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O sexo é desnecessário para certos lagartos

Algumas espécies de répteis cruzam seus próprios cromossomos para se reproduzir

George Chernilevsky. Wikimedia commons
Katherine Harmon

 

Desde a década de 1960, cientistas sabem que as fêmeas de algumas espécies de lagartos-cauda-de-chicote do gênero Aspidoscelis precisam tanto de um parceiro macho quanto peixes necessitam de uma bicicleta, ou até menos. Essa espécie do México e do Sudoeste os Estados Unidos, formada exclusivamente por fêmeas, consegue produzir descendentes perfeitos sem o auxílio de fertilização masculina.

Mas como essa e outras 70 espécies de vertebrados, que se multiplicam desse modo, conseguem fazer isso sem a monotonia genética e a vulnerabilidade a doenças que muitas vezes resultam da reprodução assexuada? “Isso continua incerto” e “tem sido tema de muita especulação”, relatou uma equipe de pesquisadores que pretendia responder precisamente essa pergunta. Seus resultados foram publicados on-line em 21 de fevereiro no periódico Nature. (A Scientific American integra o Nature Publishing Group).

Esses répteis e outras “espécies partenogenéticas são geneticamente isolados”, explica Peter Baumann, pesquisador associado no Instituto Stowers para Pesquisa Médica, em Kansas City, no Missouri, e coautor do estudo. Espécies tão diversas quanto dragões-de-Komodo e tubarões-martelo se produzem assexuadamente se for necessário. Mas outras, como esses pequenos lagartos, não têm escolha. “Eles não podem trocar material genético e essa impossibilidade de intercâmbio gênico é uma grande desvantagem em um meio ambiente mutante”, acrescenta. A menos que um animal seja capaz de recombinar o DNA que já tem, ele produzirá descendentes com um conjunto idêntico de cromossomos, em que qualquer fraqueza genética, como susceptibilidade a doenças ou mutação física, não teria nenhuma chance de ser anulada, ou neutralizada por material gênico externo, de um parceiro. 

A nova pesquisa realizada por Baumann e sua equipe revela que esses lagartos mantêm sua riqueza genética ao iniciarem o processo reprodutivo com o dobro do número de cromossomos de seus primos que se reproduzem sexualmente. Essas espécies celibatárias resultaram da hibridização de diferentes espécies sexuadas, um processo que infunde os lagartos partenogenéticos com uma grande quantidade de diversidade genética logo de início. Os pesquisadores também descobriram que essas espécies conseguem preservar a diversidade ao nunca combinarem seus cromossomos homólogos (como espécies sexuadas fazem ao tomarem um conjunto de cromossomos de cada progenitor, ou seja, do macho e da fêmea), mas, em vez disso, ao combinarem seus cromossomos irmãos. “A recombinação entre pares de cromossomos irmãos mantém a heterozigosidade” por todo o cromossomo, observaram os autores do estudo, liderado por Aracely Lutes, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de Baumann.

Essa descoberta, que até agora não tinha sido confirmada no mundo réptil, significa que “esses lagartos têm um jeito de distinguir cromossomos irmãos de homólogos”, resume Baumann. Como eles fazem isso? Isso é algo que o grupo está investigando agora.

Outra grande incógnita é precisamente como os lagartos acabam tendo o dobro da quantidade de cromossomos para começo de conversa. Baumann suspeita que isso possa acontecer no decorrer de dois ciclos de replicação, ou se duas células sexuais “unirem forças” antes do início do processo de divisão celular.

Embora a reprodução assexuada possa parecer um tédio, além de poder ter resultados genéticos questionáveis a menos que seja feita direito, ela também tem seus benefícios, salienta Baumann. “Você aumenta consideravelmente as chances de povoar um novo habitat, se para isso for necessário apenas um indivíduo”, argumenta ele, citando como exemplo a cobra-cega-brâmane (Ramphotyphlops braminus), outra espécie partenogenética. “Se ela tem uma maneira de procriar sem a ajuda de um macho, isso é uma vantagem extrema”. E realmente é: a “brâmane” já colonizou seis continentes.

Publicado em Scientific American em 21 de fevereiro de 2010.