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Efeitos de estresse em células-tronco desabonados

A revista Nature tira os artigos de circulação e promete redobrar o rigor na avaliação de artigos

 

Por David Cyranoski e revista Nature

A revista Nature retirou de circulação em 3 de julho dois artigos polêmicos sobre células-tronco publicados em janeiro. A decisão, aceita por todos os coautores, ocorreu no final de um agitado período de cinco meses durante o qual foram identificados vários erros nas publicações: tentativas de replicar os experimentos falharam; a principal autora foi considerada culpada de conduta imprópria; e o centro em que está empregada foi ameaçado de ser desmantelado.

A nota de retirada inclui diversos problemas com documentos que não haviam sido previamente considerados por equipes investigativas institucionais.

Até agora permanecem dúvidas sobre o que, exatamente, foi a base para as alegações de que células-tronco, similares a embrionárias, podiam ser criadas ao expor células corporais ao estresse, uma tecnologia que os autores chamaram aquisição de pluripotência induzida por estímulos (stimulus-triggered acquisition of pluripotency, STAP, na sigla em inglês).

A controvérsia promete ter um impacto de longa duração na ciência no Japão, na pesquisa global com células-tronco, e na comunidade científica mais ampla; incluindo mudanças de política editorial na própria Nature.

Um editorial sobre as retiradas, postado em 3 de julho, ressalta a necessidade de melhorias nos procedimentos de publicação: “O episódio enfatizou ainda mais falhas nos procedimentos da Nature e nos procedimentos de instituições que publicam conosco”. (A equipe de repórteres e comentaristas da Nature é editorialmente independente de sua equipe de pesquisa editorial. 

O primeiro dos dois artigos polêmicos descrevia um método que utilizava exposição a ácido ou pressão física para converter células de baço de camundongos recém-nascidos em células pluripotentes, capazes de se transformar em qualquer célula do corpo.

O segundo artigo impressionou cientistas de células-tronco ainda mais com dados que mostravam que o processo STAP criava células capazes de se diferenciar em células placentárias, algo que outras células-tronco pluripotentes, como células-tronco embrionárias e células-tronco pluripotentes induzidas, normalmente não fazem. 

No entanto, em poucas semanas foram descobertas imagens duplicadas e manipuladas, concentrando a atenção na fonte dos dados fornecidos por Haruko Obokata, bioquímica do Centro RIKEN de Biologia do Desenvolvimento (CDB, na sigla em inglês), em Kobe, no Japão, e principal autora dos dois artigos. Cientistas também relataram dificuldades em replicar os experimentos.

Em 1 de abril, a equipe de investigação do Centro RIKEN que analisou os documentos anunciou que Obokata havia sido considerada culpada de duas acusações de má conduta científica. O Centro RIKEN rejeitou uma apelação e aconselhou a cientista a retirar os artigos de circulaçãoem maio.

O coautor do trabalho, Teruhiko Wakayama, da Universidade de Yamanishi, vinha defendendo essa medida desde março.

Tanto Obokata, como Charles Vacanti, anestesista no Brigham and Women’s Hospital em Boston, Massachusetts, e autor sênior correspondente no primeiro artigo, reiteraram suas alegações, mas posteriormente mudaram suas posições depois que surgiram novos erros. Obokata deu seu consentimento para a retirada dos dois artigos em 4 de junho.

O aviso de exclusão publicado em 3 de julho lista cinco novos erros. Os quatro primeiros salientam que as legendas não descrevem o que está nas imagens ou nos dados correspondentes e não refletem como isso se relaciona com os dados experimentais.

O quinto erro, referente ao primeiro artigo, observa que as supostas células STAP são de origem genética diferente daquelas que supostamente foram utilizadas nos experimentos — algo que o desabono chama “discrepâncias inexplicáveis”.

A nota conclui: “Esses múltiplos erros prejudicam a credibilidade do estudo como um todo e somos incapazes de afirmar, sem sombra de dúvida, se o fenômeno STAP-SC  é real”.

Austin Smith, um biólogo de células-tronco da University of Cambridge, no Reino Unido, também retirou um artigo postado em News & Views (Notícias & Opiniões) e publicado juntamente com os dois artigos STAP. 

Obokata e Vacanti continuam insistindo que o fenômeno é real. Em um comunicado postado em seu website, Vacanti diz ter concordado com a retirada do artigo “embora não tenha havido nenhuma informação que lançasse dúvidas sobre a existência do fenômeno [STAP] em si”.

Para muitos observadores, a retirada dos artigos confirmou dúvidas que eles tinham desde o início. Alan Trounson, ex-diretor do Instituto para Medicina Regenerativa da Califórnia em São Francisco, argumenta que há muitos lugares ácidos no corpo, nos quais cientistas não encontram células pluripotentes. “Não faz sentido que as células responderiam dessa forma; caso contrário, teríamos um monte de problemas”. Células pluripotentes seriam, por exemplo, um potencial risco de câncer.

Outros pesquisadores ainda não estão prontos para encerrar completamente o capítulo da indução de estresse. Qi Zhou, um pesquisador de clonagem no Instituto de Zoologia, em Pequim, na China, observa que o estímulo externo, seja ele químico ou físico, talvez seja capaz de mudar o status de células, mas salienta que a possibilidade do tipo de pluripotência plena observada em células-tronco embrionárias é bastante improvável com um método ácido tão simples ou outro fator isolado. “Espero que isso possa ser alcançado algum dia”, concluiu.

Davor Solter, um biólogo de desenvolvimento no Instituto de Biologia Médica, em Cingapura, argumenta: “É concebível que esse tipo de maus tratos de células possa resultar em reprogramação, embora eu duvide que essas células reprogramadas possam ser detectadas facilmente”. Os artigos STAP certamente não o convenceram. “Células como as descritas nesses artigos se comportaram de uma forma (se a descrição foi correta e não inventada) que é difícil de entender e impossível de verificar de forma independente”.

Obokata está ganhando uma oportunidade para provar que os céticos estão errados. Com a medida disciplinar a ser tomada pelo Centro Riken ainda indefinida, a bioquímica foi convidada a assessorar os esforços em curso de dois pesquisadores seniores do CDB, Shinichi Aizawa e Hitoshi Niwa, para replicar os experimentos. Niwa é coautor dos artigos STAP.

No dia 3 de julho, Obokata, que havia sido hospitalizada, compareceu ao trabalho pela primeira vez em meses de acordo com a mídia japonesa. Mas com as suspeitas que pairam sobre a fonte das células utilizadas no experimento original, sua credibilidade é baixa, e sua atividade no laboratório será monitorada por gravações de vídeo.

Os resultados preliminares do esforço replicação são esperados no final de julho ou em agosto.

Embora o escândalo tenha manchado a reputação dos coautores, cientistas de todo o mundo instaram o Centro RIKEN a evitar o fechamento de todo o CDB, uma opção drástica mencionada em um relatório publicado por um comitê independente em junho.

O impacto dos eventos se estende bem além de Kobe e do Japão. De acordo com Solter, esse é mais um golpe para a pesquisa com células-tronco. O episódio STAP “certamente aumentou a reputação da [pluripotência] como um campo em que resultados negativos tendem a ser publicados de forma acrítica, indiscriminada e, por conta da publicidade, processos científicos normais são suspensos”, critica Solter.

O episódio também levou a Nature a repensar sua política de revisão. O editorial que acompanha as retiradas dos artigos defende a publicação científica, afirmando que “os editores e críticos não poderiam ter detectado os erros fatais nesse trabalho”.

Ainda assim, a publicação está colocando “garantia de qualidade e profissionalismo laboratorial cada vez mais elevada em nossas agendas, para garantir que o dinheiro doado por governos não seja desperdiçado, e que a confiança dos cidadãos na ciência não seja traída”. O editorial cita um aumento planejado do número de artigos a serem minuciosamente examinados em busca de imagens manipuladas como uma medida destinada a detectar má conduta. 

Este artigo é reproduzido com permissão e foi publicado originalmente em 2 de julho de 2014.

O controvertido trabalho envolveu um embrião de camundongo injetado com células que se tornaram pluripotentes por estresse.

 

Sciam 3 de julho de 2014