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O histórico acordo climático sino-americano

Estados Unidos e China estabelecem metas para ajudar a controlar aquecimento global

Foto oficial da Casa Branca por Chuck Kennedy
ACORDO HISTÓRICO: A visita do presidente Barack Obama a Pequim produziu um pacto para reduzir a poluição de gases de efeito estufa das duas nações mais poluidoras do mundo.
Por David Biello

Os presidentes das duas nações mais poluidoras do mundo finalmente concordaram que é preciso fazer algo sobre a mudança climática.

O “histórico acordo”, como disse Barack Obama, foi anunciado em 12 de novembro em Pequim, quando o presidente americano encerrava sua visita oficial à China, que incluiu esse esforço climático conjunto.

Embora nem China nem Estados Unidos tenham planos para acabar com a queima de carvão ou petróleo no futuro próximo, os dois países firmaram compromissos para reduzir os gases de efeito estufa que resultam dessa atiuvidade.

Na coletiva de imprensa, ao lado do presidente chinês Xi Jinping, Barack Obama declarou: “Como as duas maiores economias, consumidoras de energia e emissoras de gases de efeito estufa do mundo, temos uma responsabilidade especial para liderar o esforço global contra a mudança climática”.

Os Estados Unidos prometeram dobrar o atual ritmo de sua trajetória antipoluente que, até agora, conseguiu reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) para cerca de 10% abaixo dos níveis de 2005.

De acordo com o novo compromisso, o objetivo americano agora é reduzir a produção de gases de efeito estufa de 26% a 28% abaixo dos níveis de 2005 até 2025.

Essa meta se soma à promessa anterior de reduzir as emissões em 17% abaixo dos níveis de 2005 até 2020 e mostra o tipo de planejamento quinquenal que os Estados Unidos gostariam de ver adotado em planos internacionais para combater a mudança climática. Em outras palavras: a cada cinco anos, metas de redução cada vez mais ambiciosas.

“Esse é um objetivo ambicioso, mas viável”, salientou Obama. “Isso nos coloca em um caminho para alcançar as profundas reduções de emissões, por parte das economias avançadas, que a comunidade científica diz ser necessária para evitar os efeitos mais catastróficos da mudança climática”.

Embora a liderança chinesa seja bastante adepta de planos quinquenais, sua nova proposta climática só entraria em vigor “por volta de 2030”, segundo os termos do novo acordo. Essa data é quando a poluição de CO2 do país atingirá o pico, levando a luta chinesa contra a poluição para uma fronteira invisível.

A China também se comprometeu a “se esforçar” para alcançar esse pico antecipadamente.

Assim como o vice-premiê Zhang Gaoli prometeu na ONU em setembro “atingir o pico total de poluição de CO2 o mais rápido possível”, Xi Jinping agora oficializou o compromisso da nação com a primeira data estabelecida para limitar (“cap”, em inglês) sua poluição de aquecimento global até 2030.

O grande problema é o carvão, que atualmente fornece mais de 70% da energia que o país em rápido desenvolvimento utiliza. Centenas de novas usinas movidas a carvão explicam como a China ultrapassou os Estados Unidos na última década como maior emissor global de gases do efeito estufa.

No entanto, várias cidades e províncias chinesas já estão recorrendo experimentalmente à solução capitalista favorecida pelo livre mercado americano — os chamados programas “cap and trade” (“limite e negociação”, em tradução literal) que, em alguns casos, abrangem até transportes públicos e edifícios.

Na China, esses são programas-pilotos que poderão ser ampliados para dar origem a um programa nacional, esperado para os próximos anos, ou descartados em favor de algum novo plano ou imposto de carbono nacional.

“A China tem planos para um mercado nacional; um que será o mais ambicioso do mundo”, informou Barbara Finamore, diretora para a Ásia no grupo ambientalista Natural Resources Defense Council, que morou durante muito tempo de Pequim. “Ele [o plano] ofuscaria qualquer outro mercado de carbono no mundo”.

Mais importante, porém, é que o governo central chinês começou a falar sobre um limite para a própria queima de carvão.

Estatísticas mostram que em 2014 o consumo de carvão na China desacelerou pela primeira vez nesse século, caindo em cerca de 1% de acordo com o grupo Greenpeace Internacional. Esse sinal alvissareiro sugere que o pico de queima de carvão poderia ocorrer já na próxima década mais ou menos, embora o ligeiro declínio também possa ter resultado de um desaquecimento do crescimento econômico e não de esforços proativos para conter mudanças climáticas.

Curiosamente, foi justamente o pico de carvão que os chineses aceitaram garantir agora, juntamente com cortes na intensidade de CO2 até2020. A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China já traçou um plano para lidar com a mudança climática até o final da década.

O programa inclui construir ainda mais usinas nucleares, parques eólicos, hidrelétricas e começar a utilizar mais energia solar. Em 2013, o país instalou usinas solares que produziram estimados 12 gigawatts de energia.

De fato, no ano passado a China acrescentou mais novas fontes de energia limpa à sua grade que fontes de energia fóssil — pela primeira vez na história.

O país adicionou várias centenas de gigawatts de energia limpa ao sistema — só a hidrelétrica das Três Gargantas produz 22 gigawatts — mas espera acrescer até 1.000 gigawatts dessas fontes de baixas emissões de carbono até 2030.

Isso representaria 20% de sua energia — o equivalente a aproximadamente a quantidade total de eletricidade produzida nos Estados Unidos, ou a energia produzida por todas as usinas a carvão que a China construiu nas últimas décadas. Também é o dobro do que os chineses se comprometeram a atingir até 2015 em seu atual Plano Quinquenal.

A China já é o líder mundial em novas fontes de energia nuclear e renovável, e a intensidade energética de sua economia caiu em mais de 19% entre 2006 e 2010. Mas o compromisso assumido em 12 de novembro implicará uma aceleração desses esforços de transição que já estão ocorrendo em ritmo acelerado.

Paralelamente, os Estados Unidos e a China continuarão colaborando no desenvolvimento de sistemas de sequestro e armazenamento de CO2 (CCS, na sigla em inglês), que poderiam ajudar a limpar o processo de queima de carvão tanto em usinas de energia, como na indústria siderúrgica e de cimento, por exemplo. 

Essa mudança será alavancada por um aumento do financiamento para o Centro de Pesquisa Sino-Americano de Energia Limpa, um dos frutos do último acordo entre os dois países, em 2009, e pelo menos um “projeto-piloto em grande escala”.

Esse projeto não dependerá de ejetar mais petróleo do solo com o CO2 a ser enterrado, como tem acontecido nos projetos CCS, mas servirá como uma tentativa para ajudar a resolver a crise de água na China ao usar CO2 para produzir água potável a partir de um aquífero salgado subterrâneo.

O programa deverá “injetar um milhão de toneladas de CO2 no subsolo e produzir aproximadamente 1,4 milhão de metros cúbicos de água doce por ano”, o que será um grande avanço tecnológico se a meta for alcançada.

O comércio também desempenhará um papel no compromisso assumido esta semana.

O acordo tarifário assinado pelos dois países em Pequim também poderá se estender futuramente a “bens verdes”, como materiais de construção energeticamente mais eficientes e resilientes. Afinal, a maneira como a China ampliará suas cidades nas próximas décadas pode embutir energia altamente poluente ao longo de décadas, ou não.

A poluição atmosférica convencional, como o smog (a densa névoa com fumaça), já está impulsionando mudanças, inclusive o fechamento compulsório de fábricas e restrições à circulação de veículos ao redor de Pequim nos últimos dias. A medida foi uma tentativa de despoluir o ar para líderes mundiais por ocasião da reunião de cúpula da APEC, o fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico.

“Hoje, a poluição atmosférica é uma das questões mais importantes para a China, tanto para sua estabilidade social, como para sua reputação internacional”, observa Barbara Finamore do Natural Resources Defense Council. “Eles [os chineses] estão começando a desvincular queima de carvão e crescimento econômico”.

Um ar mais limpo também poderia resultar da conversão de carvão em gás ou líquidos em gigantescas instalações químicas antes de queimá-lo, o que ajudaria a reduzir o smog, mas agravaria a poluição de CO2. Ou ele poderia derivar de processos como o CCS, ou de energias nuclear e renováveis.

“Existe um potencial real para deslocar a utilização de carvão das regiões mais poluídas para o interior da China; que é precisamente porque um limite nacional sobre o consumo de carvão, que seja obrigatório, é tão importante”, salienta Finamore, acrescentando que isso é uma “possibilidade real”.

O acordo entre os dois países, que juntos emitem mais de 40% da poluição global de CO2, sugere que, em2015, a nações do mundo assinarão um documento de peso em Paris, sob os termos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, ao contrário do que aconteceu em Copenhague em 2009.

Antes daquela reunião, China e Estados Unidos haviam prometido cooperar, mas não assumiram compromissos firmes para reduzir a poluição, o que resultou em um tumulto de última hora para salvar os esforços internacionais conhecidos como o Acordo de Copenhague.

Apesar de “histórico”, o acordo sino-americano dessa semana não significa que o problema de mudanças climáticas esteja resolvido. Tanto Estados Unidos, como China, continuam lançando bilhões de toneladas de CO2 por ano na atmosfera.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) sugere que o mundo já lançou na atmosfera cerca de 50% de todo o carbono que pode para evitar um aquecimento global de mais de 2ºC — e o tempo está se esgotando. As temperaturas médias globais já aumentaram quase 1ºC e as concentrações atmosféricas de CO2 atingiram 400 partes por milhão (ppm) pela primeira vez desde que o Homo sapiens sapiens começou a caminhar na Terra.

Os 28 países da União Europeia prometeram reduzir a poluição de gases de efeito estufa em 40% abaixo dos níveis de 1990 até 2030. Isso significa que, incluindo esse novo acordo, as nações responsáveis por mais da metade das atuais emissões do mundo têm planos para realmente cortá-las.

No entanto, outros grandes poluidores, como a Austrália, o Canadá e o Japão, todos recuaram em seus esforços para controlar a poluição que gera o aquecimento global.

As emissões australianas dispararam depois que o país revogou seu imposto de carbono esse ano; o Canadá repudiou seu compromisso anterior de reduzir a poluição no âmbito do atual acordo internacional sobre aquecimento global; e a poluição do Japão explodiu à medida que o país está queimando mais gás natural e carvão para produzir a eletricidade necessária para substituir a que era gerada pelos reatores nucleares abalados (e fechados) na esteira do devastador acidenteem Fukushima Daiichi, decorrente do grande tsunami de março de 2011.

Não há garantias de que os Estados Unidos ou a China também não possam sofrer revezes similares em suas metas de produzir menos CO2, sobretudo em vista das flagrantes políticas contestadoras da questão climática que reinam no Congresso americano e do imperativo chinês de proporcionar crescimento econômico contínuo ou seu histórico de transgredir ou abusar dos mercados internacionais de carbono.

Além disso, um novo grande poluidor entrou em cena: a Índia.

Na esperança de repetir o sucesso de desenvolvimento da China, o país queimará mais e mais carvão.

Assim como a China respondeu pela maior parte da rapidamente crescente poluição de mudança climática nas primeiras décadas do século21, a Índia em breve poderia assumir a condução desse crescimento. Mas há esperança na forma de fontes de energia mais limpas.

O novo primeiro-ministro indiano Narendra Modi está “muito engajado em energias renováveis e energia solar para eletrificar o país e proporcionar acesso à energia a centenas de milhões indianos que não a têm”, opina Jennifer Morgan, diretora global do programa climático do World Resources Institute, um renomado grupo ambientalista.

Além disso, o novo acordo sino-americano está muito longe de ser suficientemente ambicioso para atender às metas de redução propostas no mais recente relatório do IPCC.

Nenhum país ou liga de países, nem mesmo a União Europeia (UE), está no caminho certo para fazer isso.

O modelador de políticas Chris Hope, da University of Cambridge, no Reino Unido, inseriu os novos compromissos, mais o esforço da UE, em um modelo computadorizado, presumindo que outros países continuariam permitindo o avanço da poluição.

Seu resultado: “menos de 1% de chance de manter o aumento médio da temperatura global abaixo do nível da icônica marca de 2ºC em 2100. O mais provável é que o aumento seja de uns 3,8ºC”.

Em outras palavras, é preciso fazer mais e o nível de esforço chinês para alcançar o pico de poluição antes de 2030, provará ser crucial.

O mundo ainda tem um longo caminho a percorrer para combater as mudanças climáticas, e até esse novo acordo inadequado exigirá alguns esforços difíceis, talvez impossíveis, dos Estados Unidos e da China.

“Não estamos nem de longe no mundo em que precisaríamos estar para alcançar nossas metas climáticas mais ambiciosas”, sentencia Valerie Karplus, diretora do Projeto Tsinghua-M.I.T. de Energia e Projeto Climático da China.

“Precisamos reconhecer essa realidade e refletir sobre para onde iremos a partir daqui”.

Mas, assim como John Kerry foi o solitário senador americano a dar uma coletiva de imprensa em Copenhague, em 2009, salientando a importância dessa questão, em 2013 e 2014, ele tem pressionado seus parceiros chineses quanto à necessidade do combate climático na posição de secretário de estado americano.

Como resultado disso, Estados Unido e China começaram a mostrar, pela primeira vez na história, desde a assinatura dos Protocolos de Kyoto, na década de 90, que pode ser possível que as nações do mundo “parem” o aquecimento global.

Como Obama também observou em sua coletiva de imprensa com Xi Jinging: “Quando trabalhamos juntos, isso é bom para os Estados Unidos, é bom para a China e é bom para o mundo”.

Scientific American 12 de novembro de 2014