Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

O terremoto que devastou o Nepal

Com epicentro próximo à Katmandu, o abalo provocou milhares de mortes no país

USGS
Alexandra Witze e revista Nature

 

O epicentro do poderoso terremoto, de magnitude 7,7 na escala Richter, que devastou grande parte da capital nepalesa, Katmandu, em 25 de abril, estava localizado a apenas 80 km a noroeste da cidade de mais de um milhão de habitantes.

Vários edifícios históricos da cidade, alguns tombados com Patrimônios Mundiais da Humanidade pela UNESCO, se esfarelaram no chão por falta de estruturas arquitetônicas sólidas.

O chão tremeu muito além das fronteiras do Nepal, atingindo o Tibete e o norte da Índia em um dos piores desastres naturais a se abater sobre o Himalaia em décadas.

Milhares de pessoas morreram e outros milhares estão feridos. Milhões de pessoas foram afetadas pela catástrofe.

Nessa matéria, a revista Nature analisa brevemente as circunstâncias geológicas e sociais que se somaram para tornar esse terremoto nepalês tão mortal.

Por que o terremoto aconteceu?

O chão (solo) se rompeu ao longo de uma das maiores zonas de colisões geológicas do planeta; em um ponto em que a placa tectônica que sustenta a Índia colide com a placa Eurasiana (ou da Ásia Central), e que vem sendo forçada para baixo dela (fenômeno chamado subdução) à taxa de 4 a 5 centímetros por ano.

Esse atrito levanta a Cordilheira do Himalaia à sua extraordinária altura e torna toda essa região uma das mais sismicamente perigosas do mundo.

O fenômeno não é incomum: estresse geológico se acumula ao longo da cordilheira e periodicamente essa enorme pressão é libertada em forma de terremotos.

O terremoto de 25 de abril foi relativamente “raso”, com seu epicentro localizado apenas 15 km de profundidade, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Dados preliminares sugerem que a falha [geológica] do Himalaia rompeu um pedaço da crosta terrestre de cerca de 150 a 200 quilômetros de extensão, infoma Susan Hough, sismóloga nos escritórios do USGS em Pasadena, na Califórnia, que já trabalhou no Nepal.

Cientistas esperavam por isso?

Em grande medida, sim.

Sismólogos que incluem Roger Bilham, da University of Colorado em Boulder, e Jean-Philippe Avouac, do California Institute of Technology (Caltech), na Califórnia, em Pasadena, vêm alertando há muito que as tensões da crosta terrestre estão se acumulando no Nepal.

“Esse não foi um terremoto atípico, excêntrico”, salienta Hough.

Ainda assim, o abalo sísmico de 25 de abril foi um pouco menor em intensidade e mais a leste que alguns esperavam.

Ele ocorreu perto do local onde, em 1934, houve um terremoto de magnitude 8,1 que matou mais de 10.000 pessoas e fez com que edifícios no norte da Índia afundassem mais de um metro no solo.

Qual é a gravidade dos danos?

Templos antigos de pedra em Kathmandu desmoronaram inclusive a icônica torre Dharahara.

Outros edifícios se inclinaram perigosamente ou foram nivelados, restando apenas escombros.

As avaliações dos danos ainda estão em andamento, mas Susan Hough confessou ter ficado relativamente animada ao ver edifícios em pé no fundo de fotografias que focalizaram templos colapsados.

No Nepal, a estimativa de mortos continua incerta, progredindo, à medida que autoridades chegam às regiões mais isoladas afetadas pela catástrofe. [É impossível precisar, mas de acordo com as mais recentes informações o número de mortos já passa de 4.300 e mais de seis mil feridos.]

No Monte Everest, o terremoto provocou uma avalanche titânica que soterrou o acampamento base. Houve vários outros deslizamentos de neve de menor impacto.

Sabe-se, até agora, que pelo menos 17 pessoas morreram no Everest.

Por que as pessoas não estavam mais preparadas?

O Nepal tem uma comunidade pequena, mas experiente de profissionais em terremotos, e uma rede nacional de estações de monitoramento sísmico e geodésico. Várias organizações que se concentram em redução de risco têm trabalhado ativamente em Katmandu nos últimos anos.

Em 12 de abril, duas delas, a Sociedade Nacional de Tecnologia de Terremotos no Nepal, em Sainbu, e a GeoHazards International de Menlo Park, na Califórnia, haviam atualizado seus cenários para um grande terremoto do vale de Katmandu.

Esse projeto de longa duração calculou um desastre similar ao de 1934 e delineou o que se deveria fazer.

Em Katmandu, edifícios mais antigos frequentemente eram construídos de alvenaria não reforçada, que não é capaz de resistir quando o solo todo treme devido a um terremoto tão próximo como foi este.

Além disso, a área foi crescentemente urbanizada ao longo dos anos e muitos dos edifícios mais novos foram construídos muito próximos uns dos outros, em bairros densos, e também sem reforços estruturais.

“Não é um problema de ignorância; é um problema de recursos”, resume Susan Hough.

O que acontecerá agora?

Presumindo que este foi o maior terremoto que já se esperava, o Nepal pode esperar dezenas de tremores secundários de magnitude superior a 5 durante o próximo mês.

Um abalo secundário de 6,6 na Escala Richter atingiu a região do domingo, dia 26.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado orginalmente em 25 de abril de 2015

 

Publicado em Scientific American em  abril de 2015.