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Pedestres vão derrotar os veículos autônomos

Disputar “jogo da galinha” pode ser um problema sério para carros sem motorista

Grendelkhan/Wikimedia Commons
Com mais de uma dezena de acidentes envolvendo seus automóveis sem motorista, o Google lançou em dezembro do ano passado a Waymo, sua nova empresa responsável pelos carros autônomos.
Fique em qualquer esquina ao longo da via del Babuino, em Roma, e não será difícil diferenciar os moradores dos turistas. Aqueles que carregam um guia consigo navegam por entre as vespas e Fiats com um misto de hesitação e loucura; enquanto os residentes do bairro cruzam com relativa facilidade, assertivos e calmos. E isso não acontece apenas em Roma: em cidades ao redor do mundo, pedestres locais, com uma percepção diferente de como os motoristas se comportarão, separam-se dos visitantes ocasionais. A menos que você esteja em uma estrada rural isolada, andar e dirigir são interações sociais, e somente os residentes conhecem os costumes de comportamento de sua cidade.

Contudo, uma grande mudança pode estar para acontecer. Entender a psicologia dos outros usuários da estrada - quando e se eles vão ceder - não será útil nos cálculos para atravessá-la quando o outro motorista não é uma pessoa. Carros autônomos já estão a caminho; de acordo com algumas projeções, eles poderão se tornar o padrão até 2030. Para atuar como motoristas, os carros se comportarão de forma diferente dos humanos, e muito provavelmente serão programados para evitar atropelamentos. A ideia de que as estradas se tornarão mais seguras, com menos acidentes de trânsito é uma força motriz por trás da nova tecnologia. Porém, como os pedestres rapidamente entenderão o comportamento dos carros, eles certamente também vão se adaptar. Os efeitos podem ser dramáticos: em vez de mais consistente, o fluxo do tráfego pode se tornar caótico.

Um artigo recentemente publicado no Journal of Planning Education and Research explorou como as interações entre humanos e carros autônomos poderiam mudaram as regras das ruas. O autor Adam Millard-Ball explica inicialmente o atual modelo de como os pedestres decidem o momento de atravessar a rua. Cada travessia envolve um cálculo mental: uma escolha entre atravessar o mais rápido que se puder e arriscar-se a ser atropelado versus esperar, sabe-se lá por quanto tempo, ou até mesmo escolher uma nova rota. Os motoristas também têm uma decisão a fazer, sobre dar passagem ou não. A configuração é um jogo da galinha (termo usado na área de pesquisa conhecida como teoria dos jogos, que usa modelos matemáticos para analisar interações entre pessoas) para atravessar a rua envolvendo motorista e pedestre. Enquanto intuitivamente pode parecer que os pedestres, por serem mais suscetíveis a se machucarem em uma colisão, sempre cederiam a passagem primeiro, suas ações são, na verdade, formadas por normas sociais. Motoristas costumam ceder quando impedidos por trânsito pesado ou, por exemplo, turistas imprevisíveis. Mas se a norma local é que os pedestres sempre esperam, o risco de atravessar a rua é maior, por isso esperar faz ainda mais sentido.

Em um jogo de galinha para atravessar a rua com um carro autônomo, as coisas serão bem diferentes. Diferentemente de pessoas, carros vão agir de forma previsível; não terão a tentação de dar uma olhada no celular, a necessidade de separar uma briga entre crianças ou tentativas de guiar um volante e comer um hambúrguer ao mesmo tempo. Além disso, é quase certo que os carros serão programados para evitar atropelar pessoas. Costumes locais serão irrelevantes; os pedestres estarão contra carros que cedem exclusivamente por respeito à lei - não importa a esquina ou o quarteirão, pedestres se darão melhor psicologicamente. Com a plena confiança de que os carros irão ceder, eles podem ser encorajados a atravessar até mesmo em situações nas quais não têm o direito de passagem. Humanos terão a liberdade de tirar vantagem dos carros.

Millard-Ball esboça três possibilidades de como as novas interações humano-carro vão alterar as estradas no futuro, começando pela supremacia do pedestre. Nesse cenário, se você precisar chegar a algum lugar no centro da cidade, provavelmente irá a pé. Seu carro pode deixá-lo nos arredores, mas será efetivamente freado nas áreas urbanas, já que a impunidade dos pedestres para atravessar as ruas quando lhes for conveniente poderia travar o trânsito. A densidade de áreas urbanas continuará a aumentar à medida que a caminhada se tornar mais eficiente do que dirigir.

No resultado da resposta regulatória, os pedestres ainda pensarão duas vezes ao atravessar a rua, mas ao invés de focar no risco de serem atropelados por um carro, a possibilidade de levar uma multa de trânsito virá à mente. Tentativas dos pedestres de “reinarem” poderiam resultar em um combinação de novas regras e infraestrutura projetadas para manter pessoas e carros separados. O planejamento focado em espaços divididos entre carros e pessoas diminuirá, enquanto cercas e barreiras na estrada aumentarão. A responsabilidade por acidentes entre carro e pedestre recairia primordialmente sobre os pedestres, que (agora) estariam infringindo a lei, e não sobre os fabricantes de automóveis, limitando ainda mais seu comportamento

Finalmente, num cenário com um humano a bordo do veículo, o tempo de deslocamento mais longo em decorrência do uso de um carro autônomo não seria compensado pelos benefícios de usá-lo como passageiro. A liberdade de checar seu e-mail, fazer uma chamada em uma reunião de negócios ou assistir à Netflix na viagem até o trabalho simplesmente não compensariam o tempo extra para se chegar lá. Na verdade, manter a vantagem no jogo da galinha vai substituir a conveniência de ser conduzido. Entretanto, projetos feitos para pedestres só fazem sentido se a maioria dos veículos se dirigissem sozinhos. Em última análise, a maneira como bairros evoluem para acomodar e incorporar carros autônomos dependerá de todas os fatores políticos, jurídicos e tecnológicos. Não importa qual cenário prevaleça, o transporte no futuro provavelmente será moldado pela capacidade dos seres humanos de explorar as máquinas sem motorista.

 

Karinna Hurley
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