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Os Alpinistas do Mal

Nazistas não eram simples seguidores de ordens 

Michael Shermer
Recontei recentemente como minha replicação dos experimentos de choque de Stanley Milgran revelaram que apesar de a maioria das pessoas poder ser persuadida a obedecer autoridades, se alguém lhes pedir para machucar outras pessoas, elas fazem isso com relutância e com muito conflito moral.

A explicação de Milgram foi um “estado agente”, ou “a condição em que uma pessoa está quando se vê como agente para executar os desejos de outra pessoa”.

Na condição de agentes em um experimento, indivíduos deixam de ser agentes morais em uma sociedade para se tornarem agentes obedientes em uma hierarquia. “Sempre fico surpreso durante minhas palestras sobre experimentos de obediência em faculdades do país, em que encontro jovens chocados com o comportamento dos indivíduos do experimento que proclamam que jamais se comportariam daquela forma mas que, em questão de meses, entram para as forças armadas e executam sem escrúpulos ações que fazem  parecer brincadeira eletrocutar alguém”.

Essa é uma observação astuta porque pesquisas sobre a motivação de soldados durante o combate – bem resumidas pelo Tenente Coronel Dave Grossman em seu profundo livro MATAR!  Um estudo sobre o ato de matar (Bibliex Cooperativa, 2007) – revela que a principal motivação dos soldados não é política e ideológica, mas devoção a seu bando de irmãos. “Entre homens que são unidos tão intensamente”, explica Grossman, “há um poderoso processo de pressão de iguais em que o indivíduo se preocupa tanto com seus companheiros e com o que pensam sobre ele, que preferiria morrer a decepcioná-los”.

Como uma espécie social de primatas, modulamos nossa moral a partir de sinais da família, de amigos e de grupos sociais com os quais nos identificamos porque em nosso passado evolucionário esses atributos ajudaram indivíduos a sobreviver e se reproduzir. Nós não concedemos simplesmente controle a autoridades; ao contrário, nós seguimos as orientações de nossas comunidades morais sobre a melhor maneira de nos comportarmos.

O poder de identificação é enfatizado em uma reinterpretação de Milgram em um artigo de 2012 publicado em Perspectives on Psychological Science, do psicólogo Stephen D. Reicher, da University of St. Andrews, e da também psicóloga Joanne R. Smith, da University of Exeter. Eles chamam seu paradigma de “seguidores baseados em identificação”, apontando que “a identificação dos participantes, seja com o experimentador ou a comunidade científica que ele representa, ou com o aluno  e a comunidade geral que ele representa” explica melhor a inclinação dos indivíduos a eletrocutar (ou não) alunos a pedido de uma autoridade.

No início de um experimento, indivíduos se identificam com o experimentador e com seu válido programa de pesquisa científica, mas a 150 volts a identificação começa a mudar para o aluno, que grita “Argh!!! Experimentador! Chega. Me tire daqui, por favor. Meu coração está começando a me incomodar. Eu me recuso a continuar. Me deixe sair”.

De fato, é a 150 volts que os indivíduos têm maior probabilidade de desistir ou protestar. “Na prática”, postulam Reicher e seus colegas, “eles ficam divididos entre duas vozes concorrentes que disputam sua atenção e fazem exigências contraditórias”. Essa hipótese explica melhor as evidentes lutas morais dos indivíduos depois de 150 volts que o “estado agente” de Milgram porque o último só abarca o vínculo indivíduo-autoridade, excluindo o óbvio laço empático indivíduo-vítima.

 A outra limitação do modelo de Milgram é que ele descarta burocratas nazistas como simples aparatos em uma máquina de extermínio pilotada por Adolf Eichmann, cujas ações foram famosamente descritas por Hannah Arendt como a “banalidade do mal”. Onde está a responsabilidade moral?

Como o historiador Yaacov Lozowick observou em seu livro de 2002, Hitler’s Bueaucrats: “Eichmann e sua laia não foram assassinar judeus por acidente, ou em um momento de inconsciência, nem obedecendo cegamente a ordens ou sendo simples engrenagens em uma máquina maior. Eles trabalharam duro, pensaram muito, lideraram durante muitos anos. Eles eram os alpinistas do mal”.

Exemplos de alpinistas sociais nazistas ascendendo pelo fino ar do mal são abundantes em um livro de 1992, intitulado The Good Old Days. Como explica um desses alpinistas, o Tenente Coronel Karl Kretschmer, da SS: “Não ser capaz de suportar a visão de pessoas mortas é uma fraqueza; a melhor maneira de superá-la é fazê-lo com mais frequência. Então isso se torna um hábito”.

Felizmente, hábitos aprendidos podem ser “desaprendidos”, especialmente no contexto de grupos morais. 
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