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Obama versus Congresso sobre o aquecimento global

Presidente se prepara para batalhas no Congresso qualificando mudança climática de “maior ameaça”

 

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Discursando após a publicação de uma pesquisa que mostra que 2014 foi o ano mais quente já registrado, Obama alertou que os impactos de emissões de gases estufa poderiam piorar o clima, afetar a economia e ameaçar a saúde das crianças.
Por Evan Lehmann, Umair Irfan e ClimateWire

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, confrontou Republicanos sobre a ciência da mudança climática em um discurso por vezes espinhoso que descreveu o aumento das temperaturas como a maior ameaça para o futuro dos americanos.

O discurso colidiu com as promessas de Republicanos recém-empossados no Congresso de mostrar as políticas climáticas e energéticas de Obama como símbolos de liberalismo excessivo antes das eleições presidenciais no ano que vem. Obama ainda estava terminando sua fala quando um senador republicano sênior descreveu suas visões climáticas como parte de uma “agenda socialista”.

Discursando logo após a publicação de uma nova pesquisa mostrando que 2014 foi o ano mais quente já registrado, Obama alertou que os impactos de emissões de gases estufa poderiam piorar o clima, prejudicar a economia e ameaçar a saúde das crianças.

“É claro que um ano não cria uma tendência, mas isso cria: 14 dos 15 anos mais quentes já registrados estão entre os 15 primeiros anos deste século”, declarou Obama.

“Eu já ouvi algumas pessoas tentando escapar das evidências ao dizer que não são cientistas, que não temos informações suficientes para agir”, adicionou ele, referindo-se a alguns Republicanos que fizeram afirmações nesse sentido. Um deles é o Republicano de Ohio, John Boehner, presidente da Câmara, que estava sentado logo atrás de Obama.

“Os melhores cientistas do mundo alertam que nossas atividades estão mudando o clima e, se não agirmos com determinação, continuaremos a ver o nível dos oceanos subir; ondas de calor cada vez mais quentes e longas; secas e enchentes perigosas; e perturbações massivas que podem iniciar mais migrações, conflitos e fome ao redor do globo”, adicionou Obama.

Alguns observadores anteciparam que o presidente tentaria conseguir apoio público para seu Plano da Energia Limpa, que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos está desenvolvendo para reduzir emissões de gás em usinas elétricas novas e já existentes. Mas esse apelo ao público nunca aconteceu. Em vez disso, Obama emitiu um alerta velado a republicanos de que seus esforços para obstruir as próximas regras e outros programas climáticos poderiam ser retratadas como sendo perigosas para crianças.

“Eu não permitirei que esse Congresso arrisque a saúde de nossos filhos atrasando nossos esforços”, declarou Obama.

O discurso por vezes desafiador do presidente foi realizado algumas horas após o debate do Senado sobre temas semelhantes do outro lado do Capitólio. O Senado passou facilmente uma modesta emenda de eficiência energética que deve forçar Obama a tomar uma decisão quanto ao oleoduto canadense Keystone XL: aprová-lo ou vetá-lo.

O senador Rob Portman (Republicano de Ohio), que tem seu nome no cabeçalho da emenda de eficiência, descreveu o desenvolvimento como “fantástico”.

Republicanos podem considerar qualquer resultado – a aprovação ou veto do Keystone XL – como vitória, porque tentam retratar Obama, e os Democratas, como indivíduos que favorecem o meio-ambiente em detrimento de empregos. Essa narrativa promete ajudar a moldar as eleições presidenciais do ano que vem.

“O presidente Obama logo terá uma decisão a tomar: será que ele vai assinar a emenda, ou impedirá [a criação de] bons trabalhos americanos?”, declarou a senadora Joni Ernst (Republicana de Iowa) sobre a legislação do oleoduto durante a refutação de seu partido para o discurso do presidente.

O clima é a ‘maior vulnerabilidade’ para os Republicanos

Obama tentou se manter longe do Keystone XL, que ele afirma que só será aprovado se não exacerbar a mudança climática ao expandir significativamente a produção nas areias de petróleo canadenses. Em vez disso, ele incitou o Congresso a abordar programas nacionais de infraestrutura.

“Então vamos tentar olhar além de um único oleoduto”, declarou Obama. “Vamos passar um plano bipartidário de infraestrutura que poderia criar mais de 30 vezes esse número de empregos todos os anos e tornar este país mais forte durante as próximas décadas”.

Antes do discurso, Bob Perciasepe, ex-oficial da EPA que atualmente preside o Centro para Soluções Climáticas e Energéticas, declarou que seria benéfico se o presidente usasse seu discurso para corrigir imprecisões sobre as regras de carbono que a EPA estabeleceu para usinas elétricas. Oponentes descreveram essas regras, de maneira errônea, como sendo economicamente prejudiciais e burocraticamente rígidas, observou Perciasepe.

“Tudo isso pode ser dissipado, ou pelo menos modulado, se o presidente expuser suas visões e o fato de que está tentando fornecer muita flexibilidade para que os estados possam ser criativos e encontrar abordagens inovadoras”, adicionou ele.

Perciasepe aplaudiu Obama após o discurso por destacar a ameaça da mudança climática a uma audiência nacional. O presidente, no entanto, não mencionou explicitamente as regras de carbono da EPA.

Outros viram marcas de bravata em um presidente que pode se sentir mais confiante sobre as vantagens políticas de pressionar por ações climáticas. Paul Bledsoe, membro sênior do German Marshall Fund e ex-conselheiro democrata, declarou que “atualmente, a Casa Branca vê a mudança climática como uma grande vulnerabilidade para os Republicanos, especialmente em 2016”.

“Ao identificar a mudança climática como o problema mais crítico para as próximas gerações, o presidente está expondo não apenas a negação científica, mas as tentativas republicanas de minar suas políticas climáticas domésticas e internacionais específicas”, escreveu Bledsoe por email após o discurso.

O veto ameaça crescer

O discurso vem após várias ameaças de veto da Casa Branca neste mês sobre tentativas legislativas de, entre outras coisas, aprovar o oleoduto Keystone XL. A administração divulgou duas dessas ameaças horas antes de o presidente realizar seu discurso, incluindo uma que eliminaria uma proposta para conceder aprovação automática de tubulações de gás natural se a Comissão Reguladora Federal de Energia não conseguisse agir com velocidade suficiente.

Republicanos frequentemente parecem confortáveis ao ignorar o problema do clima, observando que candidatos do partido chegaram facilmente à vitória nas eleições intercalares do ano passado, mesmo após grandes investimentos de grupos externos como a NextGen Climate de Tom Steyer, que apresentou alguns candidatos republicanos como “negadores”. Ernst, que já questionou se os seres humanos realmente estão contribuindo para temperaturas mais altas, foi um dos alvos de Steyer.

O senador James Inhofe (Republicano de Oklahoma), diretor do Comitê de Meio-Ambiente e Obras Públicas, descreveu as políticas climáticas de Obama como as características de uma agenda socialista. Ele também declarou que as regras de carbono da EPA que devem ser completadas neste verão boreal são “um esquema de redistribuição de renda”.

“Essa é a verdadeira agenda climática que o presidente escolheu não abordar esta noite”, declarou Inhofe em um vídeo. “Isso não é surpresa, já que esse seria o maior aumento de impostos na história dos Estados Unidos”.

Outros declaram que o discurso de Obama marcou uma importante proteção contra esforços legislativos de reverter tudo, das futuras regras climáticas da EPA às futuras regulamentações para reduzir emissões de metano no setor de gás natural.

“Haverá uma batalha no Congresso sobre isso”, declara David Goldston, diretor de assuntos governamentais no Conselho de Defesa de Recursos Naturais. “É importante que essa batalha seja elevada e que o presidente deixe claro o que está em jogo e que ele verá isso resolvido”.

Paris no horizonte

Ainda que o foco esteja sobre brigas domésticas, um problema mais vasto ficou evidente nas observações do presidente: o papel que os Estados Unidos terão nas negociações climáticas internacionais este ano, em Paris.

Alden Meyer, diretor de estratégia e política da União dos Cientistas Preocupados, declarou que o presidente está cumprindo as exigências de seus oponentes políticos ao engajar a China e a Índia em acordos climáticos.

“De maneira engraçada, os oponentes da ação produziram a base para o presidente ao insistir que é importante trazer a bordo outros países, como China, Índia e Brasil”, declarou Meyer. “Isso lhe permitiu dizer: ‘Veja, está funcionando. Eu já engajei a China e vou para a Índia na semana que vem”.

O senador Joe Manchin (Democrata da Virginia Ocidental), declarou que Obama está pedindo que seu estado, e outros que dependem de economias baseadas em combustíveis fósseis, aguentem a carga da redução de emissões.

“Nós temos uma diferença. Realmente temos”, declarou ele sobre a estratégia climática de Obama. “Eu acho que gostaria de ouví-lo reconhecer que esse é um problema global. Eles chamam isso de clima global, não de clima norte-americano. Precisamos de uma solução global”.

O discurso de Obama foi vasto, mencionando uma lista de prioridades domésticas e internacionais, incluindo o combate ao terrorismo. Mas Obama deixou claro que algumas de suas maiores preocupações vêm das emissões de produção energética e transportes.

“E nenhum desafio – nenhum desafio – oferece maior ameaça às gerações futuras que a mudança climática”, concluiu ele.

Republicado de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net, 202-628-6500

 

Publicado em Scientific American em 21 de Janeiro de 2015