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O mundo precisa se preparar para ter 11 bilhões de habitantes

É improvável que o número de habitantes do planeta se estabilize neste século

Shutterstock
Por David Biello

Em 1970, o mundo atingiu o ápice infantil – a maior taxa de crescimento da população humana. Desde então, países da Ásia, das Américas, Austrália e Europa viram taxas de crescimento caindo dramaticamente e, na África, o número de filhos por família caiu em uma média de mais de seis para aproximadamente quatro.

Mas o declínio na África é mais lento que a taxa de nascimento em outras partes do mundo. A persistência dessa taxa de nascimento relativamente alta se deve a uma vasta gama de fatores, incluindo influências culturais, econômicas, e a falta de acesso ao controle de natalidade ou planejamento familiar.

Além disso, existem tantas crianças na África atualmente que alguns demógrafos e estatísticos preveem que o crescimento populacional não vai se estabilizar no século 21, de acordo com projeções anteriores.

Outras estimativas recentes previram que o crescimento da população humana se estabilizasse em meados do século, de atuais 7,2 bilhões de pessoas para aproximadamente 10 bilhões em 2050.

Mas essas projeções contaram com as famílias da África reduzindo seu número de filhos aproximadamente à mesma taxa de fertilidade da Ásia e da América Latina em décadas anteriores.

Em vez disso, mulheres ainda estão tendo mais filhos em muitos países africanos, e a taxa de declínio de fertilidade foi reduzida – ou até revertida – em alguns países africanos nos últimos 15 anos.

“Isso tem um efeito combinado sobre a população com o passar do tempo, porque uma maior fertilidade significa mais crianças para a população atual, e portanto mais netos e assim por diante”, explica o estatístico Adrian Raftery, da University of Washington, parte da equipe que conduziu a nova análise.

“Nós projetamos um grande aumento na população da África, de um bilhão atual para 4,2 bilhões em 2100”, aponta ele. Raftery e seus colegas detalham suas descobertas em um relatório publicado online em 18 de setembro, na Science.

Com que velocidade, e até onde, a fertilidade da África será reduzida – ou não – determinará o destino do crescimento ou declínio da população humana neste século.

Com as taxas atuais, o continente africano provavelmente se tornaria tão densamente populoso quanto a China de hoje.

Como resultado, “é provável que a população mundial continue crescendo até o fim do século”, observa Raftery, ainda que o rápido crescimento populacional na África também leve ao tipo de escassez de comida, água e outros recursos que podem reduzir o aumento da população.

Ao mesmo tempo, o declínio do crescimento populacional em países como Alemanha, Japão, China e Brasil significa que essas nações terão quase tantos idosos quanto jovens nas próximas décadas. “O rápido crescimento da população mundial acabará na segunda parte deste século”, prevê Hans Rosling, pesquisador de saúde internacional do Instituto Karolinska em Estocolmo, para quem o mundo deve se preparar para pelo menos 11 bilhões de pessoas.

Ainda assim, “a população total pode continuar a crescer, mas a uma taxa muito menor, ou poderia até começar a diminuir lentamente após 2050”, adiciona ele.

A nova análise é parte de um projeto para desenvolver métodos melhores para prever o tamanho da população humana – um dos principais fatores de influência sobre a economia global, o ambiente e a saúde humana. Métodos anteriores dependiam de suposições arbitrárias, como somar ou subtrair metade de uma criança para produzir estimativas populacionais altas ou baixas. Essa nova estimativa é derivada da estatística Bayesiana, em que resultados diferentes recebem probabilidades diferentes com base no que já ocorreu.

O cancelamento de financiamentos para programas de planejamento familiar nos Estados Unidos nos primeiros anos do século 21 pode ser parcialmente responsável pelo atraso na redução do crescimento populacional na África.

A administração Bush despejou bilhões de dólares na luta contra a AIDS, mas também exigiu que nem um centavo daquele dinheiro fosse usado para fornecer contraceptivos – uma política revertida pela administração Obama.

De acordo com pesquisas dos Estados Unidos, pelo menos 25% das mulheres em países da África Subsaariana querem parar ou esperar para terem filhos, mas não têm acesso a contraceptivos. “Isso praticamente não mudou nos últimos 20 anos”, observa Raftery.

Por fim, capacitar mulheres por meio da educação de meninas pode fazer mais para auxiliar no planejamento familiar do que fornecer contraceptivos.

Os países com as maiores taxas de fertilidade também têm altas taxas de meninas que não recebem educação nesse sentido. Mulheres educadas têm uma probabilidade muito maior de ter acesso a contraceptivos, dentre outros benefícios, incluindo um crescimento econômico mais rápido para sua nação.

Em Gana, por exemplo, mulheres que não receberam nenhum tipo de educação têm em média 5,7 filhos, enquanto mulheres com algum tipo de educação têm 3,2 e mulheres com educação de nível superior têm apenas 1,5 filhos.

De acordo com Rosling: “É uma vergonha que quase metade das mulheres africanas que desejam usar contraceptivos não tenham, ainda hoje, acesso a eles”.

Scientific American 19 set 2014