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O escultor de máquinas ambientais

Ivan Henriques é um artista profissional, mas é na ciência que ele busca inspiração para criar suas obras. Cada peça é feita em parceria com um pesquisador ou um laboratório, e ele já colaborou com instituições como a Universidade Livre de Amsterdam, a Universidade de Leiden, o Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro e até a Agência Espacial Europeia, com quem desenvolve um projeto que sonha abrir caminho para a colonização de Marte. O trabalho com temas científicos se iniciou nos tempos de estudante de Belas Artes na UFRJ, onde se formou escultor. Sua principal paixão está em desenvolver máquinas biológicas que possam contribuir para o equilíbrio ambiental.

A Máquina Simbiótica (foto 1) é um bom exemplo de sua produção. É uma estrutura robótica fotossintética, autônoma e flutuante que “se alimenta” de organismos encontrados em lagoas, mares ou canais, como algas, quebrando suas células e colhendo a energia delas para se movimentar. Desta forma se infiltra na cadeia alimentar, como um animal, e pode ser muito útil em locais onde as algas proliferam de maneira excessiva.

Na entrevista abaixo, Henriques fala sobre a conexão entre ciência e arte, suas demais criações - incluindo a colaboração com a Agência Espacial Europeia num projeto de terraformagem em Marte - e sua mais recente exposição, “Relandscape/Repaisagem”, que está em exibição no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, até o dia 22 de outubro.

 

Como se deu seu envolvimento com a temática científica?

O interesse vem desde pequeno. Na verdade, minha mãe era da área de biomédica e meu pai era engenheiro, então ainda criança eu ficava vendo os livros da minha mãe. Mesmo antes de aprender a ler, eu já ficava desenhando as células, mitocôndrias, eu achava essa parte biológica fascinante. E, conforme o tempo foi passando, o interesse foi ficando mais aguçado.

 

Como você escolhe os conceitos científicos com que vai trabalhar? Como você os estuda?

Eu sou muito curioso. Desde de pequeno eu abro as coisas e tento ver o que são e como elas funcionam. Eu trabalho dentro do campo artístico me inspirando em ciência desde quando me graduei na UFRJ. Depois da faculdade, quando fui fazer mestrado em arte e ciência, na Holanda, tive mais abertura para conversar e trocar ideias com cientistas. Lá, comecei a me especializar mais em robótica e biotecnologia, justamente por trabalhar próximo a cientistas.

Cada vez que eu vou desenvolver algo faço um estudo específico. Nos meus projetos Jurema Action Plant (foto 2) e Protótipo para uma Nova Biomáquina (foto 3), trabalhei com o cientista Burt van Duijin, da Universidade de Leiden, que é especialista em eletrofisiologia e biomecânica. Eu estava muito interessado em saber sobre a energia que essas plantas têm. Depois disso, vi uma palestra do cientista Raoul Frese, que é especialista em fotossíntese sintética. Eu achei inspirador o jeito que ele fala sobre a fotossíntese, uma função biológica essencial para qualquer vida terrestre. E então fiz a Máquina Simbiótica, que é uma máquina que realiza justamente a fotossíntese sintética, ela funciona como uma planta.

Quando eu estou fazendo os trabalhos, penso em equilibrar nossa produção e os recursos naturais que usamos. Estamos, hoje, em um estágio em que muito já foi destruído e existem muitos desequilíbrios ecológicos. Quando pensamos em máquinas, ou elas são feitas para pesquisas em territórios remotos ou para exploração de recursos, mas você não tem máquinas que ajudem o meio ambiente.

 

E o estudo que você faz antes de cada trabalho vem do contato direto com os cientistas ou através da literatura científica?

As duas coisas. Essas biomáquinas possuem vida própria, eu sou apenas o motor que faz elas evoluírem. Nesse momento, na verdade, eu, o Raoul Frese, a Agência Espacial Europeia e um grupo de cientistas estamos trabalhando em um projeto de terraformagem de Marte que pode ser usado na Terra. E esse projeto, a Máquina Simbiótica para Exploração Espacial (foto 4), é fruto da Máquina Simbiótica e da Caravela.

 

Já aconteceu de um projeto seu ter inspirado um projeto científico?

Sim, já aconteceu. Para dar um exemplo recente, uma empresa de patente americana, chamada de IEEE, viu a  Máquina Simbiótica e se inspirou nela, escreveram um artigo científico que a citava como exemplo. Mas a minha força motriz é a força artística. Claro que quem tem um olhar científico vê futuras aplicações e quem é da área artística pode se inspirar nas minhas obras, mas quando eu realizo meu trabalho eu não penso em aplicação comercial. Eu faço dentro de uma área artística, embora eu saiba que os trabalhos possuem potencial para inovações tecnológicas.

 

Você pode explicar mais sobre o projeto de exploração de Marte? Ele está sendo feito em parceria com Agência Espacial Europeia. Como se deu esse contato?

Depois que eu fiz a Máquina Simbiótica, enquanto conversava com Raoul, perguntei para ele se ao mesmo tempo em que ela realizava energia a partir da fotossíntese sintética, ela também produzia oxigênio. Ele me disse que sim. E eu pensei que aquilo era impressionante e que poderia, então, ser uma estrutura que ajudasse uma cidade poluída, como Pequim, São Paulo ou o próprio Rio de Janeiro. E que poderia ser uma estrutura que ajudasse na  terraformagem de Marte. Então começamos a trabalhar nessa ideia e, como temos conhecidos na Europa, entramos em contato com Bernard Foing, da Agência Espacial Europeia. Falamos sobre a ideia e ele concordou em participar, junto com outros grupos. O projeto foi aprovado através de uma bolsa holandesa chamada Research Through Design. Não só o design de peças, mas como nos relacionamos com o meio ambiente e como podemos desenhar explorações espaciais. O design tem uma função importante nas nossas vidas. Depois de ganharmos esse fundo, realizamos uma reunião com a Agência Espacial Europeia, e no dia 20 de setembro vamos ter uma nova reunião com o grupo todo, inclusive engenheiros do CEFET, que também fazem parte das instituições que participam do projeto. Ele começou oficialmente em junho deste ano e conta com mais de 50 pessoas envolvidas, incluindo profissionais e alunos, porque também existe um caráter educativo de fazer os alunos dessas disciplinas pensarem interdisciplinarmente. Então, vamos começar a montar o projeto e, provavelmente, realizar um teste na Lua em 2018, quando uma espaçonave será lançada para lá. A partir daí, vamos conseguir desenvolver mais o projeto pra que possamos colocá-lo em prática em Marte.

 

Falando um pouco sobre o processo de criação, quantas pessoas estão envolvidas nele? Você trabalha com cientistas: quem faz o quê?

Eu tenho a ideia e os cientistas também participam, não tanto da parte criativa, mas de uma parte prática, as coisas são divididas. Eu não sou cientista, sou um artista curioso, apaixonado pela ciência, que vê o valor da ciência para humanidade e tenta trazer isso para os trabalhos para tentar comunicá-la para o público e fazer as pessoas repensarem como vamos lidar com o ambiente hoje e no futuro. As tarefas são dividas, mas trabalhamos juntos, ao mesmo tempo. Vamos vendo juntos como as coisas vão funcionar, porque o laboratório é um ambiente totalmente ideal para fazer experiências e eu quero trazer isso para fora, então é um desafio para eles e para mim. Por exemplo, quando vi a palestra de Frese e me inspirei, fui falar com ele sobre o projeto que eu gostaria de desenvolver e ele aceitou, disse que seu laboratório estava aberto e para eu ir realizar a pesquisa junto dos alunos de PhD dele, e fomos desenvolvendo o projeto juntos.

 

Como a arte pode oferecer um olhar diferenciado para o desenvolvimento de tecnologias, um que a ciência não pode oferecer?

Eu acho que a arte tem uma determinada liberdade, muitas instituições científicas e tecnológicas têm o compromisso de alimentar a indústria, de descobrir determinadas coisas. Conversando com o Raoul recentemente, ele mesmo disse que, às vezes, estão tão imersos nesse mundo nano tecnológico que ele gosta de trabalhar comigo justamente porque eu trago a pesquisa dele para um campo muito maior.

 

Falando um pouco da sua atual exposição, o  que você quis passar com a exposição “Relandscape/Repaisagem”?

Eu tenho duas linhas de pesquisa: além dos robôs do meio ambiente, a comunicação entre espécies. Essas duas plataformas viabilizam a parte criativa e a científica. Conversando com a curadora da exposição, Izabela Pacu, decidimos que seria interessante recriar a paisagem com essas biomáquinas. Nessa exposição, temos dois trabalhos novos: o Pedalinho (foto 5), que é uma máquina que usa, ao mesmo tempo, tração humana ativa e a reciclagem da água, e um projeto em que faço uma analogia entre Marte e [ a região de ] Mariana (MG), seguindo uma linha de construção e reconstrução do ambiente.

Eu fui até um dos locais atingidos pela tragédia em Mariana e construí tijolos a partir da lama tóxica. É uma ideia de reciclagem e reconstrução do ambiente utilizando matéria prima deteriorada pela ação humana. E isso se liga ao projeto de terraformagem em Marte, porque ele é uma construção de um ambiente propício à vida terrestre. Dentro desse projeto de terraformagem, a Máquina Simbiótica para Exploração Espacial, na verdade surgiram dois projetos: um é um domo de meditação que também faz fotossíntese sintética, então ele tem algas que sofrem o processo de fotossíntese sintética e geram energia e, ao mesmo tempo, é um ambiente de meditação, que poderia acontecer tanto na Terra quanto em Marte, e o outro seriam os drones, que poderiam fazer essa troca de gases com o ambiente marciano, liberando oxigênio, como se fosse uma planta sintética que respira e gera energia e pode ser usada futuramente quando os humanos forem para Marte. É um projeto de pré-colonização, preparando o ambiente para a presença humana.

E a gente vive em um momento em que a ficção científica está entrando dentro do mundo real, não é mais cinema, são coisas possíveis através da tecnologia. Você vê esses robôs da DARPA, por exemplo, que são máquinas de guerra, quem é que está desenhando esses robôs de guerra? Quem quer guerra? Eu quero paz, eu quero um ambiente em que eu possa viver bem, mas nós somos homens-máquinas há muito tempo, já temos extensões, nosso corpo, óculos, celular, roupa… São aparatos tecnológicos e cada vez vai ficar mais e mais junto. E como vamos desenhar isso? Como vão ser essas relações? Acho que todo mundo tem essas vontade, esse sonho... Muita gente fala em conversar com plantas e a cada dia se descobre mais como elas se comunicam, através de fitormônios, através das raízes, dão minerais para outras plantas ao seu redor, essa comunicação existe, mas é invisível. E através da tecnologia a gente consegue dar uma visibilidade para esse tipo de comunicação e eu acredito sim que no futuro nós vamos conseguir nos comunicar com outros seres vivos, por que não? Então eu acho que eu sou uma das pessoas que desenha esse futuro.

 

Isabela Augusto

  • Máquina Simbiótica
  • Jurema Action Plant. Como humanos, plantas possuem sinais elétricos “viajando” dentro delas. Quando tocadas, esse sinal muda. Utilizando um amplificador de sinal, é possível determinar quando a planta está sendo tocada. Essa mudança aciona a estrutura robótica sobre a qual ela está apoiada, gerando movimento.
  • Protótipo Para Uma Nova Biomáquina. Funciona da mesma maneira que a Jurema Action Plant, mas utiliza um tipo diferente de planta, a Homalomena, que possui folhas maiores e, consequentemente, maior superfície de interação. Também tem melhorias no design e painel eletrônico.
  • Máquina Simbiótica para Exploração Espacial. Os drones seriam colocados na atmosfera de Marte; com a ajuda de organismos fotossintéticos, como algas e bactérias, eles captariam o nitrogênio e CO² do ambiente e liberando oxigênio, além da energia que o manteria funcionando. 

     
  • Nesta obra, da qual o público pode participar, o usuário pedala, bombeando a água da lagoa ou canal para dentro de tubos contendo bactérias. Essas bactérias se alimentaram dos resíduos orgânicos presentes na água, principais geradores da poluição.