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O terrorismo é uma "justiça" de autoajuda?

Muitos liberais e especialistas em mídia dos EUA minimizaram motivos religiosos do Estado Islâmico, afirma editor da revista Skeptic

Cortesia de Frans de Waal
Michael Shermer

Em um videoclipe involuntariamente hilariante, o primatólogo Frans de Waal narra um experimento conduzido em seu laboratório na Universidade de Emory, em Atlanta, na Geórgia, envolvendo macacos-prego (Cebus apella). Um macaco troca uma pedra por uma fatia de pepino, que ingere alegremente. Mas depois de ver outro macaco ganhar uma uva muito mais saborosa por uma pedra, ele arremessa outra fatia de pepino furiosamente de volta ao experimentador quando este tenta lhe fazer nova oferta. O animal chacoalha as grades da jaula, espanca o chão e encara essa flagrante injustiça com olhar seriamente exasperado. (Assista ao vídeo em: http://goo.gl/uTCILt.)

Um senso de justiça e injustiça, ou seja, de certo e errado, é um sentimento moral evoluído para sinalizar a outros que, se trocas não são justas, haverá um preço a pagar. Mas que preço? No jogo Ultimatum Game, em que uma pessoa recebe uma soma de dinheiro para dividir com outra, com a estipulação de que se a oferta for aceita ambos ficarão com o dinheiro, mas se ela for rejeitada nenhum dos dois ganhará nada, ofertas inferiores a 30% do total em geral são rejeitadas. Ou seja, estamos dispostos a pagar 30% para punir um ofensor. Isso se chama punição moralista.

Em um clássico artigo de 1983, intitulado “Crime como controle social”, o sociólogo Donald Black, atualmente na Universidade de Virginia, observa que apenas cerca de 10% dos homicídios são predatórios em sua natureza — assassinatos que ocorrem durante um roubo ou assalto. Os outros 90% são de cunho moralista, uma forma de punição capital em que os perpetradores são o juiz, o júri e o carrasco de uma vítima que, de acordo com a percepção deles, os prejudicou de alguma maneira e que, portanto, merece a pena de morte. Os inquietantes exemplos de Black incluem um homem que “matou sua mulher depois que ela o ‘desafiou’ a fazer exatamente isso durante uma discussão”, uma mulher que “matou seu marido durante uma briga em que o homem bateu em sua filha”, um homem que “matou seu irmão durante uma acalorada discussão sobre os avanços sexuais deste em relação a suas irmãs mais novas”, uma mulher que “matou seu filho de 21 anos porque ele vinha ‘brincando com homossexuais e drogas’”, e outros ocorridos “durante altercações sobre o estacionamento de um automóvel”. Lembre-se do assassinato de três muçulmanos em Chapel Hill, na Carolina do Norte, em fevereiro deste ano, que envolveu, pelo menos parcialmente, uma disputa sobre uma vaga de estacionamento.

Depois da Idade Média, esse tipo de justiça de autoajuda moralmente motivada foi substituído, em sua maior parte, por uma justiça criminal motivada racionalmente. Mas Black salienta que, quando pessoas não confiam no sistema judicial do Estado ou acreditam que ele é tendenciosamente contra elas, ou quando pessoas vivem em Estados fracos, com governos corruptos, ou em sociedades efetivamente apátridas, elas tomam a lei nas próprias mãos. O terrorismo é uma atividade dessas, e sua expressão é uma forma de justiça de autoajuda, cujos motivos dependem do grupo terrorista particular em questão, argumentou Black em um artigo de 2004, intitulado “The Geometry of Terrorism” [“A geometria do terrorismo”] e publicado em Sociological Theory. Esses grupos se estenderam desde o marxismo revolucionário na década de 1970 até o atual islamismo apocalíptico, como o que é praticado pelo Estado Islâmico do Iraque e da Síria (conhecido como ISIS ou ISIL), que não é um Estado, mas uma confederação informal de jihadistas.

Muitos liberais e especialistas em mídia dos EUA minimizaram seus motivos religiosos, mas como Black me escreveu em um e-mail, “terroristas muçulmanos devem ser levados seriamente ao pé da letra quando afirmam que seu movimento é islâmico, anticristão, antijudaico, etc. Temos a palavra deles como evidência e, em minha opinião, essa é a base adequada em que classificar o movimento deles. Teríamos afirmado que a violência usada por protestantes e católicos durante a Reforma Protestante não tinha nada a ver com religião? Isso seria absurdo”.

Não menos absurda é a crença de que jihadistas são agitadores políticos seculares sob mantos religiosos. Como escreve Graeme Wood em “What ISIS Really Wants” [“O que o ISIS realmente quer”], seu artigo investigativo publicado na edição de março deste ano da revista Atlantic, “grande parte do que o grupo faz parece não ter sentido, exceto à luz de um compromisso sincero, cuidadosamente avaliado, de levar a civilização de volta a um ambiente jurídico do século 7º e, em última instância, precipitar o apocalipse”. Sim, o ISIS atraiu os desafetos de várias partes do mundo, mas “a religião pregada por seus seguidores mais ardorosos deriva de interpretações coerentes e até eruditas do Islamismo”, conclui Wood, acrescentando que sua teologia “precisa ser entendida como passível de ser combatida”.

Sobre o autor:
Michael Shermer é editor da revista Skeptic (www.skeptic.com). Seu novo livro é intitulado The Moral Arc (Henry Holt, 2015). Sega-o no Twitter em @michaelshermer

Este artigo foi publicado originalmente com o título “Terrorism as Self-Help Justice”.

Publicado em Scientific American em 14 de abril de 2015.

Observação: os artigos de opinião publicados neste espaço não expressam necessariamente a posição da revista Scientific American Brasil