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O misterioso cortejo de peixes-espada

Primeira evidência fotográfica de peixe-espada macho cortejando possível companheira põe fim a antigo mistério

 

Mejuto & García-Cortés 2014
Peixes-espada em pleno cortejo.
Por Matías A. Loewy | Véalo en español

Alegações de que peixes-espada cortejam suas companheiras remontam ao século 19, mas a ciência nunca havia confirmado esse fenômeno.

Agora, cientistas espanhóis documentaram esse comportamento reprodutivo. Eles registraram, entre outras, as primeiras fotografias que mostram um macho nadando ao redor de uma fêmea enquanto ela se prepara para desovar milhões de ovos para fertilização.

As fotos inéditas, tiradas a partir de um barco em águas incrivelmente claras, foram publicadas na Revista de Biología Marina y Oceanografía.

As imagens mostram como, enquanto pescadores submarinos içam uma fêmea, cuja cavidade corporal está nitidamente dilatada para desovar, de uma profundidade de 10 metros, um macho, implacável em seu cortejo, acompanha sua ascensão forçada nadando ao seu lado.

A foto confirma histórias contadas por marinheiros galegos que batizaram uma área oceânica de intensa atividade reprodutiva “o mar dos namorados” na década de 80.

Ocasionalmente, quando pescadores capturavam uma fêmea que estava prestes a desovar, um ou dois machos foram observados nas proximidades de sua “pretendida”, permanecendo perto do barco até que ela fosse içada para bordo.

Às vezes, os machos até ficavam ao lado da embarcação por alguns minutos após a fêmea ser tirada da água, como se não quisessem perder sua potencial parceira.

As novas fotos são particularmente valiosas porque é incrivelmente difícil documentar esse fenômeno nas áreas oceânicas onde essas espécies de peixes passam a maior parte de suas vidas, salienta o pesquisador Jaime Mejuto do Instituto Espanhol de Oceanografia em La Coruña.

“As imagens são excelentes”, concorda George Tserpes do Centro Helênico para Pesquisa Marinha e presidente da Comissão Internacional para a Conservação dos Atuns do Atlântico.

“Essa é a primeira vez que o cortejo é documentado durante o período de desova dessa espécie, o que contribui muito para os esforços de gerir esse recurso”.

Mejuto observa, porém, que os detalhes íntimos do cortejo de peixes-espada ainda são desconhecidos e poderiam incluir outros rituais.

Dados anteriores, observados em espécies aparentadas, sugerem que “machos talvez estimulem a postura de ovos e começam a liberar esperma assim que os estímulos são recebidos”, acrescenta Mejuto.

Como a maioria dos peixes, espadartes fertilizam ovos fora de seus corpos, na água, em vez de internamente.

Em um novo trabalho com a colega Blanca García-Cortés, Mejuto registrou e analisou 40 mil espécimes capturados por embarcações espanholas entre 1995 e 2003 para compreender melhor os hábitos sexuais de peixes-espada.

Em áreas com muita atividade reprodutiva, por exemplo, parece haver de dois a quatro machos para cada fêmea de qualquer tamanho.

“Não sabemos se há qualquer tipo de pré-seleção de parceiros por parte das fêmeas, mas não deveríamos descartar a noção de qualquer tipo de seleção, ou competição entre machos”, explica Mejuto.

Para outros cientistas, essa última possibilidade é o cenário mais provável.

“Em todos os peixes, a fêmea sempre escolhe”, salienta Matías Pandolfi, um pesquisador na Universidade de Buenos Aires.

Panolfi estuda os sinais químicos de processos de cortejo em peixes nativos de água doce tropical e subtropical. “Desovar requer uma enorme quantidade de energia. Se o macho não convencer a fêmea de que ele tem os melhores genes, ela não liberará seus ovos para fertilização”, resume ele.

Em tempos antigos  acreditava-se que espadartes eram capazes de perfurar cascos de navios e a pele de baleias. Na realidade, porém, peixes-espada têm um tipo diferente de força.

Sua distribuição geográfica é expansiva: eles podem nadar 10 mil quilômetros em um ano e viajar de águas cálidas para águas mais frias em questão de meses.

Um peixe-espada pode passar a noite perto da superfície do oceano e mergulhar a uma profundidade de 900 metros ou mais durante o dia. Um exemplar pode pesar mais de 500 kg e pescadores capturam anualmente mais de 100 mil toneladas dessa espécie. 

O trabalho de Mejuto e García-Cortés, inclusive essas primeiras fotos do cortejo de espadartes, representa o maior esforço para caracterizar o processo reprodutivo dessas criaturas.

“Estudar essa espécie é realmente fascinante”, garante Mejuto, acrescentando: “mas também é um enorme desafio”.

 

Publicado em Scientific American em 12 de março de 2015.