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O distúrbio bipolar de Carrie Fisher contribuiu para sua morte?

A estrela da saga Star Wars serviu de exemplo para outros que também sofrem com a doença

 

Crédito:Riccardo Ghilardi sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported

A atriz e escritora Carrie Fisher, que morreu no início da semana passada depois de sofrer um ataque cardíaco durante um voo, não era apenas um ícone do entretenimento, mas também uma proeminente porta-voz da saúde mental. Fisher era conhecida por falar abertamente sobre suas experiências com álcool e outras drogas, além de seu distúrbio bipolar, diagnosticado quando tinha 24 anos, e frequentemente escrevia sobre tudo isso em artigos e em seu livro de memórias e best-seller Wishful Drinking (Simon & Schuster). Sua voz enfrentou o estigma envolvido em distúrbios psicológicos, e ajudou outros com histórias parecidas.

Em uma coluna de conselhos que ela escreveu para o jornal inglês The Guardian no mês passado, Fisher ofereceu orientação para um jovem adulto com distúrbio bipolar. No texto, ela explica que inicialmente rejeitou o diagnóstico que recebeu aos 24 anos, e só o aceitou quando tinha 28, “quando tive uma overdose e finalmente fiquei sóbria. Só nesse momento eu fui capaz de perceber que nada mais poderia explicar o meu comportamento.” Ela enfatizou a importância de se conectar com outras pessoas que também sofrem com o distúrbio, e acrescentou: “nós sofremos de uma doença desafiadora, e não existe outra opção além de enfrentar esse desafio.”

Alguns acreditam que o abuso de drogas de Fisher e seu descontentamento com seu peso podem ter contribuído para sua morte, com alguns médicos considerando os riscos cardiovasculares oferecidos pelo uso de cocaína, particularmente. Apesar dessas hipóteses serem especulativas, existe uma possibilidade que foi negligenciada: a influência do distúrbio bipolar, que, em vários estudos, já foi relacionado à doenças cardiovasculares e mortalidade.

Essa associação “foi confirmada em estudos representativos e apresenta um risco elevado — isto é, pessoas com distúrbio bipolar tem duas vezes mais chances de desenvolver ou morrer de doenças cardiovasculares” afirma Jess Fiedorowicz, professor associado de psiquiatria, medicina interna e epidemiologia na Universidade de Iowa, e que publicou um estudo sobre o assunto em 2009, na revista científica Psychosomatic Medicine. “É importante notar que o início de doenças cardiovasculares ocorre muito prematuramente em pessoas com distúrbio bipolar, até 17 anos mais cedo em comparação com a população em geral” acrescenta Benjamin Goldstein, psiquiatra de crianças e adolescentes da Universidade de Toronto, que publicou um estudo relacionado em 2015, na revista científica Circulation.

Os possíveis fatores que fundamentam a conexão são inúmeros e se sobrepõem. “Comportamentos relacionados a um estilo de vida negativo, incluindo nutrição inadequada, sedentarismo, tabagismo e uso excessivo de álcool e outras substâncias são mais comuns em pessoas com distúrbio bipolar,” afirma Goldstein. “A angústia dos sintomas de humor que variam entre mania e depressão, o que caracteriza o distúrbio bipolar, e o estresse que ocorre como consequência desses sintomas soma ao risco cardiovascular.”

Além disso, indivíduos com distúrbio bipolar têm menos chances de serem submetidos a exames de imagem que denunciem os fatores de risco de doenças cardiovasculares. “Mesmo quando esses fatores de risco são identificados, eles possuem menos probabilidade de receberem a prescrição apropriada para tratamentos, e os pacientes têm menos chances de aderir corretamente e consistemente a eles” quando as medicações corretas são receitadas, nota Fiedorowicz. Muitos medicamentos utilizados para tratar o distúrbio podem causar efeitos adversos “como ganho de peso, aumento dos níveis de triglicérides, diabetes mellitus e mesmo morte cardíaca repentina causada por arritmia”, ele afirma. Outra influência em potencial é o efeito do distúrbio no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal e no sistema nervoso autônomo, que são ativados pelo estresse agudo e pelos estados de humor do distúrbio.

A magnitude do risco elevado de doenças cardíacas em pessoas com o distúrbio bipolar, no entanto, excede os efeitos dos fatores de risco tradicionais, sugerindo a possibilidade de causas compartilhadas entre as duas doenças; “Por exemplo, episódios de mania e depressão foram ligados a níveis elevados de inflamação, que, sabe-se, podem aumentar o risco de doenças cardíacas,” explica Goldstein. “Também há evidências de problemas com o funcionamento e a estrutura de vasos sanguíneos em pessoas com o distúrbio, e isso ocorre no cérebro e no corpo.” Atualmente, Goldstein e seus colegas estão explorando o papel de “microvasos” nesses processos.

Pesquisas futuras devem focar em explorar esse e outros mecanismos possíveis, bem como em estudos de intervenção relacionados a estratégias específicas de redução de risco cardiovascular que “levem em consideração barreiras para uma boa saúde cardíaca que são exclusivas de pessoas com o distúrbio”, diz Goldstein. No que diz respeito ao tratamento, existe “a necessidade de disseminar tipos de modelos de saúde que possam fornecer cuidado psiquiátrico, integrado com outros cuidados médicos, para pessoas com distúrbio bipolar e doenças relacionadas,” adiciona Fiedorowicz.

Ainda que Fisher se encaixe em várias das situações de risco citadas em diferentes momentos de sua vida, não há como saber se seu distúrbio bipolar ou seu histórico de adição contribuíram para sua morte. O que está claro, no entanto, é que perdemos uma inestimável porta voz da saúde mental. Naquela coluna de conselhos de novembro, ela escreveu para o jovem “pense no seu diagnóstico como uma oportunidade de ser heróico… um sobrevivente emocional. Uma oportunidade de ser um bom exemplo para outros que, como nós, sofrem dessa doença.” Ela com certeza assim o fez em sua própria vida.

 

Tori Rodriguez 

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