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Onde estão as provas dos supostos benefícios de meditação mindfulness?

A popular técnica para aliviar estresse e dor se apoia em pouca evidência, afirma grupo de cientistas

Wikimedia Commons/Joffers951
O conceito de mindfulness envolve focar a atenção na situação e no estado mental presentes. Isso pode significar ter consciência dos arredores, das emoções e da respiração - ou, de forma mais simples, aproveitar cada pedaço de um sanduíche muito bom. Pesquisas recentes ligaram as práticas de mindfulness a uma coleção surpreendente de possíveis benefícios para a saúde.

Sintonizar-se ao mundo ao seu redor pode dar uma sensação de bem-estar, afirma uma série de estudos. Vários relatórios conectam mindfulness com melhoras no funcionamento cognitivo. Um estudo até mesmo sugere que ele pode preservar as pontas dos nossos cromossomos, as quais somem à medida que envelhecemos.

No entanto, muitos psicólogos, neurocientistas e especialistas em meditação temem que a fama tenha ultrapassado a ciência propriamente dita. Em um artigo divulgado esta semana na revista Perspectives on Psychological Science, 15 proeminentes psicólogos e cientistas cognitivos advertem que, apesar da popularidade e dos supostos benefícios, faltam dados científicos sobre mindfulness. Muitos dos estudos sobre mindfulness e meditação, escreveram os autores, são mal concebidos - comprometidos por definições inconsistentes sobre o que realmente ela é, e muitas vezes sem um grupo de controle para descartar o efeito placebo.

O novo artigo cita uma análise de 2015 publicada na revista científica American Psychologist relatando que apenas cerca de 9% das pesquisas sobre intervenções baseadas em mindfulness foram testadas em ensaios clínicos que incluíssem um grupo de controle. Os autores também apontam para múltiplas metanálises controladas por placebo, concluindo que as práticas de mindfulness frequentemente não produziram resultados impressionantes. Uma anália em 2014 de 47 experimentos com meditação, incluindo coletivamente mais de 3.500 participantes, essencialmente não encontrou evidências de benefícios relacionados a aumentar a atenção, restringir o abuso de substâncias, ajudar a dormir ou controlar o peso.

Nicholas Van Dam, principal autor do relatório, psicólogo clínico e pesquisador em ciências psicológicas da Universidade de Melbourne, argumenta que os potenciais benefícios do mindfulness estão sendo ofuscados pela popularidade e grandes vendas a fim de gerar ganhos financeiros. A meditação e o treinamento para mindfulness agora são uma indústria de US$ 1,1 bilhão nos EUA. "Nosso relatório não significa que a meditação de mindfulness não ajude em algumas coisas", diz Van Dam. "Contudo, o rigor científico ainda não conseguiu sustentar essas grandiosas reivindicações". Ele e seus co-autores também estão preocupados com o fato de que, até 2015, menos de 25% dos testes de meditação incluíam o monitoramento de potenciais efeitos negativos da intervenção, um número que ele gostaria de ver crescer à medida que o campo avança.

Van Dam reconhece que algumas boas evidências sustentam o mindfulness. A análise de 2014 concluiu que essa técnica e a meditação podem proporcionar benefícios modestos para ansiedade, depressão e dor. Ele também cita uma análise de 2013 publicada na revista Clinical Psychology Review sobre terapia baseada em mindfulness, que encontrou resultados semelhantes. "A intenção e o escopo dessa análise são bem-vindos - ela está tentando introduzir rigor e equilíbrio nesse novo campo emergente", diz Willem Kuyken, professor de psiquiatria da Universidade de Oxford na Inglaterra, que não estava envolvido em pesquisa do novo relatório. "Há muitas áreas em que os programas baseados em mindfulness parecem ser aceitáveis e promissores, mas são necessários ensaios rigorosos e aleatórios de maior escala."

Dois testes publicados no início deste mês na revista Science Advances também dão suporte a práticas deste tipo. O primeiro detectou que certos treinos de atenção, semelhantes ao mindfulness, reduzem a autopercepcão do estresse, mas não os níveis do hormônio cortisol, indicador biológico comum dos níveis de estresse. O outro teste liga o treinamento de atenção a aumentos de espessura do córtex pré-frontal, uma região cerebral associada ao comportamento complexo, à tomada de decisão e à modelagem da personalidade. Os autores pediram mais pesquisas sobre o que essas descobertas poderiam significar clinicamente.

Van Dam caracteriza os métodos de pesquisa utilizados em ambos os estudos como sólidos. No entanto, ele ressalta que ambos representam o problema maior do campo: falta de padronização. Diversas metodologias foram usadas ao longo dos anos para estudar a técnica, o que torna difíceis as comparações de diferentes estudos.

A técnica de mindfulness está enraizada no pensamento e na teoria budistas. No Ocidente, foi popularizada na década de 1970 por Jon Kabat-Zinn, professor da Universidade de Massachusetts e cientista cognitivo que fundou a Clínica de Redução de Estresse da Universidade e o Centro de Mindfulness na Medicina. Kabat-Zinn desenvolveu o que chamou de "redução do estresse baseada em mindfulness", uma terapia alternativa para uma variedade de condições frequentemente difíceis de tratar. No início dos anos 2000, havia crescido a popularidade do conceito de mindfulness. Logo em seguida, ele veio a ter muitos significados diferentes e abordagens variadas para o tratamento. "Em nosso artigo, comentamos especificamente sobre o fato de que muitos continuam a desenvolver novas intervenções sem avaliar completamente aquelas as quais já estão sendo implementadas", diz Van Dam. "Eu acho que esses estudos, embora bem projetados, podem caber dentro da categoria de serem diferentes o bastante daquilo que já possuímos para nos impedir de realmente saber se poderíamos usar esses resultados como evidência [da eficácia] de outras práticas."

Como Van Dam e seus co-autores escreveram, "[não existe] uma definição técnica sequer universalmente aceita de ‘mindfulness’, nem qualquer acordo amplo sobre aspectos detalhados do conceito básico ao qual se refere."

"No geral, eu suspeito que uma grande parte das promessas relacionadas a saúde não acontecerão, principalmente porque terapias, aplicativos de celular e outras intervenções estão sendo levados para o mercado sem testes suficientemente rigorosos e implementação adequada", ele diz. "Porém, levando em conta o que vimos até agora, acredito que se possa vir a acumular apoiando o uso de práticas de mindfulness no cuidado de ansiedade, depressão e males relacionados ao estresse."

Eric Loucks, professor de ciências comportamentais e sociais e diretor do Centro de Mindfulness da Universidade Brown o qual não esteve envolvido na pesquisa do novo artigo, concorda que existem múltiplas definições de mindfulness. Contudo, ele sente que pode ser difícil de enfrentar a dificuldade em trazer um rico conceito espiritual para uma estrutura padronizada para testar e aconselhar pacientes.

"Um elemento na definição de mindfulness, considerando suas raízes no budismo, é... A recomendação do Buda de que as descrições de conceitos como ‘mindfulness’ são como um dedo apontando para a Lua", ele explica. "É importante não confundir o dedo com a Lua. Sempre haverá variações na compreensão das pessoas sobre mindfulness. É uma experiência pessoal."

Bret Stetka
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