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O longo reinado dos dinossauros teria sido mero acaso?

Pesquisadores acreditam que o longo período de milhões de anos que os dinossauros dominaram todo o planeta foi mais uma questão de sorte que de força

Susannah F. Locke
Imagem cortesia de Stephen Brusatte, Columbia University
Reminiscências de espécies perdidas: Os crurotarsans viveram paralelamente aos dinossauros, mas não resistiram tanto tempo quanto os poderosos dinossauros.
De acordo com estudo publicado recentemente na Science, a longa permanência dos dinossauros na Terra pode estar mais relacionada à casualidade que à superioridade. O estudo desafia a antiga idéia que os dinossauros competiam com seus rivais répteis contemporâneos.

Por que os dinossauros se tornaram e se mantiveram tão abundantes é um mistério que persiste há anos. A teoria tradicional propõe que os dinossauros, de repente, substituíram outros animais terrestres, por terem características especiais que lhes deram uma vantagem evolutiva, como ter sangue quente, serem rápidos e capazes de ocupar uma grande variedade de habitats. Essa pesquisa recente apresenta uma análise matemática atualizada de dados de fósseis antigos. Os resultados indicam que os ancestrais dos crocodilos modernos tinham corpos tão diversos quanto os antigos dinossauros, com os quais coexistiram por cerca de 30 milhões de anos.

Embora os dados não contradigam diretamente a idéia da superioridade dos dinossauros, os autores admitem que é provável que esses crocodilianos eram ainda mais afortunados que os dinossauros, o último dos quais pode ter sobrevivido às grandes extinções por pura sorte.

“Se esquadrinharmos o passado, poderemos notar que a sorte sempre esteve muito presente em todos os grandes projetos da evolução,” comenta o autor principal do artigo, Stephen Brusatte, pesquisador do Museu Americano de História Natural.
A idéia que dinossauros viveram na mesma época que espécies répteis semelhantes não é nova. Dados recentes levaram muitos paleontólogos a repensar se os dinossauros foram realmente animais tão especiais. Registros fósseis indicam que os dinossauros viveram concomitantemente com grupos equivalentes de répteis por milhões de anos sem superá-los.

Por exemplo, os dinossauros primitivos foram contemporâneos de crurotarsans ─ ancestrais de crocodilos ─ no fim do período triássico, entre 230 e 200 milhões de anos. Esse grupo de répteis variava de rápidos predadores a vegetarianos bípedes e lerdos gigantes que pastavam continuamente. Quando o triássico se transformou no jurássico, as criaturas que vagavam pelo planeta mudaram drasticamente. Muitos crurotarsans desapareceram dos registros fósseis, mas muitos dinossauros sobreviveram ─ e prosperaram, diversificando-se em corpulentos carnívoros, guerreiros encouraçados e predadores alados.

Brusatte e pesquisadores da Universidade de Bristol, na Inglaterra estenderam a pesquisa analisando registros de fósseis para mostrar que crurotarsans foram ainda mais bem sucedidos que os dinossauros. Inicialmente, o grupo construiu uma nova família genealógica para separar os dinossauros dos ancestrais dos crocodilos. Em seguida, eles montaram uma base de dados de 65 dinossauros e espécies de crurotarsans que incluíam cerca de 400 aspectos diferentes dos esqueletos, por exemplo, se tinham bico ou se os braços eram mais curtos que as pernas.

Se os dinossauros estivessem mais bem adaptados ao ambiente, os pesquisadores poderiam ter encontrado uma taxa evolutiva mais alta e tipos de corpos mais diversificados. Em vez disso, observaram que os dois grupos evoluíram a taxas similares e que os crurotarsans tinham uma variedade maior de tipos de corpos, sugerindo que eles, na verdade, tinham se adaptado a uma diversidade maior de estilos de vida e de nichos ecológicos.
Os autores argumentam que como dinossauros e crurotarsans coexistiram durante muito tempo é pouco provável que os dinossauros tenham predominado. Se pudéssemos voltar ao triássico, comenta Brusatte, você apostaria que os crocodilianos teriam prevalecido. “Não há como afirmar que os dinossauros eram superiores aos crurotarsans.” Ao contrário, ele acredita que o evento responsável pela extinção no começo do jurássico cerca de 205 milhões de anos atrás ─ um descontrole das condições climáticas ou a queda de um asteróide ─ pode ter sido apenas um enorme falta de sorte para os crurotarsans.

Muitos paleontólogos consideram essas descobertas um passo decisivo na história evolutiva dos dinossauros. “Foi realmente renovador,” comenta Kristi Curry-Rogers, paleontóloga especialista em dinossauros da Macalester College em Saint Paul, Minnesota. “Essas descobertas, certamente abalaram a história tradicional da evolução dos dinossauros.”

Mas nem todos os especialistas concordam. “Eu acredito que as conclusões dos autores não são consistentes,” observa Kevin Padian, paleontólogo especialista em dinossauros da University of California, em Berkeley. “Um golpe de sorte não é uma força evolutiva... Extinções não são aleatórias.” Ele acredita que os dinossauros são suficientemente diferentes dos crurotarsans para assegurar uma vantagem competitiva.

Se a fama dos dinossauros resultou de adaptações sucessivas ou de um lançar de dados é uma dúvida que só poderá ser esclarecida à medida que os paleontólogos forem descobrindo mais fósseis para completar os registros esparsos do início da história dos dinossauros e então poder explicar o que provocou as extinções do fim do triássico. Rogers esclarece que a análise de Brusatte provavelmente induzirá as pessoas a apoiar suas idéias sobre as fortes evidências de superioridade dos dinossauros. “Elas dão às pessoas algo palpável, baseado em dados,” ela conclui, “e não em simples conjecturas.”