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Os dez lugares mais poluídos do mundo

Rússia, China e Índia contêm a maioria das áreas onde a poluição tóxica e as pessoas convivem, com efeitos devastadores

David Biello
O sofrimento de Sumqayit: durante o tempos soviéticos, a cidade no Azerbaijão serviu como centro de fabricação de químicos e, como resultado de um legado de lixo tóxico, eleva o número de casos de câncer em até 51%
Esta semana, Sumqayit, no Azerbaijão, ganhou o prêmio duvidoso de entrar na lista dos dez locais mais poluídos do mundo, publicada pela organização ambientalista americana Blacksmith Institute. Mais uma herdeira do legado tóxico da indústria soviética, a cidade de 275 mil habitantes convive com uma forte contaminação de metais, petróleo e produtos químicos, conseqüência de seus dias como centro de produção química. Como resultado, a população tem um número de 22% a 51% maior de casos de câncer que os habitantes do resto do país, e seus filhos sofrem de uma gama de complicações genéticas, de retardo mental a doenças nos ossos.

“Cerca de 12 mil toneladas de emissões nocivas eram despejadas por ano, incluindo mercúrio”, afirma Richard Fuller, fundador da Blacksmith. “Há enormes lixões de resíduos industriais sem tratamento.”

Fuller diz que a lista inclui “locais altamente poluídos nos países em desenvolvimento, onde as crianças morrem aos montes ou vivem com alguma doença crônica... áreas de desolação e repugnância daquilo que o homem causou”. Veja as outras cidades mais poluídas:

Chernobyl, Ucrânia – As partículas radioativas liberadas no maior acidente nuclear da história continuam a se acumular, afetando até 5,5 milhões de pessoas e levando a um grande aumento dos casos de câncer da tireóide. O acidente também arruinou a perspectiva econômica de áreas e nações adjacentes. “A Bielorússia é um país agrícola mas, por causa de Chernobyl, perdeu acesso aos mercados mundiais para vender sua produção”, explica Stephan Robinson, diretor da Cruz Verde da Suíça, grupo ambiental que colaborou com o relatório.
Legado radioativo: o órfão Sasha sofre com as conseqüências da explosão nuclear da usina de Chernobyl
Dzerzinsk, Rússia – Em um dos centros de fabricação de químicos durante a Guerra Fria, os 300 mil habitantes da cidade têm uma das menores expectativas de vida no mundo, graças ao refugo injetado diretamente no solo. “A longevidade média mal chega aos 45 anos,” afirma Robinson, “São quinze a 20 anos a menos que a média russa, e cerca da metade da longevidade de um ocidental”.

Kabwe, Zâmbia – A segunda maior cidade do sul da África era o lar de uma das maiores fundições de chumbo do mundo até 1987. Como resultado, a cidade inteira está contaminada com esse metal pesado, que pode causar danos ao cérebro e ao sistema nervoso em crianças e fetos. “O nível de chumbo no sangue das crianças geralmente é superior a 50 microgramas por decilitro, e em alguns casos, maior que 100 mcg/dl,” afirma Fuller. “A cada 10 pontos acima dos 10 mcg/dl no sangue – padrão do centro de controle de doenças dos Estados Unidos para o tratamento –, há uma queda no Q.I.”.

La Oroya, Peru – Apesar de ser uma das menores comunidades na lista (a população é de 35 mil habitantes), também apresenta um dos maiores índices de poluição devido à mineração de chumbo, zinco e cobre da Doe Run, uma empresa de mineração americana.

Linfen, China – Uma cidade no coração da região de carvão da China, na província de Shanxi, seus três milhões de habitantes sufocam com a poeira e bebem o arsênico provenientes do combustível fóssil. Além disso, “a poluição do ar é tanta que mal dá para enxergar alguma coisa”, diz Robinson.
Filhos da poluição: a mineração que ainda existe em La Oroya, no Peru, leva a altos níveis de chumbo no sangue, que podem causar danos ao cérebro, em quase todas as crianças da cidade
Norilsk, Rússia – Essa cidade acima do Círculo Ártico contém o maior complexo de fundição de metais e, portanto, parte da pior neblina poluída do mundo. “É tanta poluição no ar que não há uma planta viva numa área de 30 km da cidade. A contaminação (por metais pesados) já chegou a 60 km de distância,” explica Fuller.

Sukinda, Índia – Lar de uma das maiores minas de cromita do mundo – metal usado para fazer aço inoxidável, entre outras coisas – e de 2,6 milhões de pessoas, as águas desse vale contêm compostos carcinogênicos de cromo hexavalente, cortesia das 30 milhões de toneladas de resíduo de rocha ao longo do rio Brahmani. “O cromo hexavalente é muito tóxico e altamente móvel”, ressalta David Hanrahan, diretor dos programas globais da Blacksmith, em Londres.

Tianying, China – Centro da produção chinesa de chumbo, esta cidade de 160 mil habitantes está entre as oito áreas mais poluídas do país, de acordo com o governo da China. As concentrações de chumbo no ar e no solo estão entre 8,5 a 10 vezes acima dos padrões de saúde nacionais e o nível de pó de chumbo é 24 vezes mais alto que o recomendado pelos mesmos padrões.

Vapi, Índia – Essa cidade no final do cinturão industrial do país, no estado de Gujarat, abriga o resíduo industrial de mais de mil fábricas, incluindo petroquímicas e indústrias de pesticidas e farmacêuticos, entre outros químicos. “As empresas tratam a água que utilizam e conseguem tirar a maior parte da sujeira, mas não há onde colocar essa sujeira, que continua sendo jogada fora sem tratamento,” diz Hanrahan.
O Blacksmith Institute compilou a lista, que também inclui mais 20 locais no “Top 30” das cidades poluídas, comparando a toxicidade da contaminação, a probabilidade de contaminação de humanos e o número de pessoas afetadas. Os locais onde crianças sofrem impacto subiram no ranking. Nenhuma localidade dos Estados Unidos ou Europa entrou na lista graças a uma limpeza geral dos agentes nocivos à saúde nas últimas décadas, mas isso não significa que os países desenvolvidos não contribuam para o quadro. “O níquel que usamos em nossos carros ou em qualquer outro produto provavelmente veio de Norilsk”, aponta Fuller, “E parte do chumbo da bateria dos nossos carros veio de algum desses lugares.”

Apesar da poluição maciça, seria relativamente fácil e barato retirar as substâncias nocivas dos locais contaminados, argumenta Fuller. Segundo ele, o desenvolvimento econômico já permite a construção de fábricas mais limpas e pequenos esforços e investimentos podem render grandes ganhos, ele diz.

Por exemplo, custa apenas US$15 mil para salvar cerca de 350 vidas simplesmente desenterrando o solo radioativo da usina de plutônio de Mayak, que foi depositado às margens do rio Techa, na cidade russa de Muslyomova. Iniciativas com boa relação custo-benefício estão sendo planejadas no mundo todo. “Com cerca de US$200, o preço de uma geladeira, podemos salvar a vida de alguém,” diz Fuller, citando uma análise do Blacksmith conduzida com a ajuda da Mount Sinai School of Medicine e do Hunter College na cidade de Nova York, assim como da Johns Hopkins University em Baltimore. “Pequenas somas de dinheiro vão longe quando a questão é limpar esses resíduos”.

No entanto, há também muitos locais ignorados pela lista; Fuller estima que, na pior das hipóteses, eles incluíram apenas um terço das áreas mais poluídas do mundo por causa da cobertura desigual da Ásia central e da América Central e do Sul. Afinal, Sumqayit entrou na lista este ano pela primeira vez. “Ficamos muito surpresos,” ele admite, “ao incluir na lista cidades de que nunca tínhamos ouvido falar.”