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Os novos dados climáticos: e daí?

A esperança é que informações mais detalhadas levem à adoção de medidas radicais

Gráfico cortesia do Painel Intergovernamental sobre Mudanças climáticas
Mudança média global do nível dos mares
Por Mark Fischetti

Depois de muita expectativa e após dois anos de deliberações, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) apresentou, no dia 27 de setembro, sua nova avaliação das mudanças climáticas. Em resumo: as temperaturas globais e os níveis oceânicos subirão mais rápido que se acreditava. Em uma longa coletiva de imprensa após a divulgação do relatório “Mudanças Climáticas 2013: A Base da Ciência Física”, climatólogos americanos explicaram o que os novos dados significam para os Estados Unidos e o mundo. A seguir, os fatos que enfatizaram e os comentários que teceram sobre esses resultados para a política e para o planeta.

Temperatura. Se o mundo reduzir drasticamente suas emissões de CO2, a temperatura média global da superfície terrestre até 2100 poderia ser mantida abaixo de um aumento de 2ºC (em comparação ao período de1986 a 2005), considerado o limite além do qual haverá consequências graves. Se, no entanto, as nações mantiverem seu curso atual, a temperatura pode aumentar até 4,8ºC. “Temos uma escolha”, declarou Gerald Meehl, cientista sênior do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica e um dos principais autores do documento do IPCC, durante a entrevista. “Podemos optar por mitigar, o que nos manterá na curva inferior. Se não fizermos nada, acabaremos na curva superior”. Mesmo um aumento de 3ºC “terá sérios impactos na agricultura e nos recursos hídricos — transtornos consideráveis para sistemas que são tão importantes para o bem-estar humano”, advertiu Meehl.

Nível dos mares. Nesses dois cenários, os níveis oceânicos subiriam no mínimo0,26 metro e, no máximo0,98 metro. De1993 a 2010 o nível do mar subiu3,2 milímetros por ano, mais que a última estimativa do IPCC, feita em 2007. O painel também previu que se nada mudar nesses cenários, o aumento do nível do mar saltaria para entre8 mm e 16 mm/ano até 2100. Essas estimativas são as mudanças mais dramáticas em relação a 2007.

Temperatura e índice pluviométrico nos Estados Unidos. A partir de agora e estendendo-se para o futuro haverá menos dias frios e mais dias extremamente quentes em todo o país. Os invernos serão mais quentes. As chuvas excepcionais aumentarão e o índice pluviométrico geral subirá na metade setentrional dos Estados Unidos. Em anos anteriores, o IPCC julgou que a precipitação no sudoeste diminuiria, mas agora concluiu que ela poderá ficar mais ou menos estável. No entanto, como o aumento das temperaturas significa mais evaporação e como cairá menos neve nas altitudes elevadas, o efeito em termos práticos será menos água na região.

Furacões atlânticos. Cientistas vêm dizendo há algum tempo que os furacões sobre o oceano Atlântico aumentarão em intensidade, mas não necessariamente em número, embora uma pesquisa muito recente, que o IPCC desconsiderou, indique que o número também poderá aumentar. Independente disso, qualquer aumento de intensidade não será impulsionado por temperaturas globais gerais, mas pelo aumento da temperatura da água em certas regiões oceânicas. O IPCC afirma que são precisos mais estudos para identificar esses pontos quentes. Isso poderia aprimorar a previsão meteorológica se tempestades tropicais cruzassem essas áreas.

Gelo marinho ártico. “A cobertura mínima de gelo no verão”, ou seja, a quantidade de gelo que permanece sobre a água no auge do calor do verão, diminuiu entre 9% e 14% em cada uma das últimas três décadas. Até 2100 o mínimo poderia encolher para algo entre 43% e 94% do que é atualmente. Isso significa que poderíamos ver um Ártico sem gelo no verão daquele ano.

“O hiato”. Nos últimos meses, céticos e contestadores das mudanças climáticas vem alegando que o aquecimento global acabou, porque o aumento das temperaturas atmosféricas diminuiu de 1998 a 2012. Essa chamada pausa ou hiato significa apenas que o índice de aumento perdeu ímpeto. As temperaturas continuam subindo. O IPCC confirmou o que outros cientistas têm afirmado: que uma década de condições climáticas extremas no Pacífico tropical fez com que mais calor fosse armazenado no oceano, ajudando a reduzir o ritmo do aumento de calor na atmosfera. Além disso, os autores do relatório mantêm que esse tipo de fenômeno é uma parte comum da variabilidade natural nos padrões oceânicos e atmosféricos globais. Esses padrões, nos quais as chamadas correntesLa Niña predominam mais que as condições do El Niño, ocorrem com certa regularidade ao longo do tempo. O período mais recente terminou na década de 70. Em breve o fenômeno acabará novamente. Ainda assim, mesmo durante esse período, as temperaturas globais continuaram a subir. A década de 2000-2010 foi a mais quente já registrada.

Política. Os líderes mundiais estão mais propensos a agir mediante a notícia de que as mudanças climáticas vão piorar? “Em 1990, o IPCC já divulgou evidências convincentes”, afirmou Meehl. “De lá para cá pensei que os formuladores de políticas fossem tomar mais medidas para lidar com esse problema. A esperança agora é que com mais informações, e informações mais detalhadas, essas pessoas pensem que chegou a hora de fazer alguma coisa com os novos dados”. Tad Pfeffer, da University of Colorado, também advertiu os políticos e o público a não interpretar mal as previsões. “É importante entender o que realmente constitui uma ameaça”, disse Pfeffer, outro coautor do relatório do IPCC. “Uma elevação de meio metro no nível do mar será muito perturbador, mas as pessoas poderão ignorá-la porque ela não é o cenário mais dramático. As previsões menores tendem a ser ignoradas”. E isso, acrescentou Pfeffer, seria um erro que custaria muito caro.

Sobre o autor: Mark Fischetti é editor sênior da Scientific American, que cobre questões de energia, meio ambiente e sustentabilidade. Siga-o no Twitter @markfischetti.

As opiniões expressas são as do autor e não necessariamente as da Scientific American.