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O choro nos faz humanos

Empatia e lágrimas de emoção são alicerces da moralidade e cultura humanas, defende pesquisador

http://commons.wikimedia.org/
A morte de Aquiles, estátua em mármore de autoria de Christophe Veyrier é datada de 1683 e faz parte do acervo do Victoria and Albert Museum, London, UK
Michael Trimble, um professor britânico do Instituto de Neurologia em Londres, inicia seu novo livro com Gana, a gorila.

No verão de 2009, Gana, de 11 anos, deu à luz um menino no zoológico Muenster. Mas em um dia de agosto, o bebê repentina e misteriosamente morreu. Gana segurou seu filho diante de si, olhando fixamente para o corpo inerte. Ela o apertou contra si, acariciando-o. Para observadores parecia que Gana estava tentando reanimá-lo e, conforme passavam as horas, que estava lamentando sua morte. Naquele dia, algumas pessoas choraram no zoológico. Mas Gana, não.

Humanos, conta-nos Trimble, são as únicas criaturas que choram por razões emocionais. “Why Humans Like to Cry” é uma exploração do porquê de isso acontecer, uma versão neuroanatômica da pergunta “de onde vêm as lágrimas?”. E também é uma reflexão sobre a psicologia humana.

Trimble adiciona mais distinção entre humanos e o resto do mundo animal: a lágrima angustiada, a apreensão de que a vida é trágica. Trimble respondeu perguntas de Gareth Cook, editor da Mind Matters,

Cook: Como o senhor se interessou pelo choro?

Trimble: Evidentemente, é porque eu choro, e algumas coisas me levam às lágrimas com bastante facilidade, especialmente a música, e a ópera com o poder da voz humana.

Derramar lágrimas, por razões emocionais é característica exclusiva de seres humanos. Existe um jogo de “pegue-me se puder”, que vem sendo jogado por aqueles interessados em encontrar atributos ou comportamentos que separam humanos de nossos parentes viventes mais próximos – chimpanzés e bonobos.

Certamente nossa linguagem proposicional é muito especial, mas comunidades de primatas têm maneiras muito sofisticadas de se comunicar.

Outras características como brincadeiras, uso de ferramentas, ou ter o que se chama de teoria da mente (a sensação de saber que outros têm uma mente muito parecida com a minha, com inclinações e intenções semelhantes) foram defendidas como sendo únicas à nossa espécie, mas demonstrou-se que todas elas, de alguma forma, são encontrados em outros primatas. O choro emocional nos faz humanos.

Cook: O que se sabe sobre o choro no mundo animal?

Trimble: Lágrimas são necessárias para manter o globo ocular úmido, e contêm proteínas e outras substâncias que mantêm o olho saudável e combatem infecções. O lacrimejar ocorre em muitos animais em resposta a irritantes que caem nos olhos, e em alguns casos lágrimas são derramadas por simples fatos anatômicos.

Quando um elefante está de pé, lágrimas correm por seu tronco, mas quando ele está deitado, o fluxo é impedido e lágrimas podem ser vistas saindo de seus olhos.

Pode ser que animais que sofrem abusos derramem lágrimas, de dor, ainda que essas observações sejam raras.

Cook: Como o choro é diferente em humanos?

Trimble: Humanos choram por muitas razões, mas chorar por razões emocionais e chorar em resposta a experiências estéticas nos é único.

O primeiro é principalmente associado a perda e luto, e as formas de arte mais associadas às lágrimas são música, literatura e poesia. Há muito poucas pessoas que choram observando pinturas, esculturas, ou prédios adoráveis. Mas nós também temos lágrimas de alegria, com sentimentos associados que duram menos do que chorar nas outras circunstâncias.

Cook: O que o senhor acha mais interessante sobre a neurociência do choro?

Trimble: Se for verdade que apenas humanos choram emocionalmente, então deve ter havido um momento na evolução humana em que as lágrimas assumiram um significado adicional além de suas funções biológicas, como um sinal de angústia e uma codificação para o sofrimento.

Em meu livro discuto quando, no passado, nossos ancestrais podem ter vindo a possuir essa característica.

Sugiro que isso está conectado com a aurora da autoconsciência, com o desenvolvimento da teoria da mente, e com a percepção de que o self e os outros podem desaparecer.

Seguiram-se ligações emocionais a outros, com o desenvolvimento de gestos faciais sofisticados associados ao sofrimento, e com a perda e o luto. Tudo isso antes do desenvolvimento de nossa elegante linguagem proposicional.

As respostas emocionais se tornaram, em grande parte, inconscientes e inatas, e a identificação de lágrimas como um sinal dessa angústia foi uma adição importante ao chamado “cérebro social”, com circuitos que agora podem ser identificados no cérebro humano.

Eu também discuto as diferenças entre a neuroanatomia do cérebro humano e a de chimpanzés e outros primatas com parentesco próximo, o que pode explicar nossa capacidade de responder emocionalmente com lágrimas às artes.

As áreas cerebrais envolvidas são variadas, mas ligam nosso córtex cerebral, especialmente o anterior, às áreas associadas à representação da emoção – chamadas de estruturas límbicas, e nosso sistema autônomo.

A última coordena frequência cardíaca, respiração, e produção vocal, e tudo isso colabora para a expressão de emoção com lágrimas.

Cook: O senhor menciona “teoria da mente” e choro. O senhor pode me dizer mais sobre a conexão entre as duas?

Trimble: A teoria da mente se refere a uma área da cognição social que se desenvolveu enormemente em humanos, apesar de capacidades semelhantes em formas muito mais limitadas terem sido mostradas em chimpanzés. A capacidade de sentir compaixão, que se relaciona à nossa capacidade de empatia, é disparada pelo que o neurologista Antônio Damásio chama de estímulos emocionalmente competentes.

As respostas são automáticas, inconscientes, e ligadas à nossas memórias pessoais. Ver expressões faciais de tristeza dispara os circuitos neurais relacionados à teoria da mente e à empatia, que até certo ponto se sobrepõem, e envolvem, em parte, as áreas cerebrais que nos conferem nossos sentimentos viscerais, emocionais, observados acima.

A lágrima, como parte da expressão de sofrimento, se tornou um emblema que adorna a expressão. A lágrima, ligada mitologicamente à pureza com a forma de uma pérola, forneceu uma imagem que, com o tempo, veio a simbolizar tristeza, pesar, mas também alegria em música, poesia e nas artes visuais. 

Cook: Que lição o senhor acha que isso nos traz?

Trimble: As lágrimas são uma resposta natural não apenas ao sofrimento, mas também ao sentimento de compaixão por alguém que está derramando lágrimas.

Tem havido muita relutância, especialmente por parte de homens, em admitir que choramos e a chorar em público. Mas heróis gregos como Agamenon e Aquiles choraram, e 2012 viu muitas lágrimas em público, dos vencedores e perdedores dos Jogos Olímpicos, ao presidente Obama, que chorou após sua reeleição.

Não deveríamos temer nossas emoções, especialmente as relacionadas à compaixão, já que nossa capacidade de sentir empatia e, com ela, a de derramar lágrimas, é a fundação de uma moralidade e cultura que são exclusivamente humanas
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