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O tufão Haiyan foi fruto de mudanças climáticas?

Ainda são limitadas as evidências de associação entre aquecimento oceânico e supertempestades 

Cortesia de Rick Kohrs/SSEC
Por Quirin Schiermeier e revista Nature

Enquanto as Filipinas avaliam a devastação provocada pelo super tufão Haiyan que, de acordo com alguns relatos matou mais de 10 mil pessoas, a especulação sobre se o desastre pode ter sido uma manifestação da mudança climática se intensifica. Na abertura da conferência climática da ONU em Varsóvia, em 11 de novembro, o chefe da delegação Filipina, Yeb Sano, anunciou que pararia de se alimentar até que os negociadores fizessem progressos “significativos”.

Mas a devastadora tempestade pode ser associada às mudanças climáticas globais? A Nature investiga as evidências.

Haiyan foi a tempestade mais forte já medida?

Aparentemente, sim. Com ventos constantes de mais de 310 km/h, o Haiyan foi o mais potente ciclone tropical a atingir terra firme na história registrada. O recorde anterior era do furacão Camille, que em 1969 atingiu o estado de Mississippi com ventos de pouco mais de 300 km/h.

Essa foi a terceira vez que uma catástrofe semelhante se abateu sobre o arquipélago filipino em menos de 12 meses. Em agosto, o tufão Trami provocou inundações massivas na ilha de Luzon; e, em dezembro de 2012, o tufão Bopha matou perto de 2 mil pessoas e provocou danos de cerca de US$ 1,7 bilhão na ilha de Mindanao. Os estragos do Haiyan podem facilmente exceder esse valor: de acordo com o relatório de um analista sênior da Bloomberg Industries, citando a Kinetic Analysis Corp., o impacto econômico total do tufão Haiyan pode chegar a US$ 14 bilhões.

O número de mortos poderia ter sido muito maior se muitos filipinos não tivessem atendido aos alertas de tempestade, fugindo em tempo da área de risco.

Qual é a diferença entre um ciclone, um tufão e um furacão?

Essas tempestades estão se intensificando em um mundo em aquecimento? Basicamente, são apenas nomes diferentes para os mesmos fenômenos climáticos extremos em diferentes partes do mundo. No Atlântico e no nordeste do Pacífico, essas tempestades são chamadas “furacões”; e no Pacífico Sul e no oceano Índico “ciclones”.

Essa é a pergunta de um milhão de dólares e atualmente não há um consenso científico sobre como respondê-la.

Tempestades ganham sua energia do oceano; portanto seria lógico que elas se tornem mais fortes e talvez também mais frequentes à medida que as camadas superiores dos oceanos tropicais aquecem.

De fato, a intensidade potencial de tempestades tropicais aumenta com temperaturas superficiais marítimas mais altas. No entanto, o efeito de mares mais quentes poderia ser contrabalançado pelo aumento aparente da força do chamado cisalhamento do vento (ou ventos cruzados) — ventos que sopram em diferentes direções e intensidade variável em diversas altitudes. Esses ventos tendem a impedir a formação de tempestades, ou desfazê-las antes que possam atingir força extrema.

Em resumo: muitos pesquisadores climáticos acreditam ser plausível supor que a atividade de tempestades tropicais aumentará. Existem algumas evidências de que a intensidade das tempestades de fato já aumentou, mas isso se limita ao Atlântico Norte, onde as observações são mais abundantes. Em outros lugares, as evidências disponíveis ainda não são conclusivas.

Em seu último relatório, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) resumiu cautelosamente o que se sabe da seguinte maneira:

“As chamadas séries temporais de índices de ciclones, como a dissipação de energia, um composto agregado da frequência, duração e intensidade de ciclones tropicais, que mede a energia eólica total em ciclones tropicais, mostram tendências ascendentes no Atlântico Norte e tendências ascendentes mais fracas na região oeste do Pacífico Norte desde o final da década de 70, mas a interpretação das tendências em longo prazo é limitada, mais uma vez, por preocupações com a qualidade de dados”.

O que dizem os modelos?

Os modelos climáticos globais são grosseiros demais para resolver perturbações atmosféricas em escala relativamente pequena, como tempestades tropicais, independente do destaque que esses fenômenos têm em mapas meteorológicos. Por essa razão, cientistas precisam inferir o efeito do aquecimento global na atividade de tempestades a partir de padrões gerais de circulação atmosférica.

O pesquisador de furacões Kerry Emanuel, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em Cambridge, por exemplo, empregou uma nova técnica para simular um grande número de ciclones tropicais em modelos climáticos. Quando aplicada a cenários climáticos históricos e futuros, descritos por seis modelos climáticos de última geração, seu método prevê que tanto a frequência como a intensidade de ciclones tropicais aumentará durante o século 21 em todas as regiões oceânicas tropicais, exceto no sul-sudoeste do Pacífico. O estudo de Emanuel foi publicado tarde demais para ser incluído no último relatório do IPCC.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado originalmente em 11 de novembro de 2013.

sciam13nov2013