013. A SolarCity anunciou em 7 de agosto que já tinha instalado 1,2 megawatts em telhados solares por dia nessa primavera boreal. “Agora é o momento de capturar o mercado e crescer o mais rápido possível”, declarou o Executivo-Chefe Lyndon Rive ao anunciar esses resultados financeiros.

Mas como qualquer grande expansão, esse crescimento pode estar superando a capacidade de fornecer uma boa tecnologia e um bom serviço de apoio ao cliente.

No caso de Lindley, os jovens barbados que escalaram seu telhado para a SolarCity conectaram o sistema de 12 paineis fotovoltaicos ao medidor elétrico errado. Como resultado, Lindley não viu os quase 4.300 kilowatt-hora de eletricidade solar que a SolarCity estimou que seus paineis produziriam anualmente, e nem viu a conta de eletricidade diminuir. E seu uso de eletricidade pareceu aumentar, mesmo no inverno. “Em vez de receber energia solar, o que eu recebi foi uma conta de energia elétrica maior, mas a SolarCity continuou a me cobrar pela produção dos paineis solares”, conta ele.

Em outras palavras, Lindley estava pagando mais para ficar verde, especialmente depois de a SolarCity colher todos os créditos e subsídios federais e estaduais disponíveis (bem como quaisquer futuros “incentivos, créditos de energia renovável, marcas verdes, créditos de carbono, descontos utilitários ou quaisquer outros atributos não-energéticos do sistema, são propriedade de, e para o benefício da, SolarCity”, como declara o contrato em letras maiúsculas).

Meses de conversas com equipes do serviço ao consumidor da SolarCity só produziram desculpas: paineis solares produzem menos energia no inverno (verdade, mas nesse caso isso é irrelevante); o medidor está com defeito, então chame a companhia elétrica para consertá-lo (falso e irrelevante); e por último, mas não menos importante, muitas pessoas que instalam paineis solares começam a usar mais eletricidade. “Algumas pessoas realmente o fazem”, declara Jonathan Bass, vice-presente de comunicações da SolarCity. “Eles abrem as tomadas porque agora têm energia solar”. 

“Se nós mudamos nosso estilo de vida?”, lembra Lindley, “Na prática, nada mudou. Nada que triplicasse nosso uso, e foi isso que aconteceu”.

Após meses de frustrantes conversas que incluíram promessas vazias da SolarCity de enviar uma equipe de reparos e, por fim, a recusa de Lindley em continuar a pagar, ficou claro que os fervorosos jovens barbados da SolarCity haviam conectado o sistema solar no medidor errado. A rede local recebeu cerca de 3.200 kilowatt-horas de energia solar que nunca foram registrados no medidor de Lindley ou retornaram como prometido.

Como resultado, a SolarCity creditou Lindley por um ano de pagamentos e começou do zero. “Tem sido uma dor de cabeça. Eu queria não ter aceitado a proposta”, lamenta Lindley. “Até hoje nós não entendemos como isso funciona, e quem está pagando o quê. Eu não estou feliz com o serviço”.

Lindley não está sozinho. Moradores do Arizona tiveram problemas com empresas solares que não retornam ligações para instalar um sistema solar. Paineis defeituosos prejudicaram a produção de eletricidade vinda do sol, mesmo em um estado ensolarado.

E companhias elétricas começaram a oferecer resistência: a Companhia Elétrica do Havaí proibiu a instalação de novos sistemas solares a menos que moradores paguem pela proteção da rede local devido ao excesso de eletricidade solar – um custo que adiciona milhares de dólares ao preço de um sistema solar, e que reduziu o desenvolvimento da energia solar, mesmo naquele estado ensolarado.

A guerra civil solar colocou companhias elétricas – auxiliadas por grupos externos de interesse, como o Conselho Legislativo dos Estados Unidos – contra moradores que querem a energia solar. “Já tivemos dois aumentos desde que instalei a energia solar”, declara o morador de Phoenix, Jerry Dieterich, outro empreiteiro geral que, como a maioria dos moradores com energia solar, está muito feliz com sua decisão de obter energia do Sol através da SolarCity em vez de depender totalmente da companhia elétrica local. “Esses aumentos não afetam quem tem energia solar. Eu adoro isso”.

Para complicar ainda mais o assunto, existe o confuso conjunto de regras que varia de estado para estado e, em alguns casos, município para município.

Enquanto clientes da SolarCity no Arizona podem aproveitar um leasing de preço fixo que garante um custo mensal único, clientes da SolarCity em Massachusetts precisam comprar a eletricidade de seu próprio telhado ou vendê-la para a companhia elétrica local.

Isso pode colocar moradores, a SolarCity e a companhia elétrica em lados opostos: no caso de Lindley, como a SolarCity e a companhia elétrica local continuaram a receber, apenas Lindley teve que se mover para resolver o problema. “Você precisa de um mestrado em engenharia elétrica para compreender como a conta da companhia elétrica está conectada aos paineis da SolarCity”, aponta Lindley.

“Nós temos um relacionamento de 20 anos com um cliente”, comenta Rive, apontando que os contratos da SolarCity duram mais que muitos casamentos. “Se o consumidor está infeliz, temos que consertar as coisas. Não é como se algum de nós estivesse indo embora”.

O problema mais importante da expansão, porém, pode não ser os obstáculos com o serviço ao consumidor, mas um aumento no preço de dispositivos fotovoltaicos. A capacidade reduzida da China, além de tarifas impostas pelos Estados Unidos, fizeram os preços de módulos solares subir de quase 50 cents por watt para 60 cents por watt em meses recentes.

Isso é parte da razão de a SolarCity ter comprado a produtora de paineis solares Silevo para garantir um fornecimento estável de paineis para expansão em vez de depender de produtores como a SunPower, que agora estão entrando no mercado de instalação como competidores diretos. “Para a próxima fase da energia solar, você precisa de produção em grande escala para reduzir o custo”, observa Rive. “A ideia é ter um produto superior a um custo menor, para chegar ao ponto em que seja possível fornecer energia limpa mais acessível”.

A SolarCity estima que aproximadamente 30 milhões de lares nos Estados Unidos possam se beneficiar da instalação de um sistema solar, se comparado aos quase 200 mil que já possuem a tecnologia.

Enquanto isso, educar esses futuros donos de energia solar sobre os possíveis desafios de obter eletricidade do Sol não parece uma prioridade na lista de coisas a fazer de empresas ou agências reguladoras. “Se cometermos um erro, nós vamos corrigí-lo”, declara Bass, osbervando as altas qualificações da empresa emitidas pelo Better Business Bureau e por formulários de clientes. “Estamos tentando eliminar cada vez mais barreiras para tornar a energia solar popular”.

 
1.      Semicondutor

Os cristais cintilantes de silício em cada célula são o núcleo desses dispositivos (o silício aparece azul graças a uma cobertura antirreflexo). Cada painel contém uma grade de muitas dessas células solares de silício, e o silício em si é banhado com outros químicos de modo a poder gerar corrente quando atingido por luz.

2.      Fiação

Uma corrente elétrica só é útil em um circuito que lhe permite fluir para onde ela pode ser usada. Painéis solares incluem um tracejado de material metálico, tipicamente feito de prata ou cobre, que conduz a eletricidade para longe das células solares

3.      Corrente

Ao atingir um cristal no painel, um fóton proveniente do sol desloca um elétron livre na camada de silício que foi quimicamente alterada para doar elétrons, o que lhes permite movimento (chamado de silício tipo-N). Esse elétron migra para uma camada adjacente de silício que foi tratada para aceitar a partícula negativa (silício tipo-P), assim criando uma corrente elétrica. Mas o silício só consegue converter a energia de certos comprimentos de onda de luz. Uma camada antirreflexiva composta de camadas finas de metais como a prata dá ao painel sua tonalidade azul e garante que fótons extraviados sejam redirecionados de volta para as camadas fotovoltaicas de silício. Um fundo reflexivo de alumínio tem um papel semelhante para a luz do sol que penetra pela célula, e também fornece suporte estrutural.

 

4.      Grade de Conexão

Uma única célula solar se torna útil quando conectada a um dispositivo alimentado por eletricidade, seja um motor ou uma lâmpada. Sistemas típicos de energia solar também incluem um inversor para converter corrente direta em corrente alternada usada em lares, além de, possivelmente, baterias para armazenar eletricidade solar.

5.      Energia Solar

Fotovoltaicos funcionam onde quer que haja luz solar, mas funciona melhor em áreas com luz ininterrupta e baixa umidade, como as encontradas no deserto e no sudoeste dos Estados Unidos. Infelizmente, esses dispositivos não se dão muito bem com o grande calor e a poeira presentes nessa região.

 sciam 19ago2014