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Os laboratórios de pesquisa são seguros?

Diferenças entre realidade e percepção dos cientistas experimentais sobre segurança

Richard Van Noorden e revista Nature
Image: Flickr/mars_discovery_district
Equipe internacional analisa o bem estar nos laboratórios e as atitudes dos que neles trabalham 
Cientistas podem ter uma falsa sensação de segurança em relação a seus laboratórios, de acordo com resultados iniciais da primeira pesquisa internacional sobre práticas e atitudes no local de trabalho.

Cerca de 86% dos quase 2400 cientistas que responderam o questionário declararam acreditar que seus laboratórios são locais seguros para trabalhar.

Quase metade deles, contudo, já havia sofrido lesões por causas que variavam de mordidas de animais à inalação de químicos. Grande parte relatou frequente trabalho isolado, solitário, ferimentos não notificados ou registrados e insficiente treinamento sobre segurança em relação a perigos específicos.

“Compreender essa disparidade será essencial para mudar positivamente a cultura da segurança”, declara James Gibson, diretor de saúde e segurança ambiental da University of California, Los Angeles (UCLA).

O Centro de Segurança Laboratorial da universidade, uma iniciativa de pesquisa iniciada em março de 2011, comissionou o estudo como parte de uma pesquisa de esforços liderados pelos Estados Unidos para examinar a cultura de segurança seguindo a chocante morte de Sheharbano Sangji, uma assistente de pesquisa de 23 anos.

Sangji teve queimaduras horríveis durante um incêndio em um laboratório da UCLA há quatro anos, e seu supervisor, o químico orgânico Patrick Harran, pode ser julgado por sua morte.

Outros incidentes, incluindo outra morte em laboratório, ocorrida em 2011 na Yale University, em New Haven, no estado de Connecticut, aumentou as preocupações.

O estudo “é a tentativa mais ampla de coletar dados sobre atitudes de segurança que já vi – e mais uma informação em um conjunto cada vez maior de relatórios que apontam para a necessidade de melhorar a cultura da segurança em nossos laboratórios acadêmicos”, elogia Dorothy Zolandz, diretora da US National Academies Board on Chemical Sciences and Technology [Diretoria Nacional de Academias para Ciências Químicas e Tecnologia dos Estados Unidos].

O Nature Publishing Group, que publica a revista Nature, ajudou a lançar a pesquisa, bem como a empresa BioRAFT, que fornece softwares para conformidade em segurança e recebe investimentos da Digital Science, uma empresa-irmã do Nature Publishing Group. O Centro de Segurança Laboratorial da UCLA planeja analisar os dados mais de perto ainda este ano, mas compartilhou resultados iniciais com a Nature.

Parte e parcela

Alguns dos participantes anônimos da pesquisa – que eram principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, mas também da Europa, China e Japão – sentiam que quaisquer ferimentos recebidos eram apenas parte do trabalho.

“Fui arranhado por um macaco”, escreveu um cientista. “Isso acontece nessa linha de trabalho, não importa o quanto você seja cuidadoso”. Outro foi mordido enquanto extraía veneno de cascáveis; um terceiro relatou ter recebido um jato de ácido sulfúrico no rosto e nas mãos, o que o levou a tratamentos dermatológicos que custaram US$3mil.

Os ferimentos mais comuns eram pequenos – cortes, lacerações e agulhadas – mas 30% dos participantes disseram ter testemunhado pelo menos um “grande” ferimento em laboratório, algo que requeria a atenção de um profissional médico. Mais de um quarto dos pesquisadores júnior disseram ter tido ferimentos que não relataram a seus supervisores.

Mas a esmagadora maioria dos participantes afirmou que seus laboratórios eram locais seguros para trabalhar, que eles tinham recebido treinamento de segurança suficiente para minimizar ferimentos, e que medidas de segurança apropriadas tinham sido tomadas para proteger empregados. Esse nível de conforto é semelhante ao encontrado em outras pesquisas menores, observa Ralph Stuart, secretário da divisão de saúde e segurança da American Chemical Society (que conduziu suas próprias pesquisas sobre o assunto).

Mas questões mais específicas da pesquisa revelam que padrões de segurança frequentemente não são seguidos.

Apenas 60% disseram ter recebido treinamento de segurança sobre riscos ou agentes específicos com que trabalhavam, e cerca de metade concordou que a segurança laboratorial poderia ser melhorada, com químicos (60%) tendo a maior tendência a sentir isso, e neurocientistas (30%) uma tendência significativamente menor. 

Velho versus jovem

Um dos maiores abismos encontrados pela pesquisa diz respeito às diferenças entre atitudes de segurança das pessoas em posição júnior (como pós-doutorandos e estudantes de doutorado) e aqueles em posição sênior (como professores, chefes de departamento e principais pesquisadores).

Cerca de 40% dos cientistas juniores disseram que pessoas trabalhavam sozinhas em seus laboratórios todos os dias – aumentando o risco à saúde em caso de acidente – se comparados a apenas 26% dos participantes sênior (veja o gráfico 2), aumentando a possibilidade de que supervisores nem sempre estão cientes da cultura de segurança em seu próprio grupo.

Em geral, cerca de dois terços dos pesquisadores afirmaram que pessoas trabalhavam sozinhas em seu laboratório várias vezes por semana. Apenas 12% dos cientistas jovens disseram que a segurança era “suprema, com precedência sobre todas as outras prioridades do laboratório”, se comparados a 36% dos cientistas sênior.

Pesquisadores mais jovens podem ter uma visão mais clara de práticas de segurança: pesquisadores júnior trabalhavam mais horas na bancada que seus chefes. Mais da metade dos juniores trabalhava mais de 40 horas semanais, comparados a apenas um quinto dos seniores, com quase 150 pessoas em geral relatando mais de 60 horas semanais.

Outra descoberta – que não é surpresa para especialistas em saúde e segurança – foi a diferença em como cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido avaliam riscos antes de iniciar um experimento que é, em parte, consequência das diferenças em exigências legais.

Quase dois terços dos cientistas britânicos disseram usar o formulário de avaliação de risco aprovado por suas organizações – que é exigido pela Executiva de Saúde e Segurança da nação – se comparados a apenas um quarto dos americanos. Mais da metade dos cientistas dos Estados Unidos, em vez disso, disse avaliar o risco “informalmente”. 

As maiores barreiras para melhorar a segurança no laboratório eram “tempo e pressa” e “apatia”, declararam cientistas. “Se eu pudesse ter escolhido ‘apatia’ três vezes, eu teria escolhido”, escreveu um cientista.

Esses fatores foram acompanhados de perto pela falta de compreensão de exigências de segurança, falta de liderança e um foco em exigências em vez de segurança.

“Observância não é segurança. Mais burocracia não significa um laboratório mais seguro; no mínimo só torna o lugar menos seguro”, escreveu um pesquisador.

Outro reclamou: “O treinamento de segurança é muito obviamente [sic] voltado a instituir obediência cega para evitar culpabilidade. Ele não está voltado a ensinar trabalhadores de laboratório sobre o porquê de cada medida de segurança estar ali”.

Esses sentimentos podem explicar as atitudes mistas de pesquisadores em relação ao valor do treinamento de segurança, inspeções e regras de segurança.

Dois terços dos participantes da pesquisa acreditavam que inspeções de laboratório melhoravam a segurança, e cientistas seniores tinham maior tendência a concordar com isso que juniores.

Dois quintos, no entanto, sentiram que o treinamento de segurança “se concentrava em treinar a obediência a regulamentos em vez de melhorar a segurança do laboratório”, ainda que 32% discordassem.

Além disso, quase um quinto dos pesquisadores disse que regras de segurança laboratorial tinham impactos negativos sobre a produtividade de seu laboratório.

“Esses participantes estão errados, e esse é o reflexo de um mito urbano [sobre o valor dos procedimentos de segurança] – isso é altamente frustrante”, comenta Neal Langerman, que dirige a empresa de consultoria Advanced Chemical Safety, com sede em San Diego, na Califórnia.

Alguns especialistas em saúde e segurança acreditam que a pesquisa – que envolvia quase 100 perguntas – era muito vasta e sem foco para obter conclusões definitivas. Eles também criticaram a técnica de amostragem não-randomizada: a pesquisa foi enviada por email a cientistas que tinham se registrado na nature.com, e a líderes de pesquisa, que eram encorajados a passá-la aos cientistas de seu laboratório.

Especialistas reconheceram, contudo, que esse foi um ponto de partida útil e necessário para mais investigações.

“Essa pesquisa é um estudo inicial que deixa mais perguntas que respostas, mas uma pesquisa de percepção deve mesmo levantar questões que precisam ser observadas”, declarou Lou DiBerardinis, diretor de saúde e segurança do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge.

DiBerardinis está em uma das quatro equipes que receberam financiamento inicial do Centro para Segurança Laboratorial em 2012 para estudar segurança. Ele está trabalhando em um projeto conduzido pela antropóloga do MIT, Susan Silbey, para acompanhar mudanças em culturas de segurança monitorando registros de inspeção durante sete anos.

Zolandz aponta que neste ano a National Academies Board on Chemical Sciences and Technology se juntará a cientistas comportamentais para desenvolver guias práticos para pesquisadores sobre como estabelecer uma melhor cultura de segurança. Nos vários esforços que se seguiram à morte de Sangji, “essa a peça que falta no quebra-cabeça”, compara ela. “Como você faz pessoas aceitarem segurança?”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 2 de janeiro de 2013.

 
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