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Paradoxo da Panspermia

Quais são os limites para a vida? 

Caleb Scharf
©shutterstock
A transferência de seres vivos viáveis entre planetas ou até entre sistemas estelares – chamada de panspermia - parece estar recebendo um pouco mais de atenção ultimamente. Só precisamos abrir a edição da revista Time da semana passada e lá está ela, no ótimo texto "Aliens Among Us" ("Alienígenas Entre Nós") escrito por Jeffrey Kluger. 

Não há dúvidas de que o material das superfícies planetárias é continuamente trocado entre planetas rochosos e luas de nosso sistema solar. Ejetados por impactos de alta energia de cometas ou asteroides, pedaços de coisas seguem diferentes trajetórias orbitais. Seguindo essas trajetórias, podem retornar à origem ou atingir a superfície de outros mundos.

Evidências cada vez mais numerosas sugerem que vários organismos (normalmente microbianos) poderiam ser transportados por grandes distâncias pois são capazes de suportar extremos de pressão e de aceleração e sobreviver por milhares de milhões de anos no espaço interplanetário. Eles não precisam fazer isso em estase: se bem escondidos dentro de interstícios de rocha e gelo, não é inconcebível que micróbios possam ser passageiros no equivalente natural das naves geracionais da ficção científica.

Isso significa que existe uma possibilidade real de um planeta ou lua contaminar ou semear a vida em um outro planeta ou lua. E eu já escrevi sobre isso antes, no contexto da vida em Marte (veja ‘We Are The Aliens’, http://migre.me/bci14, em inglês).

Entusiastas da panspermia acreditam que ela foi a responsável pela dispersão da vida por toda a galáxia. Por panspermia, a vida, entendida como um fenômeno raro, se espalhou pelas estrelas.

A razão para propor esse tipo de panspermia cósmica é antiga. Ela vem de uma época em que sentíamos que a origem da vida na Terra era um mistério tão grande, e um evento tão improvável, que era conveniente atribuí-la a uma fonte externa. Apesar de não resolver de fato a questão da origem da vida, isso significa que "a origem" propriamente dita poderia ser extremamente rara entre os 200 bilhões de corpos celestes da Via Láctea.

Ultimamente, nossas descobertas sobre a incrível abundância e diversidade da chamada química pré-biótica (as coisas que representam todos os blocos construtores da bioquímica) em cada canto e recanto de nosso sistema solar, e até em nebulosas proto-estelares de outras estrelas, e nos confins do espaço interestelar, trazem o pêndulo de volta à Terra. A Natureza produz todas os componentes da vida, fato que favorece a probabilidade de biogênese local.

Isso não significa, porém, que a panspermia galáctica e interestelar é irrelevante. Ela pode estar acontecendo. Isso me leva ao paradoxo do título. Há um fator na panspermia de grande escala que raramente é considerado: a seleção natural. Você e eu, ou coelhinhos fofinhos e narcisos, somos todos candidatos improváveis à transferência interplanetária ou interestelar. A sequência de eventos previstos para a panspermia destruiria a todos, exceto os organismos extremamente resistentes e perfeitamente aptos a enfrentar condições extremas.

Vamos, então, supor que a panspermia galáctica realmente venha ocorrendo nos últimos 10 bilhões de anos, mais ou menos – o que ganhamos com isso?

Apesar de envolver uma complexa rede de fatores, parece mais provável que a vida que procede a dispersão cósmica seja restrita a seres super-resistentes, formadoras de esporos, resistentes à radiação, capazes de se alimentar de compostos de químicos simples, e de vida longa, mas prolíficas. Pode não existir vantagem em um pool genético particularmente diverso. Bilhões de anos de transferência galáctica reduziriam tudo a micróbios menos delicados e sem frescuras – super eficientes, super persistentes e onipresentes. Os mandachuvas galácticos. 

Podemos, no entanto, argumentar que há organismos na Terra que se enquandram na descrição e poderiam representar os descendentes mais diretos desses intrusos ancestrais. Organismos quimioautotrofos – [capazes de usar compostos químicos simples como alimento]  – são abundantes, e nosso conhecimento sobre eles ainda é muito limitado.

Mas  se a panspermia galáctica é real, os organismos selecionados seriam capazes de viver em praticamente todo lugar. Aqui está o possível paradoxo: deveria haver formas vivas na Lua, em Marte, Europa, Ganimedes, Titã e Encélado, e até em planetas menores com núcleos de cometa. Cada canto e recanto gelado de nosso sistema solar deveria ser um verdadeiro paraíso para essas formas de vida ultrarresistentes, moldadas pela seleção natural para tirar o máximo de condições extremamente inóspitas. Se a panspermia galáctica existe, por que ainda não a detectamos? 

Existem diversas razões plausíveis. A mais simples é que nós ainda não conseguimos observar todos esses lugares em detalhe. Também é possível que nós ainda não tenhamos somado dois mais dois enquanto estudamos as propriedades dos organismos extremófilos da Terra.

Suponha que mesmo a nossa busca obstinada não encontre nada – o que seria um forte argumento contra a possibilidade de qualquer panspermia galáctica. A conclusão seria interessante, porque também serviria para nos ajudar a reconhecer as fronteiras para a vida, os verdadeiros extremos que não podem ser ultrapassados, as condições físicas e químicas limite.

Talvez a causa primeira acabe sendo a dinâmica gravitacional (a transferência interestelar pode ser terrívelmente ineficiente), ou apenas os limites ambientais da bioquímica e das máquinas moleculares que são o centro disso tudo. Em qualquer caso, um resultado nulo pode acabar por nos dizer algo de importância fundamental sobre os fenômenos da vida, e sobre nossa própria importância cósmica. 
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