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O cérebro adulto pode mesmo gerar novos neurônios?

Um novo estudo agita o debate sobre uma descoberta de longa data, e poderia enfraquecer as esperanças para o tratamento de doenças neurodegenerativas

A observação de que o cérebro humano cria novos neurônios durante a vida é uma das maiores descobertas da neurociência nos últimos 20 anos. A ideia interessa tanto à população quanto aos cientista, em parte pela expectativa de que a capacidade regenerativa cerebral possa ser aproveitada para acelerar a cognição e tratar danos ou doenças. Em animais, a produção contínua de novos neurônios foi relacionada à melhora do aprendizado, da memória, e possivelmente até à regulação do humor.

Mas novas pesquisas em humanos, reportadas online na revista Nature na quarta-feira (7), puxam o freio para essa ideia. Num desafio direto aos estudos anteriores, os autores relatam que os adultos não produzem nenhuma célula nova no hipocampo, um ponto central de processamento da memória.

O estudo traz novos dados para o debate sobre se, e até que ponto, o cérebro produz novas células na idade adulta. Os cientistas originalmente acreditavam que o cérebro parava de criar neurônios após o nascimento, ou logo depois. Mas pesquisas nos anos 1960 começaram a refutar esse dogma. Técnicas emergentes para marcar células que se dividiam revelaram o nascimento de novos neurônios - um processo chamado de neurogênese - em partes do cérebro adulto. Nas décadas seguintes, os cientistas identificaram neurogênese adulta em outras espécies, incluindo pássaros, camundongos e macacos. Em 1998, em um estudo importante, os pesquisadores relataram o fenômeno no hipocampo humano. Outro estudo de relevância, feito em 2013, confirmou essas pesquisas, estimando que 1400 neurônios do hipocampo se formam diariamente nos cérebros humanos.

O novo estudo traz as coisas para o ponto de partida, impressionando a todos - até mesmo seus próprios pesquisadores. “Nós fomos ao hipocampo esperando ver muitos neurônios novos”, diz um dos autores Arturo Alvarez Buylla, um neurocientista da Universidade da Califórnia em São Francisco. “Ficamos surpresos quando não conseguimos encontrá-los”.

Juntamente com colaboradores na China, Espanha e Los Angeles, a equipe de Alvarez Buylla examinou 59 amostras de cérebros humanos  que variavam a idade desde estágios fetais até os 77 anos, obtidos após a morte ou durante uma cirurgia cerebral. Os pesquisadores cortaram o tecido e aplicaram vários anticorpos que sinalizam a presença de novos neurônios, assim como de células que se dividem, o que dá origem a novos neurônios. Eles encontraram evidências claras de novos neurônios se formando em amostras pré-natais e neonatais, mas elas caíram drasticamente no primeiro ano de vida. Entre sete e treze anos, apareciam apenas alguns neurônios novos isolados. Em amostras adultas, os pesquisadores não encontraram neurônios novos.

“Essa pesquisa justifica meu pensamento”, disse o neurocientista Paso Rakic, um cético que estuda a neurogênese em humanos adultos. O trabalho de pesquisa da Universidade de Yale sugere que um macaco adulto produz menos neurônios novos do que um roedor adulto. Rakik é a favor da ideia de que em primatas, incluindo humanos, a ausência ou quase ausência da neurogênese adulta poderia ajudar a prevenir interrupções nos circuitos neurais complexos. “Esse artigo não só mostra uma evidência bastante convincente da falta de neurogênese no hipocampo dos adultos humanos, mas também que algumas das evidências apresentadas em outros estudos não foram conclusivas”, diz ele.

Outros cientistas não associados ao trabalho interpretam as descobertas de uma forma menos rígida. “É de longe a melhor base de dados que já foi compilada sobre a renovação celular no hipocampo adulto humano”, diz Steven Goldman, um neurologista do Centro Médico da Universidade de Rochester e da Universidade de Copenhagen. “Ainda não está determinado se se produz qualquer novo neurônio”, disse, adicionando que, se houver neurogênese, “ela não ocorre nos níveis [altos] que foram previstos por muitos”. Goldman tem dúvidas desde o começo dos anos 2000, quando seu grupo isolou células precursoras neurais do cérebro de adultos humanos. Essas células, embora fossem capazes de produzir neurônios em um prato de laboratório, eram escassas no cérebro. Goldman acredita que o novo estudo irá ajudar a moderar as altas expectativas de que a neurogênese adulta possa ser estimulada para tratar de problemas de memória ou distúrbios do humor nos pacientes.

Ainda assim, outros argumentam que é muito cedo para mudar o curso dos estudos baseado no novo resultado. Jonas Frisén, um dos autores do estudo de 2013, acredita em suas descobertas iniciais. “Já que eles estão buscando um fenômeno raro, podem não ter procurado com o cuidado suficiente”, ele diz. Os 1400 neurônios que a equipe de Frisén estima surgirem diariamente compreendem uma pequena parte das dezenas de milhões células do hipocampo. Para encontrá-las, seu grupo no Instituto Karolinska, em Estocolmo, estudou pessoas que foram expostas a testes de bombas nucleares na guerra fria, e incorporaram um isótopo de carbono radioativo na divisão de suas células por muitos anos. Essa medida cumulativa, argumenta Frisen, pode detectar a neurogênese melhor do que os anticorpos que rotulam novos neurônios de uma só vez.

O grupo de pesquisa liderado pela U.C.S.F “não está realmente medindo a neurogênese nesse estudo”, complementa o neurocientista Fred Gage, do Instituto Salk para Pesquisas Biológicas. “A neurogênese é um processo, não um evento. Eles apenas pegaram um tecido morto e olharam para ele por um período de tempo”. Em seu estudo seminal de 1998, Gage e seus colegas estudaram o cérebro de pessoas que receberam, como parte de um tratamento para câncer, uma molécula de imageamento que ficou integrada ao DNA de células que se dividem ativamente. Gage também acredita que os autores usaram um critério restritivo para contar as células progenitoras neurais, reduzindo ainda mais as chances de encontrá-las em adultos. Longe de acabar com o debate, Gage prevê que esse ensaio provocativo irá intensificar o interesse nessa área de estudo. “Haverá muito mais artigos”, ele disse.

Helen Shen

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