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O que mais pode fazer alguém que já criou uma vacina que previne câncer?

Um vencedor dos Prêmios Lasker deste ano fala sobre seu trabalho com HPV

Shutterstock
Ilustração de um vírus do pailopa humano (HPV) sendo destruído.
Imagine uma vacina que protege contra mais de meia dúzia de tipos de câncer - embasada por uma década de dados e experiências.

Já existe uma assim. É a vacina para papilomavírus humano (HPV), aprovada para o mercado dos EUA em junho de 2006. Ela pode prevenir quase todos os cânceres cervicais e proteger contra cânceres de boca, garganta e ânus. Ela também combate as verrugas genitais sexualmente transmissíveis que algumas formas do vírus podem causar.

Na quarta-feira, dois pesquisadores que completaram o trabalho fundamental nestas vacinas receberam um dos prestigiados Prêmios Lasker deste ano, um grupo de prêmios médicos algumas vezes denominados de "Nobéis americanos". Douglas Lowy e John Schiller, cuja pesquisa forneceu a base para a vacina contra o HPV, foram selecionados juntamente com um pesquisador que independentemente separou os principais aspectos do controle metabólico do crescimento celular. O programa de controle de natalidade Planned Parenthood também recebeu um prêmio pelo seu serviço público. Lowy e Schiller, que trabalham no Centro Nacional do Câncer (NCI, na sigla em inglês) dos EUA, receberam o Lasker por suas pesquisas sobre papilomavírus animal e humano - trabalho que permitiu o desenvolvimento de uma vacina contra o tipo HPV-16, uma forma do vírus que alimenta muitas malignidades do HPV. Os experimentos da dupla provaram que a vacina é eficaz em animais, e também realizaram o primeiro ensaio clínico de uma vacina contra HPV-16 em humanos. Isso deu às empresas farmacêuticas a evidência de que precisavam investir em suas próprias vacinas, projetadas para proteger contra múltiplos tipos de HPV e, em última instância, levou às versões administradas hoje em todo o mundo.

Ainda assim, as vacinas de HPV tiveram um caminho difícil. Apesar da clara evidência de sua segurança e eficácia, em alguns países desenvolvidos - incluindo os EUA - as inoculações de HPV enfrentam oposição de indivíduos e grupos que temem que as vacinas ainda sejam muito novas e com poucas evidências favoráveis para serem ministradas em seus filhos. A vacina contra HPV também enfrenta outro obstáculo em comparação com as outras vacinas pediátricas de rotina: o vírus é transmitido por contato sexual - algo que certos pais e comunidades julgam que não deve ser praticado por seus respectivos adolescentes, e, por isso, as vacinas não devem ser obrigatórias. (Os Centros Estaduais de Controle e Prevenção de Doenças [CDC, na sigla em inglês] atualmente recomendam a administração de duas doses da vacina em crianças de 11 a 12 anos, com pelo menos seis meses de intervalo.)

A Scientific American conversou com Schiller, um virologista, sobre a pesquisa premiada dele e de Lowy, seus planos futuros e como combater atitudes contra vacinação.

[Segue uma transcrição editada da entrevista.]

Qual o maior obstáculo para conseguir mais cobertura com a vacina contra HPV?

O maior problema, na verdade, não é no Ocidente ou na maioria dos países desenvolvidos; é nos países de baixa e média renda, por causa da disponibilidade e dos preços das vacinas, que limitam essa disponibilidade. Nessas configurações, a aceitação da vacina é realmente muito alta. Porém, essas configurações apresentam o maior problema, já que cerca de 85% dos cânceres cervicais ocorrem em configurações de poucos recursos. Nos países mais desenvolvidos, há muitos fatores diferentes envolvidos [na hesitação com a vacina], e eles diferem por país. Nos EUA, é mais sobre o medo das vacinas em geral. E há alguns problemas com as vacinas contra o HPV especificamente relacionadas com o fato de ser uma doença sexualmente transmissível.

Até agora, mais de 270 milhões de doses de vacinas contra o HPV foram distribuídas em todo o mundo. Contudo, nos Estados Unidos - até 2015 - apenas 28% dos meninos adolescentes e 42% das meninas adolescentes receberam o curso completo de três vacinações, recomendados pelo CDC. Como a comunidade científica pode ajudar a combater a hesitação com vacina para HPV?

Há alguns estudos os quais mostram que uma das maiores questões é a vacina não ser suficientemente promovida por pediatras e clínicos gerais. Se você olhar para outras vacinas como a de meningite e de hepatite B - as quais também são administradas em adolescentes e podem ser dadas na mesma visita, junto com a vacina para HPV - elas são administradas em taxas maiores do que a vacina para HPV. Então, há alguma interrupção na comunicação entre pediatras e pais. Parte do problema aqui é que a vacina contra o HPV é uma vacina profilática para prevenir uma doença - câncer cervical - que esses provedores nunca vêem. Ginecologistas obstetras a vêem, mas pediatras não, o que é o oposto na maioria das outras vacinas infantis ou pediátricas. No momento, ela está sendo identificada como algo especial em vez de ser tratada como vacina de rotina de infância ou adolescência. Mas já temos essa vacina há 10 anos e ela não é mais uma novata.

Evidências crescentes sugerem que, se uma pessoa sente que as vacinas são inseguras, ela não será convencida por nenhum dos novos dados que demonstram sua segurança. Então, o que pode ser feito?

O meu sentimento é que existe uma certa porcentagem de pessoas que não serão convencidas, independentemente dos fatos que você lhes apresente. Francamente, não compensa gastar muitos recursos tentando convencer essa fração relativamente pequena. Precisamos focar em uma fração muito maior da população, que não está vacinando crianças por razões como a conveniência - como se fosse um incômodo - ou que apenas precisam de mais informações para serem confortadas. Pessoas que são contra todas as vacinas não serão convencidas a buscar a vacina contra o HPV, por isso não vale a pena gastar muitos recursos com elas. Acredito que uma das coisas que aumentaria a cobertura da vacina contra o HPV seria permitir que as pessoas as obtenham no CVS local. Não sou especialista nisso, mas tenho uma filha que, como adolescente, passou muito mais tempo no CVS local do que em sua clínica Kaiser local. Diferentes estados possuem leis diferentes sobre quais vacinas podem e não podem ser entregues em farmácias - mas se alguém puder obter uma vacina contra o HPV no mesmo local onde recebe a vacina contra gripe, isso presumivelmente levaria a um aumento.

Vejo que você estudou biologia molecular na sua graduação na Universidade de Wisconsin em Madison. Sempre quis trabalhar com vacinas?

Não, absolutamente não. Quando comecei, eu era um purista acadêmico e pensei que deveria buscar o conhecimento puro, sem aplicação. Fiquei fascinado pela biologia molecular. Quando ouvi sobre o funcionamento do metabolismo em bactérias, plantas e humanos, isso simplesmente me surpreendeu, porque essa era uma característica comum a toda a vida. Eu só queria estudar isso. Isto era na década de 1970. Não me interessei por vacinas até muito mais tarde. Agora, estou muito fascinado com a pesquisa de tradução.

Então, o que mudou?

Foi uma coisa muito gradual. Até hoje, ainda fazemos pesquisas básicas - e é intrinsecamente valioso fazer pesquisas básicas, porque você não sabe quando isso levará a um avanço transformacional.

O que o levou ao trabalho com HPV?

Quando havia acabado de entrar no campo, de repente houve essa descoberta que tornou os papilomavírus importantes para a saúde humana, e não apenas uma compreensão maior sobre como as células se tornam cancerosas. Eu me juntei ao laboratório de Doug Lowy no Instituto Nacional do Câncer como pós-doutorando em 1983, e a segunda palestra na qual fui lá foi dada por Harald Zur Hausen - que mais tarde ganhou o Prêmio Nobel - e ela dizia "Eureka! Encontramos um vírus que parece causar 50% dos cânceres cervicais" - e esse vírus revelou ser uma cepa do papilomavírus humano, o HPV-16. Então, basicamente, fomos de olhar para um modelo de como uma célula normal se transforma para tornar-se cancerígena a algo provavelmente envolvido em causar câncer humano. Essa foi uma descoberta ao caso um tanto quanto feliz.

No que está trabalhando agora?

Uma coisa que estamos fazendo no NCI, com co-patrocínio da Fundação Bill & Melinda Gates, é testar se uma dose de vacina contra HPV é suficiente para fornecer proteção a longo prazo. Seria transformador, especialmente na configuração de países em desenvolvimento, se você pudesse ao menos ter uma dose em uma idade mais nova. O novo teste será feito na Costa Rica, em colaboração com o governo costarriquenho. Esse é o local onde fizemos um teste piloto prévio que sugeriu que uma dose pode ser suficiente.

Também estamos pesquisando o trabalho de imunoterapia contra câncer. Acontece que essas partículas semelhantes a vírus com que trabalhamos para a vacina contra o HPV são, tipicamente, a casca externa de um vírus, como do HPV-16 ou de outras partículas de papilomavírus animal ou humano - elas possuem uma habilidade única para infectar células tumorais e ligar-se especificamente a elas. Então, estamos usando esse conhecimento para desenvolver terapias contra o câncer de amplo espectro. Acontece que esses cânceres, como o melanoma, ligam-se a essas partículas, especificamente.

Uma outra coisa que estamos fazendo é tentar desenvolver vacinas as quais tratariam infecções por herpes simples e por HPV no trato genital feminino. Mais uma vez, isso aproveitaria essas estruturas de partículas semelhantes a vírus.

No ano passado, entrevistei Michael Sofia, que ganhou o Prêmio Lasker pelo trabalho com a vacina contra a hepatite C. O nome dessa vacina, sofosbuvir - o nome da marca Sovaldi - é um aceno ao seu sobrenome. Contudo, o Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês) faz muitas pesquisas em estágio inicial, as quais são posteriormente transferidos para empresas privadas que as desenvolvem ainda mais. O seu nome não faz parte das vacinas Gardasil ou Cervarix contra HPV, por exemplo. É frustrante fazer um monte de trabalho nos bastidores?

É engraçado porque nunca pensaria nisso. Nunca teria passado pela minha cabeça dar nossos nomes a uma vacina. Estamos tão acostumados a fazer esse trabalho de tradução. Meu trabalho é prosseguir com um projeto, então é interessante o suficiente para uma empresa investir centenas de milhões de dólares em benefício de um grande número de pessoas. O NIH não tem dinheiro para fazer ensaios de fase III para muitos medicamentos e, mesmo se tivesse, isso não levaria a todas os medicamento que precisamos - porque o NIH não teria o dinheiro para desenvolvê-los. Essa pesquisa básica e de tradução é o que o NIH faz de melhor. Esse trabalho está muito cheio de falhas para as empresas fazerem tudo. Tem que ser feito no setor público e, então, quando as coisas parecem mais promissoras, empresas podem assumir.

Qual conselho daria a alguém considerando se tornar um cientista agora?

Precisa ser uma paixão, porque ser cientista - especialmente no início de sua carreira - é mais um estilo de vida do que uma ocupação. Você realmente precisa querer fazê-lo, porque há muita incerteza - especialmente sobre como ter seu próprio laboratório e obter financiamento. O sucesso e o fracasso podem estar no fio da navalha algumas vezes. Outra coisa é que você precisa ser estratégico sobre pensar no que deseja entrar, e isso é difícil para os jovens, porque eles não têm a perspectiva: há alguns campos que acabam de se abrir para descobertas. E há algumas áreas as quais estão muito maduras, nas quais trabalhamos por muito tempo, onde já existem muitos cientistas - então as chances de causar um grande impacto são menores. Da minha própria vida, é como quando começamos com o papilomavírus humano. Quando entrei nesse campo, havíamos acabado de receber as ferramentas para estudá-lo e, por isso, envolver-se parecia ser uma ótima oportunidade. De certa forma, é melhor se puder escolher um campo emergente com novas ferramentas para responder a grandes questões. Porém, você precisa escolher algo no qual está realmente interessado e investir nisso.

A outra coisa que eu diria é para ler muito. Agora, com o PubMed e o acesso a todos esses periódicos, não há desculpa para não conhecer o histórico de algo que, basicamente, já foi feito. Os jovens tendem a querer sair e fazer experimentos, mas alguns dias vasculhando o PubMed podem evitar anos de trabalho de alguém que tente reinventar a roda.

Agora, qual você diria que é é maior desafio - ou um dos maiores desafios - o qual precisa ser resolvido?

Essa é bem difícil. Eu acho que, como cientistas, estamos todos meio que presos nas coisas que estudamos. Eu poderia falar sobre câncer, obviamente. Mas o Alzheimer é algo que, obviamente, precisamos resolver. A infecção por HIV. Todas essas diferentes coisas. Uma das coisas que realmente precisam ser resolvidas agora, em termos de todo o empreendimento científico, é financiamento estável. Estamos em uma situação em que há muitos cientistas bons - especialmente jovens cientistas - competindo por uma quantidade limitada de dinheiro. Então, você perde algumas pessoas boas porque não há dinheiro suficiente. Além disso, as pessoas são forçadas a fazer coisas relativamente mundanas, que realmente são uma extensão metodológica de algo que já fizeram antes, em vez de algo verdadeiramente transformador, mas que teria uma grande chance de falhar. Os revisores de bolsas estão procurando por algo que possivelmente tenha sucesso e mova o campo de forma incremental, ou algo transformador que possa ter uma grande chance de falhar, e precisam tomar essas decisões. Este é um problema por todas as ciências. A solução óbvia seria ter mais recursos, mas isso levanta a questão sobre como fazer isso. E eu não sou um político.

O que, de qualquer forma, esse Prêmio Lasker faz pelo seu trabalho?

Sinceramente, nada, provavelmente. Porque uma das coisas boas de fazer parte da pesquisa internamente [no NIH] é que tenho financiamento estável. Eu tive seis pessoas no meu laboratório nos últimos 25 anos, então isso não levará a mais bolsas, eu dobrando o tamanho do meu laboratório ou algo assim. Estou feliz com o meu laboratório de tamanho moderado e com as colaborações com muitas pessoas excelentes. É por isso que estou aqui. A cada quatro anos, temos uma visita ao local, que é uma revisão retrospectiva de "o que você fez para nós ultimamente", e, se for algo razoável, continuarei recebendo financiamento. Então, o prêmio não afetará muito minha carreira de pesquisa.

Neste momento, algumas pessoas na comunidade científica temem que, em meio a esse clima político, os fatos importem menos do que antes e, portanto, a ciência importe menos. Qual é a sua opinião sobre isso?

Obviamente, a minha opinião é que a ciência tem muita importância. Realmente não posso comentar sobre o que está acontecendo no país de maneira geral - e se isso é algo penetrante onde a ciência realmente possui menos estima, ou se há uma minoria sendo muito ouvida agora. Espero que seja o último caso.

Dina Fine Maron
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