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Papa Francisco alerta para riscos climáticos

A encíclica Laudato Si’ apoia a ciência e adverte para o aquecimento global resultante de ações humanas e suas graves implicações

Korean Culture and Information Service (Jeon Han)/Wikimedia Commons
Scott Detrow e ClimateWire

 

Em um documento histórico endereçado a “todas as pessoas que vivem neste planeta”, o papa Francisco adverte que mudanças climáticas e outras formas de degradação ambiental atingiram um ponto crítico.

Francisco estrutura “Laudato Si’” (“Louvado seja”), a primeira encíclica papal dedicada exclusivamente a questões ecológicas, como um “apelo urgente... para um novo diálogo sobre como estamos moldando o futuro de nosso planeta”.

Encíclicas estão entre as formas mais elevadas de ensinamentos católicos que um pontífice pode publicar.

“Um consenso científico muito sólido indica que presentemente estamos testemunhando um perturbador aquecimento do sistema climático”, escreve Francisco, atribuindo a maior parte da responsabilidade pelo aumento das temperaturas às emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo homem.

“A mudança climática é um problema global com graves implicações: ambientais, sociais, econômicas, políticas e para a distribuição de bens/mercadorias. Ela representa um dos principais desafios enfrentados pela humanidade em nossos dias. Seu pior impacto provavelmente será sentido por países em desenvolvimento nas próximas décadas”, analisa Francisco.

O papa argumenta que os pobres do mundo são mais propensos a viver em áreas ambientalmente vulneráveis, dependem de recursos naturais para suas rendas e não têm os recursos para “se adaptar à mudança climática ou enfrentar desastres naturais, e seu acesso a serviços sociais e proteção é muito limitado”.

“Há uma necessidade urgente de desenvolver políticas para que, nos próximos anos, a emissão de dióxido de carbono e outros gases altamente poluentes possa ser drasticamente reduzida”, salienta Francisco.

“Tecnologia baseada na utilização de combustíveis fósseis altamente poluentes, especialmente carvão, mas também petróleo e, em menor grau, gás, precisa ser progressivamente substituída sem demora”.

O documento vem sendo esperado há meses e já atraiu muito mais atenção da mídia do que encíclicas normalmente fazem.

O porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, disse a jornalistas na quinta-feira não ter visto tanta expectativa em relação a um documento oficial da Igreja em 25 anos.

Em poucos minutos após a divulgação da encíclica, grupos de interesse de todo o mundo estavam incorporando seu conteúdo a suas mensagens.

Reconhecendo a ampla atração da encíclica, Francisco frequentemente se dirige a leitores de outras religiões e, a certa altura, até se dá ao trabalho de explicar por que está mergulhando em argumentos teológicos.

O papa encerra o documento com duas orações diferentes: uma para cristãos e outra para “todos os que creem em um Deus”. E, em um acontecimento inédito para o Vaticano, uma alta autoridade da Igreja Ortodoxa Oriental participou da apresentação oficial da encíclica.

Ataques a uma “cultura descartável” e “demasiados” interesses especiais

A ideia de uma “ecologia integral”, uma interconectividade entre humanidade, criação e Deus, está no cerne do documento.

Francisco adverte: “A Terra, nosso lar, está começando a parecer mais e mais um imenso monte de sujeira” e atribui a culpa por isso a “uma cultura descartável” que valoriza excessivamente o lucro e o consumo .

O que está despertando mais atenção, porém, é a decisão do papa de mergulhar em política internacional.

Escrevendo em uma época em que as Nações Unidas estão trabalhando para finalizar um novo tratado internacional sobre o clima, Francisco critica negociações anteriores como tendo sido fracas e ineficazes.

“Não temos uma liderança capaz de enveredar por novos caminhos e atender às necessidades do presente com preocupação por todos e sem preconceitos em relação às gerações vindouras”, escreve ele.

“Há demasiados interesses especiais, e interesses econômicos facilmente acabam suplantando o bem comum e manipulando informações para que seus próprios planos não sejam afetados”.

A encíclica argumenta que nações mais ricas têm uma responsabilidade de arcar com a maior parte dos custos à medida que o mundo transita para uma pegada de carbono menor.

“Reduzir gases de efeito estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade, sobretudo por parte daqueles países que são mais poderosos e poluidores”, afirma o documento.

Enquanto a encíclica vem gerando interesse mundial há mais de seis meses, Francisco não é o primeiro papa a manifestar preocupações sobre a mudança climática 

Em 1990, o papa São João Paulo II advertiu: “o ‘efeito estufa’ agora atingiu proporções de crise, como uma consequência do crescimento industrial”.

O papa Bento XVI, que, como João Paulo II, foi considerado muito conservador, escreveu em uma abrangente encíclica de 2009 que “sociedades tecnologicamente avançadas podem e precisam diminuir seus consumos de energia domésticos”.

Bento XVI então prosseguiu para encorajar a “pesquisa de formas alternativas de energia”, e deu sequência a isso ao mandar instalar uma mistura de painéis solares e adotar medidas de compensação de carbono para fazer do Vaticano o primeiro Estado neutro em carbono do mundo (Consulte ClimateWire, 7 de janeiro, em inglês).

Dois fatores tornam a nova encíclica inédita.

O primeiro é a atenção e o capital político que Francisco está dedicando à mensagem ambiental.

O Vaticano realizou uma série de conferências antecipatórias sobre o teor da mensagem do documento. E Francisco fez questão de manifestar preocupações sobre como a mudança climática coloca em perigo os pobres do mundo durante sua visita às Filipinas em janeiro deste ano.

“É o homem que dá continuamente um tapa na natureza”, declarou ele a repórteres durante a viagem (ClimateWire, 30 de janeiro, requer nome de usuário e senha para acessar).

Laudato Si’” é a primeira encíclica dedicada inteiramente a questões ecológicas, o que reforça ainda mais a importância que Francisco conferiu à mensagem.

Um apelo para que as pessoas “se elevem acima de si mesmas”

A segunda diferença notável é como, durante seus dois anos de pontificado, Francisco disparou para a fama global e popularidade.

Ele é coberto pela mídia de um jeito que Bento XVI nunca foi, e seu foco em questões politicamente “liberais” como pobreza e, agora, o meio ambiente, deu a Francisco uma plataforma bem além do Catolicismo.

De fato, recentes dados do Centro Pew de Religião mostram que Francisco desfruta de um índice de aprovação de 68% entre americanos sem filiação religiosa; 90% dos católicos americanos veem o papa favoravelmente, o que rivaliza os mais altos índices recebidos por João Paulo II, que acabou sendo colocado na chamada “via rápida ou expressa” para a santificação.

Ainda assim, Francisco pode prejudicar um pouco essa popularidade à medida que se desvia para uma área política que, por mais que grande parte de sua encíclica insista no contrário, é percebida como fora da tradicional “casa do leme” da Igreja Católica.

“Acredito que religião deveria ser sobre como nos tornar melhores como pessoas e menos sobre coisas que acabam entrando no domínio político”, opinou Jeb Bush, ex-governador da Flórida (R), no início da semana. (Bush, católico que está concorrendo à presidência dos Estados Unidos, acrescentou que considera Francisco “um líder extraordinário”.)

Os mesmos dados do centro Pew indicam que muitos católicos parecem concordar.

Enquanto 79% dos católicos americanos entrevistados responderam que Francisco está realizando um “bom” ou “excelente” trabalho ao abordar as necessidades dos pobres, apenas 53% lhe deram “notas” similares por tratar de questões ambientais.

Muitos grupos conservadores já estão criticando a encíclica, argumentando que restringir o uso de fontes de energia baratas e abundantes exacerbaria a pobreza global que preocupa Francisco.

“Ao prolongar e até disseminar a pobreza, essas políticas colocariam uma percela maior do meio ambiente natural em risco”, argumentou Calvin Beisner, fundador da Aliança Cornwall para Administração da Criação.

“Riqueza permite que pessoas paguem por uma melhor administração ambiental melhor. O papa Francisco deveria promover, ou defender o desenvolvimento econômico como uma solução tanto para a pobreza como para a degradação ambiental”.

Mas Francisco deixou claro que continuará a pressionar líderes mundiais para que aceitem e adotem uma pegada de carbono menor.

O papa estabeleceu um objetivo ambicioso para sua encíclica, ao afirmar esperar que ela possa influenciar as negociações climáticas da ONU para um acordo previsto a ser concluído em Paris, em dezembro próximo.

“A reunião no Peru não foi tão grande coisa; ela me decepcionou, e ali houve uma falta de coragem”, declarou Francisco em janeiro. “Eles [os negociadores] pararam em determinado ponto. Então, esperemos que em Paris eles sejam mais corajosos e que os representantes possam seguir em frente com isso”.

A chefe para assuntos climáticos da ONU Christiana Figueres saudou a encíclica nesta quinta-feira.

“A encíclica do papa Francisco ressalta o imperativo moral para uma ação urgente sobre mudança climática para dar alento às populações mais vulneráveis do planeta, proteger o desenvolvimento e estimular um crescimento responsável”, observou ela em um comunicado.

“Esse toque de clarim deveria conduzir o mundo rumo a um acordo climático universal forte e durável em Paris no final deste ano”.

Embora grande parte do documento historicamente decisivo de Francisco seja sombria, ele termina em uma nota cheia de esperança.

“Nem tudo está perdido”, escreve o pontífice. “Humanos, apesar de serem capazes do pior, também são capazes de se transcender, voltando a optar por aquilo que é bom, e recomeçando novamente, apesar de seus condicionamentos mental e social”.

Reproduzido de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net, 202-628-6500

Publicado em Scientific American em 18 de junho de 2015.