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Obesidade infantil é consequência de fatores ambientais

A medida mais eficaz de controle é reduzir a exposição das crianças a alimentos

Braedostok/Shutterstock
Apesar de crianças tipicamente conseguirem ajustar sua ingesta energética ao regular sua alimentação, a professora de saúde pública da Temple University, Jennifer Fisher, declara que seus arredores e opções podem mudar a equação para crianças da mesma maneira que para adultos. 


 
Por Tara Haelle

Novas evidências estão confirmando que o ambiente em que crianças vivem tem um impacto maior sobre esforços para controlar a obesidade infantil que fatores como genética, atividade física insuficiente, ou outros elementos.

Três novos estudos, publicados na Pediatrics de 8 de abril, discutem a importância do lado da ‘criação’ [nurture] na equação e se concentram em circunstâncias específicas nas vidas de crianças ou adolescentes que podem contribuir para um peso insalubre.

Em três décadas, a obesidade infantil e adolescente triplicou nos Estados Unidos, e estimativas de 2010 classificam mais de um terço de crianças e adolescentes como obesas ou com sobrepeso.

A obesidade aumenta o risco que essas crianças têm de desenvolver diabetes do tipo 2, doenças cardiovasculares, apneia do sono, e problemas nos ossos ou juntas.

Acredita-se que as variáveis responsáveis sejam desde muito pouco exercício, até muitas bebidas carbonatadas. Mas parece que culpar a Pepsi ou a falta de educação física pode negligenciar o quadro geral. 

“Estamos criando nossos filhos em um mundo muito diferente do que era há 40 ou 50 anos”, observa Yoni Freedhoff, médica especialista em obesidade e professora assistente de medicina da University of Ottawa. “A obesidade infantil é uma doença do ambiente.

É uma consequência natural de crianças normais com genes normais sendo criadas em ambientes insalubres, nocivos”.

Os fatores ambientais desses estudos vão desde coisas aparentemente sem importância, como o tamanho dos pratos das crianças, até desafios maiores, como horários escolares que podem impedir que crianças durmam o suficiente.

Mas eles são parte de uma lista ainda mais longa: a onipresença do fastfood, mudanças tecnológicas, menos refeições feitas em casa, mais propaganda de comida, uma explosão de alimentos processados de baixo custo, e o aumento no tamanho de doses de bebidas açucaradas.

Além disso, o acesso fácil a guloseimas insalubres em máquinas automáticas, competições esportivas e em quase todos os ambientes frequentados por crianças.

Esses são apenas alguns dos fatores ambientais que pesquisas ligaram ao aumento da obesidade, e pesquisadores estão começando a determinar quais deles tem papeis mais ou menos importantes na obesidade de crianças.

Tamanho faz diferença em “ambientes obesogênicos”

Em um dos três novos estudos, o tamanho dos pratos fez uma grande diferença.

Pesquisadores estudaram 42 alunos do segundo ano em que as crianças usavam ora pratos infantis com 18,4 centímetros de diâmetro e profundidade de 237 milímetros, ora pratos adultos de 27 centímetros de diâmetro e profundidade de 473 milímetros.

Dobrar o tamanho dos pratos, descobriram os pesquisadores, aumentava em 90 calorias, em média, a quantidade de alimento que as crianças pegavam em um buffet. Em média, elas ingeriam aproximadamente 43% dessas calorias extras.

De acordo com a professora de saúde pública Jennifer Fisher, da Temple University, apesar de crianças tipicamente conseguirem ajustar sua ingesta calórica regulando a alimentação, seus arredores e opções podem alterar essa equação da mesma maneira que acontece com adultos.

“Essa noção de que crianças são imunes ao ambiente é um pouco equivocada”, aponta Fisher, que conduziu o estudo. “Para promover o autocontrole, é preciso limitar o ambiente de maneira a tornar a escolha saudável mais fácil”. 

Fisher declara que grande parte das pesquisas recentes sobre nutrição se concentra nos ambientes “obesogênicos” da sociedade atual: um ambiente que oferece vasto acesso a alimentos altamente saborosos em grandes porções.

“Se observarmos estudos adultos sobre dieta e perda de peso, veremos que a probabilidade de manter o autocontrole nesse ambiente é bem baixa”, aponta Fisher.

“Acho que a maioria dos cientistas acredita que nossos corpos evoluíram para se defenderem da fome e evitarem a perda de peso, e talvez não sejam tão sensatos para evitar o consumo excessivo”. 

Ligação entre obesidade e televisão

O consumo excessivo também pode ser um componente fundamental na ligação entre obesidade e televisão, de acordo com outro dos novos estudos.

Apesar de pesquisas anteriores já terem associado o tempo em frente à TV a pessoas com cinturas maiores, esse estudo foi mais fundo.

91 crianças de 13 a 15 anos preencheram diários referentes ao uso de TV, video games e computadores durante um período de uma semana. Cerca de quatro a sete vezes ao dia, os adolescentes recebiam mensagens para registrar no que estavam prestando mais atenção naquele momento específico, e depois atividades que recebiam atenção em segundo e terceiro lugar.

“Crianças vivem em um mundo multitarefa”, lembra o professor de pediatria David Bickham, da Escola Médica de Harvard, principal autor do estudo  sobre televisão. “Estamos tentando avaliar o uso que crianças fazem da tecnologia quando estão usando formas diferentes de tecnologia ao mesmo tempo”. 

De acordo com Bickham, três teorias foram levantadas para a ligação entre televisão e obesidade: comerciais de alimentos, alimentação inconsciente e substituição – isto é, a ideia de que o uso da mídia substitui atividades físicas.

As descobertas de sua equipe deram mais apoio às duas primeiras variáveis e menos à terceira. Eles descobriram que video games e computador não tinham impacto sobre o IMC (índice de massa corporal). A televisão tinha, mas apenas se fosse o evento principal. TV de fundo, por exemplo, não fazia diferença. 

“Estamos dizendo que o nível de atenção pode fazer diferença”, observa Bickham. "Você tem que prestar atenção aos comerciais para eles terem impacto, e os comerciais de alimentos são muito menos comuns em computadores e video games.

Em termos de alimentação inconsciente, quando você está assistindo TV, suas mãos ficam livres e você fica estimulando seus sentidos com a TV, então a alimentação simultânea tem mais probabilidade de acontecer”.

Pesquisas anteriores encontraram apoio para essas duas teorias, como um estudo deste ano mostrando que vizinhanças com mais propagandas de alimentos e bebidas carbonatadas tinham índices mais altos de obesidade.

Freedhoff adiciona que já se mostrou que até comerciais de frutas e verduras aumentam o consumo de alimentos insalubres. “Nossos hormônios da fome ficaram afiados após milhões de anos de insegurança na dieta, então quando queremos comer, não temos a tendência de desejar saladas verdes”, explica ele.

O problema não é menos atividade  física

O estudo da TV descobriu que crianças engajadas em mais atividades físicas tinham IMCs mais baixos mas, de acordo com Freedhoff, isso não signifca que mais exercício está mantendo esses adolescentes mais leves.

“O que vimos durante tantos anos foram pesquisas encarando a atividade física como a solução preventiva ou remediadora para a obesidade infantil, mas os dados sobre atividade física como meio de regular o peso das crianças são abismais”, declara ele.

“O que esse estudo confirmou é que o tempo diante da TV aumenta a obesidade em consequência da ingesta calórica, e não da falta de atividade física. Essa é uma mensagem crucial que as pessoas não entendem – a obesidade não é uma doença da inatividade”.  

O terceiro novo estudo, observando a ligação entre duração do sono e obesidade em adolescentes, atenua ainda mais a ideia de que a falta de atividade física é responsável pelo aumento de peso das crianças.

Pesquisadores acompanharam quase 1400 adolescentes do 9º ano do ensino fundamental americano até o 3º ano do ensino médio e descobriram, assim como estudos anteriores, que menos sono se traduz em IMCs mais altos.

Ao analisar a distribuição de IMC em vez de usar notas de corte, o pesquisador de pós-doutorado da University of Pennsylvania, Jonathan Michell, declara que sua equipe detectou efeitos de sono muito mais fortes entre adolescentes já obesos.

O efeito de cada hora adicional de sono entre adolescentes no 90º percentual de IMC foi duas vezes maior do que os que estavam no 10º percentual. Os pesquisadores previram que aumentar o sono de 7,5 para 10 horas por dia entre jovens de 18 anos poderia remover quatro pontos percentuais da proporção de adolescentes com IMC acima de 25.

Eles também observaram os níveis de atividade física dos jovens. “Se você estiver dormindo menos, ficará fatigado durante o dia e estará menos inclinado a ser ativo”, observa Mitchell. “Mas a ligação que observamos não era totalmente explicada por níveis mais baixos de atividade física”.

Outra possibilidade é que ficar acordado durante mais tempo significa mais oportunidades de comer, mas a equipe de Mitchell não observou a ingesta diária.

Pesquisas anteriores também descobriram que a privação de sono pode alterar os hormônios reguladores do corpo, leptina e grelina, que controlam saciedade e fome. Ou, de acordo com Mitchell, o problema pode não ser a ingesta calórica total, mas o momento da refeição. Ele aponta estudos com ratos onde as criaturas noturnas se tornavam obesas se comessem durante o dia e a noite, mas mantinham um peso normal se só comessem à noite.

Independetemente do mecanismo, essas descobertas também apoiam a noção de que todo o ambiente das crianças do século 21 – não seu autocontrole ou atividade física reduzida – é o principal culpado pelo aumento da obesidade.

“Pessoas gostam de tornar a obesidade uma doença de culpa, mas os últimos 40 anos não viram uma epidemia de perda de força de vontade infantil”, aponta Freedhoff. “Existem dúzias e mais dúzias desses fatores ambientais. A menos que reestruturemos os ambientes de nossas crianças, é improvável que vejamos quaisquer mudanças no peso infantil”. 

Freedhoff aponta cidades como Filadélfia e Nova York, onde a alteração dos ambientes das crianças, especialmente em escolas, pode ser responsável por reduções recentes na obesidade.

A Filadélfia removeu bebidas carbonatadas de máquinas automáticas em 2004, então reduziu o tamanho das porções de comida, removeu fritadeiras das lanchonetes da escola e substituiu o leite integral por leite com 1% de gordura e desnatado.

Fora da escola, mais de 600 lojas de esquina participam da iniciativa Food Trust para preencher suas prateleiras com opções mais saudáveis.

Nova York instituiu novos padrões de nutrição em escolas e creches, além de limites de tempo diante da TV. As duas metrópoles também tem algumas das leis de rotulagem de menus mais abrangentes do país.  

“Isso é muito mais complicado do que ‘coma menos, exercite-se mais’”, lembra Freedhoff.

“Se o controle de peso ou a prevenção de tratamento da obesidade infantil fossem coisas intuitivas, teríamos um monte de crianças magrelas correndo por aí”.

O próprio Freedhoff está desenvolvendo um programa para famílias que se concentra em “reformular” os ambientes das crianças e de suas famílias, começando com mais alimentos caseiros. “Pais e mães morreriam por seus filhos, mas a maioria deles não cozinha em casa com ingredientes integrais”, declara ele.

Mas Freedhoff também observa que o problema da obesidade infantil cada vez maior não pode ser enfrentado apenas pelos pais.

Ele sugere começar com mudanças nos conselhos escolares, equipes esportivas, APMs e outros que já se preocupam com crianças. “O que eu acho incrível é o uso constante de fast food para pacificar e recompensar crianças – não existe evento pequeno demais para doces ou fast food”.

Há muitos locais em que comunidades poderiam começar: tornar almoços escolares mais saudáveis, abandonar máquinas automáticas e acesso a fast food dentro de escolas, não comemorar vitórias esportivas em estabelecimentos de fast food, e encerrar o uso de doces ou de fast food como recompensa, como “dias da pizza” e outros eventos escolares que tem a comida como tema, apenas para citar alguns.

Freedhoff observa ainda que é preciso levar em consideração que os pais ficam perto de suas crianças durante a menor parte do dia e, assim, são necessárias muitas pessoas para mudar ambientes infantis. “Se tivéssemos uma máquina do tempo, esse seria o melhor programa de perda de peso do mundo”, explica. “Foi o mundo que mundou, não as pessoas”.