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Orangotangos usam estrato de planta como analgésico

Seres humanos não são os únicos animais que descobriram produtos medicinais na natureza

Fundação para a Natureza de Bornéu

A medicina não é uma invenção exclusivamente humana. Muitos outros animais, desde insetos e pássaros até primatas não humanos, se automedicam com plantas e minerais para infecções e outras doenças. A ecologista comportamental  Helen Morrogh-Bernard, da Fundação para a Natureza de Bornéu, estudou por décadas os orangotangos da ilha e diz ter encontrado evidências de que eles utilizam plantas de uma forma medicinal nunca vista antes.

Durante mais de 20.000 horas de observação formal, Morrogh-Bernard e seus colegas observaram 10 orangotangos que mastigam ocasionalmente uma planta em particular (que não faz parte de sua dieta), até transformá-la numa baba espumosa, e depois a esfregam em sua pele. Os primatas demoraram 45 minutos massageando a mistura na parte superior de seus braços e pernas. Os pesquisadores acreditam que esse comportamento é o primeiro exemplo conhecido de animais não humanos usando um analgésico tropical.

Os habitantes locais utilizam essa mesma planta — Dracaena cantleyi, um arbusto de aparência comum — para tratar dores. Os outros autores além de Morrogh-Bernard são da Academia Tcheca de Ciências, da Universidade Olomouc Palacký e da Universidade Médica de Viena, e estudaram a química da planta. Eles adicionaram extratos da planta em células humanas que cresceram em um prato de laboratório e foram estimuladas artificialmente para produzir citocinas, uma resposta do sistema imune que causa inflamação e desconforto. O extrato da planta reduziu a produção de vários tipos de citocinas, relataram os cientistas em um estudo publicado em novembro de 2017 na revista Scientific Reports.

O resultado sugere que os orangotangos usam a planta para reduzir a inflamação e tratar a dor, diz Jacobus de Roode, um biólogo da Universidade de Emory que não fez parte do estudo. Essas descobertas poderiam ajudar a identificar plantas e substâncias químicas que podem ser úteis para medicações humanas, diz de Roode.

Em criaturas como insetos, a habilidade de se automedicar é quase inata; lagartas de ursos lanosos, quando infectadas com moscas parasitas, procuram e comem substâncias que são tóxicas para as moscas. Mas animais mais complexos podem ter algumas estratégias que surgem após um membro do grupo ter feito a descoberta inicial. Por exemplo, um orangotango pode ter esfregado a planta em sua pele para tentar tratar parasitas e percebeu que isso também tinha o efeito prazeroso de tirar a dor, diz Michael Huffman, um primatólogo da Universidade de Quioto que não estava envolvido na pesquisa. Depois, esse comportamento pode ter sido passado para outros orangotangos. Quanto ao motivo pelo qual esse tipo de automedicação foi visto apenas no centro-sul do Bornéu, Morrogh-Bernard acredita que se trata de um comportamento aprendido localmente.

Doug Main

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