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Obama recebe propostas de adaptação a mudanças climáticas

Medidas visam proteger cidades e outras áreas das inevitáveis mudanças climáticas

por John Upton e Clima Central

As mudanças climáticas estão sendo percebidas localmente, através de inundações, ondas de calor e outros fenômenos meteorológicos, mas não faz sentido deixar a gigantesca tarefa de adaptação às alterações climáticas para que as comunidades locais descubram por si.

É por isso que a administração Obama convocou um painel de líderes locais, estaduais e tribais no ano passado para aconselhar o governo federal sobre a forma de melhor orientar e aperfeiçoar os esforços de planejamento da resiliência e de adaptação às alterações climáticas. Em 17 de novembro de 2014 o painel apresentou um relatório de 46 páginas contendo mais de 100 sugestões para autoridades da Casa Branca, que vão desde a necessidade de um compêndio de estudos de caso de adaptação e as melhores práticas para mudanças na forma de funcionamento da indústria de seguros.

"Estas devem ser questões apartidárias, e elas são realmente questões que afetam a qualidade de vida nas nossas cidades", membro da força-tarefa Jim Brainard, alertou o prefeito de Carmel, Indiana, durante uma coletiva de imprensa na segunda-feira. "Não podemos continuar a construir cidades do jeito que fizemos no passado."

O governo federal diz que já está atuando em algumas das conclusões do grupo. "Nós começamos a considerar as recomendações nos programas de concessão em todo o governo federal, e realmente tentando descobrir como incorporar este trabalho no DNA das agências em todo o governo" ressaltou Mike Boots, chefe do conselho de qualidade ambiental da Casa Branca.

Muitas das sugestões do painel estão relacionadas à necessidade de melhores dados e informações; um tema sobre o qual o governo atuou antes mesmo do envio de releases pela manhã. Os Kit de Resiliência Climática dos Estados Unidos, também conhecido como o Climate Explorer, é uma nova ferramenta on-line que pode ser utilizada para avaliar os riscos de inundações costeiras, deficiências de água e outros desafios associados ao aquecimento global. A primeira fase do kit foi lançada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica na segunda-feira, o que representa uma extensão da abordagem do governo usando o poder do Big Data no trabalho para se adaptar às mudanças climáticas.

Nem todas as recomendações do grupo se referem estritamente sobre a mudança climática. Muitas são orientações para promover uma maior capacidade de resistência aos desastres, independentemente da associação desses desastres a mudanças climáticas.

"Trata-se de sistematizar as relações que o governo federal mantém com as comunidades locais quando se trata assuntos como socorro a desastres e clima extremo", explica Robert Colin, diretor de relações governamentais em questões de clima e energia.

Colin disse que o governo Obama poderia atuar em muitas das recomendações do relatório sem o apoio do Congresso, que é cético em relação a necessidade de ações relacionadas ao clima. Mas ele disse que a tarefa de preparar a nação para uma deterioração do clima seria mais fácil se o Congresso apoiasse reformas como a adequação das agências [governamentais] e alocação de recursos.

Abaixo o resumo das principais recomendações do relatório, amplamente elogiadas por especialistas.

"Eles fizeram um trabalho muito bom ao apontar o panorama das grandes mudanças políticas que precisam ser feitas", avalia Jessica Grannis, gerente do programa de adaptação do Georgetown Climate Center. As recomendações incluem "caminhos obrigatórios para o governo federal", acrescentou ela, dando-lhe "detalhes concretos" do que precisa mudar, e que as agências devem "se encarregar de mudar aspectos particulares de uma gama enorme de programas federais muito complicadas.”

Proteger comunidades

O painel pediu ao governo federal impulsionar os esforços existentes para promover reinvenção de como as cidades podem crescer como, por exemplo, através da Partnership for Sustainable Communities (Parceria para Comunidades Sustentáveis) e $1 billion post-Sandy Rebuild Through Design competition  (o concurso “U$ 1 bilhão de pós-Sandy Reconstruir através do Design).

O grupo também pediu ao governo para incentivar e liderar o desenvolvimento de melhores diretrizes e padrões que ofereçam mais proteção aos edifícios e à infraestrutura contra desastres.

Proteger a infraestrutura

As mudanças climáticas impõem riscos associados ao calor – inundação  – a estradas, usinas, portos, sistemas de distribuição de água, ferrovias, estações de tratamento de água e pontes. O grupo pediu ao governo federal para reduzir esses riscos realizando construções em áreas de baixo risco, sempre que possível, e através da adaptação das infraestruturas vulneráveis que não podem ser realocados. O grupo também pediu um aumento nos gastos com infraestrutura ecológica e natural, como o replantio de áreas úmidas para deter picos de inundações e elevação do nível do mar.

Proteger os recursos naturais

Especialistas elogiaram a força-tarefa para a inclusão de ecossistemas no relatório. A conservação e recuperação de áreas naturais e úteis, afirmou o grupo, pode proteger a água e alimentos, moderar temperaturas locais, reduzir os riscos de inundação e fornecer habitat para a vida selvagem que está sendo estressada e induzida a novas distribuições pelas mudanças climáticas.

Proteger a Saúde

A mudança climática pode tornar as pessoas doentes, por meio de estresse por calor e expansão da gama de mosquitos vetores de doenças. Comunidades carentes e propensas a doença são "podem ser imensamente susceptíveis ", alerta o grupo no relatório.

O painel pediu ao governo o desenvolvimento de novas ferramentas de monitoramento de saúde. Ele também propõe que se identifiquem as comunidades mais vulneráveis e considerem as mudanças climáticas ao avaliar os programas federais destinados a ajudá-los.

O relatório enfatiza a necessidade de melhor preparação para desastres, assim como a importância da segurança alimentar local, que pode ser ameaçada pelo aquecimento global e acidificação dos oceanos.

Melhor recuperação de desastres

Desastres geram oportunidades singulares para reconstruir ambientes de maneiras novas e criativas – formas que podem ajudar a proteger as comunidades de desastres semelhantes no futuro. Levando isso em consideração, os programas federais de recuperação de desastres devem reparar e reconstruir [ambientes] de modo a reduzir riscos futuros, e devem ajudar as autoridades locais, estaduais e tribais a fazer o mesmo, disse o grupo. O relatoria ainda instou o governo a negar os pedidos de financiamento que proponham a reconstrução de edifícios e obras de infraestrutura que exacerbaram vulnerabilidades.

O grupo também pediu "financiamento adequado" ao governo federal para atualizar os mapas do National Flood Insurance Program incluindo o aumento dos níveis do mar, as alterações da linha costeira e as alterações na frequência das tempestades provocadas pelo aquecimento global.

O Outro Verde

Sempre que o governo realizar uma análise de custo-benefício de um grande empreendimento, o painel sugere que favoreça estratégias de longo prazo que considerem os riscos financeiros e as vulnerabilidades associadas aos perigos climáticos futuros em detrimento de benefícios de curto prazo. Os custos de longo prazo de maior vulnerabilidade a enchentes devem ser considerados, por exemplo, se um projeto prevê  alterações de zonas úmidas que limitam inundações [zonas de tamponamento].

O painel pediu ao governo para trabalhar com a indústria de seguros para desenvolver políticas de preços que incentivem decisões de construção seguras em relação ao clima. Propõe ainda a elaboração de políticas desenvolvidas que exijam a notificação antecipada de riscos relacionados com o clima antes que um imóvel seja negociado.

Melhor informação

O painel pediu ao governo para continuar a pesquisar e desenvolver ferramentas que abasteçam as autoridades locais e estaduais com as informações necessárias para que se prepararem para mudanças climáticas. Por isso, a criação de  U.S. Climate Resilience Toolkit, que a NOAA afirma que "vai evoluir" nos próximos meses após a implantação da primeira fase desta semana. Nos próximos meses, o banco de dados "será atualizada para tratar de áreas adicionais, tais como água, ecossistemas, transporte e saúde."

Este artigo foi reproduzido com permissão da Climate Central e publicado pela primeira vez em 17 de novembro de 2014.

Scientific American 18 de novembro de 2014