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Orangotangos mortos ilegalmente na última década: 20 mil. Processos judiciais: zero

Florestas na Indonésia são arrasadas para plantação de palma, ameaçando espécie de extinção

John Platt
Centro de Proteção ao Orangotango
Orangotango morto sendo carregado de uma plantação de palma
Mais de 20 mil orangotangos foram caçados e mortos por madeireiros ou vendidos no mercado negro de bichos de estimação nos últimos dez anos, segundo novo relatório da revista Nature Alert, Ltd., em Bath, Inglaterra e do Centro de Proteção ao Orangotango (COP), de Jacarta, Indonésia. Também foi constatado que nenhum processo judicial foi movido por esses crimes .

A população de orangotangos Bornéu (Pongo pygmaeus), ameaçados de extinção, é atualmente estimada em menos de 50 mil pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da IUCN – metade do que era há 60 anos. O orangotango de Sumatra (P. abelii), primo do Bornéu, também ameaçado, tem uma população estimada de apenas 7 mil e 300, uma queda de 80% nos últimos 75 anos.

O comércio internacional de orangotangos é proibido pela Convenção Sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas da Fauna e da Flora Silvestres (CITES). Eles são protegidos na Indonésia, onde é proibido matar, capturar, transportar ou ferir esses macacos raros.

No entanto, as mortes continuam. “O problema é que a lei nunca é aplicada, principalmente porque o órgão do governo responsável pelas florestas nunca demonstrou um sério interesse na proteção de animais selvagens e de seu hábitat”, constata Sean Whyte, diretor da Nature Alert.

O porquê das mortes de tantos orangotangos se resume, basicamente, a uma palavra: ganância. Os orangotangos não têm valor comercial; pelo contrário, é a terra em que vivem que está sendo queimada para dar lugar a enormes (e muitas vezes ilegais) plantações de palma para extração de óleo da planta. Ele é um ingrediente comum em muitos alimentos processados. Cerca de 90% do óleo de palma do mundo provêm da Indonésia e da Malásia.

“As florestas da Indonésia estão sendo destruídas a uma taxa equivalente a seis campos de futebol por minuto”, revela Richard Zimmerman, diretor da ONG Orangutan Outreach, na cidade de Nova York, responsável por arrecadar fundos para a COP e ajudar a financiar seu novo relatório. “Quando você sobrevoa Bornéu, você só vê quilômetros e quilômetros de plantações de palma. Há apenas alguns anos, você teria visto uma floresta tropical intocada. Ela simplesmente desapareceu e todos os seres vivos foram abatidos.”

Quando as florestas são derrubadas, orangotangos adultos são frequentemente baleados e mortos, mas não antes de serem abusados. “Estes seres pacíficos e sensíveis são espancados, queimados, mutilados, torturados e muitas vezes comidos. Bebês são arrancados de suas mães quase mortas para serem vendidos no mercado negro como animais de estimação a famílias abastadas, que os vêem como símbolos de status do seu próprio poder e prestígio. Isso tem sido documentado inúmeras vezes”, lamenta Zimmerman.

As plantações de palma se estendem por “uma área muito vasta”. Para piorar ainda mais a situação, “é uma monocultura que destrói a terra. Observando imagens de satélite da região, você vê queimadas em vez de florestas”, revela Zimmerman.

Hardi Baktiantoro, diretor do COP, contextualiza a situação com a seguinte declaração: “A indústria do óleo de palma é uma das maiores, se não a maior indústria ambientalmente prejudicial do mundo.”

A Nature Alert e o COP estão pedindo ao governo da Indonésia para começar a efetivamente impor as suas leis e parar de emitir novas autorizações permitindo a exploração madeireira ou plantações em áreas habitadas por orangotangos.

Até a Indonésia tomar alguma medida, os três grupos pedem às pessoas ao redor do mundo para não comprarem produtos que contêm óleo de palma. Recomendam também a pedir para que seu comércio local não venda esses produtos. “Os consumidores têm muita força, só falta utilizá-la”, afirma Whyte. “Principalmente nos Estados Unidos, precisamos que mais pessoas comecem a questionar os revendedores. Na Europa, a campanha tem sido bem-sucedida e na Nova Zelândia a Cadbury\\`s prometeu retirar o óleo de palma do seu chocolate.”

“O primeiro, e mais importante, passo é a conscientização, principalmente nos EUA”, completa Zimmerman. “Muitas pessoas não têm ideia do que é o óleo de palma, de onde vem, ou por que ele é um problema.”