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Organismos que vivem no solo são benéficos para nós?

Algumas pessoas alegam que é melhor adquirirmos nossas bactérias probióticas da terra que de alimentos como iogurte. A pergunta é: esses produtos são seguros?

Schwäbin/Wikimedia Commons
Monica Reinagel 

A Scientific American apresenta Nutrition Diva de Quick & Dirty Tips. A Scientific American e a Quick & Dirty Tips integram o grupo editorial MacMillan.

Uma ouvinte do programa Nutrition Diva (Diva da nutrição, em inglês) pediu para eu comentar sobre organismos que vivem no solo; seres benéficos que, na opinião de algumas pessoas, são muito mais úteis que as bactérias inofensivas encontradas em alimentos probióticos como iogurte.

De fato, tem havido uma explosão de pesquisas envolvendo o intestino humano e os trilhões de microrganismos que o habitam.

Os cientistas estão descobrindo ligações entre as bactérias que vivem em nosso corpo (às vezes chamado “microbioma”) e uma infinidade de problemas de saúde, de diabetes a alergias a autismo.

Mas as pesquisas só estão começando. 

Uma grande parte dos trabalhos atuais são simplesmente uma tentativa de fazer um recenseamento, já que há muitos organismos e microrganismos a catalogar.

Descobrir exatamente o que todos eles estão de fato fazendo por – ou contra – nós e como podemos manipular essas populações para o nosso benefício ainda é algo que está consideravelmente distante.

Ainda assim, os consumidores aderiram em massa aos probióticos.

Embora o consumo de laticínios, produtos derivados do leite, tenha diminuído, a ingestão de iogurtes disparou.

Paralelamente, embora as vendas de suplementos vitamínicos tenham despencado, as de suplementos probióticos estão em uma acentuada curva ascendente.

Além disso, todo mundo agora está fermentando seus próprios vegetais.

O interesse em organismos “baseados no solo” também parece fazer parte dessa nova tendência.

O que são organismos “baseados no solo”?

Como o próprio nome indica, são bactérias (e outras formas de vida) que vivem na terra.

Ali, elas fazem pelas plantas mais ou menos o que alimentos probióticos fazem por nós, humanos: decompõem material vegetal, produzem vitaminas, combatem patógenos, e assim por diante.

De fato, o adubo orgânico que aplico em minha horta contém esses microrganismos para melhorar a saúde e qualidade do solo.

Mas esses organismos também chegam aos nossos sistemas.

Alguns pegam carona em nossas mãos ou em frutas e vegetais que consumimos crus; mas você também adquire microrganismos por meio da ingestão de natto (tradicional alimento japonês feito de soja fermentada; pronuncia-se “natô”) e de pickles (conservas) de vegetais.

É claro que nós, humanos, agora ingerimos muito menos sujeira que no passado (nem tão remoto).

De fato, nossos domicílios excessivamente limpos podem ser uma das razões por que as crianças de hoje são tão mais propensas a sofrer de alergias.

A exposição a uma ampla gama de bactérias, especialmente durante a primeira infância e a infância, parece favorecer a formação de um sistema imune saudável.

A limitada exposição a organismos que habitam o solo também poderia ser responsável por outros distúrbios ou doenças digestivas ou imunes?

Essa é uma pergunta que, basicamente, ainda não tem uma resposta, mas a hipótese originou uma série de produtos probióticos que incluem organismos do solo.

Quais são as vantagens desses organismos?

Seus defensores argumentam que eles são mais resistentes que as bactérias comuns encontradas em alimentos.

Eles não requerem refrigeração nem tratamento especial, e são mais resistentes a ácido; portanto, um número maior deles sobrevive à viagem acidificada através do estômago até o intestino.

Tudo isso pode ser verdade. A questão é se os suplementos são benéficos, ou seguros.

Para responder a essas perguntas, seria necessário saber exatamente de quais organismos estamos falando.

A maioria dos produtos comercialmente disponíveis inclui uma grande variedade de cepas diferentes e a vasta maioria delas ainda não foi estudada em humanos; nem isoladamente, nem em conjunto, ou combinadas.

Alguns organismos do solo podem ser benéficos para humanos, outros provavelmente são patogênicos.

Como, porém, eles se comportarão dependerá muito da quantidade que a pessoa consome, de que microrganismos ela já hospeda, e da saúde de seu intestino quando os ingere.

Não é surpresa, portanto, que pessoas com problemas de saúde são mais propensas a apresentar reações adversas.

O que indicam as pesquisas sobre probióticos?

Encontrei apenas um produto com pesquisa clínica publicada.

Um ensaio muito pequeno, mas controlado por placebo, constatou que um probiótico chamado Prescript-Assist oferecia um alívio modesto para os sintomas da síndrome do intestino irritável (SII).

Isso não é grande coisa, mas é muito mais do que a maioria dos outros produtos por aí oferece.

O site de um concorrente, por exemplo, enumera uma série de ensaios controlados por placebo, que concluíram que seu produto reduz o colesterol, melhora a contagem de glóbulos brancos do sangue em pacientes com leucemia, e melhora a memória e a concentração em voluntários saudáveis.

Apesar dos seus resultados surpreendentes, nenhum desses estudos foi publicado em periódicos científicos revisados por pares.

Em minha experiência, qualquer um que se dá ao trabalho de conduzir um ensaio clínico controlado e obtém ótimos resultados tentará publicá-los. E é um pouco difícil imaginar uma publicação séria que rejeitaria descobertas inéditas como essas; a menos que a metodologia, elaboração de relatórios, ou as fontes do estudo fossem seriamente questionáveis.

Você deve tomar probióticos?

Por serem classificados como suplementos alimentares e não como drogas/medicamentos, os fabricantes e distribuidores de probióticos têm muita liberdade. 

O FDA, o órgão do governo americano que regula alimentos e remédios, e a Comissão Federal do Comércio (FTC), ocasionalmente vão atrás de empresas por fazerem falsas alegações, mas a internet está repleta de depoimentos incríveis, declarações infundadas e “pesquisas” altamente questionáveis.

Paralelamente, controles in loco por agências governamentais, pesquisadores e grupos de vigilância do consumidor constatam regularmente que alguns produtos contêm muito menos bactérias (ou bactérias completamente diferentes) que o indicado no rótulo.

Se você simplesmente estiver interessada no potencial que organismos do solo têm para promover uma boa saúde geral, eu sugeriria que se limitasse a fontes alimentares como natto e vegetais crus.

Vá se divertir no seu jardim e provavelmente adquirirá mais alguns. 

Mas, se estiver interessada nesses microrganismos como uma terapia para SII, doença de Crohn, ou outras condições que afetam a saúde de seu sistema digestivo, eu definitivamente recorreria à ajuda de um profissional médico capaz de avaliar as evidências para um determinado produto, tendo em vista seu problema.

Gostaria de agradecer imensamente o apoio do Dr. Michael Schmidt, da Universidade Médica da Carolina do Sul e da Sociedade Americana de Microbiologia (American Society of Microbiology) por me ajudarem a entender este tópico vasto e complexo. Se você julgar este assunto tão fascinante como eu, não deixe de verificar o podcast surpreendentemente divertido deles “This week in microbiology” e os outros recursos em seu site em MicrobeWorld.org.

Publicado em Scientific American em 12 de agosto de 2015.