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Pequenas distrações podem ter grandes consequências

Novo estudo revela que elas desviam nossa atenção de maneiras diferentes

SHUTTERSTOCK
Diana Kwon

Imagine que esteja dirigindo para casa do trabalho. O trânsito está intenso, mas você consegue avançar sem problemas.

Agora, visualize dois cenários: No primeiro, seu celular começa a tocar, vibrando e piscando para acusar uma chamada. No segundo, você percebe uma breve piscada em sua tela quando chega uma mensagem de texto.

Qual dos dois afetaria mais o modo como dirige?

Você pode achar que o telefonema seria a distração maior. Mas um estudo publicado em 16 de julho no periódico Current Biology sugere exatamente o contrário.

Trabalhando com 95 voluntários, os psicólogos Jeff Moher e Joo-Hyun Song da Universidade Brown, em Rhode Island, com Brian Anderson da Universidade Johns Hopkins, em Maryland, constataram que distrações sutis mudam o que estamos fazendo mais que as óbvias.

Mas elas não têm o mesmo efeito sobre o que vemos.

Distrações ocorrem em diversas formas e tamanhos — cores brilhantes, luzes intermitentes e sons altos — e quanto mais elas se destacam de seus entornos, mais provável é que captem a nossa atenção.

As pessoas reagem de maneiras diferentes a distrações.

Quando alguém considera uma coisa particularmente gratificante, como bebidas alcoólicas, tabaco ou dinheiro, por exemplo, ela pode chamar sua atenção de um jeito distinto e único.

Pesquisadores já haviam constatado anteriormente que alcoólatras são mais propensos a notar objetos diferentes em um cenário se eles estiverem associados a bebidas.

No atual estudo, os cientistas queriam verificar como diferentes graus de distração influenciam o que vemos em comparação com o que fazemos. Afinal, distrações que aparecem enquanto olhamos passivamente para uma tela de TV podem nos afetar de maneira diferente do que quando dirigimos um carro.

Para isso, eles realizaram quatro experimentos.

Nos dois primeiros, os pesquisadores criaram uma distração pequena e outra grande ao utilizarem um método de recompensas: os participantes ganhavam dois centavos quando apontavam para um círculo vermelho e 10 centavos quando indicavam um verde.

Esse exercício os “ensinou” que o círculo verde valia mais.

Depois de absorverem a associação, um grupo de voluntários realizou uma tarefa que envolvia apontar para uma forma distinta (diferente) em uma tela cheia de objetos cor de cinza.

Um segundo grupo teve de pressionar uma tecla para indicar se uma linha que aparecia em meio a várias formas diferentes era orientada horizontal ou verticalmente.

Nos dois testes o círculo verde, mais valioso, ou o vermelho, menos gratificante, aparecia em 50% das tarefas; os outros 50%, quando nada aparecia na tela, foram usados como um controle comparativo.

No exercício que envolveu a ação de apontar ocorreu uma diferença maior no movimento da mão, em direção do local do objeto distrativo, quando este estava associado à recompensa menor do que à maior.

No exercício de pressionar a tecla aconteceu o oposto: os participantes tiveram um desempenho pior com a recompensa distrativa mais forte do que com a mais fraca.

Em outras palavras: durante uma ação, o fator distrativo menor, menos importante, chamou mais a atenção, enquanto o contrário foi verdadeiro durante a tarefa que exigia apenas observar o que estava acontecendo.

Os mesmos exercícios de ação e percepção foram repetidos com mais dois grupos, porém em vez de usar recompensas como distrações, os pesquisadores empregaram cores.

Nesses ensaios todos os objetos que apareciam na tela eram vermelhos e as interferências (distrações) azuis ou cor-de-rosa.

O azul, que difere mais do vermelho que o rosa, foi uma distração maior.

Os objetos cor-de-rosa menos distrativos desviaram mais a ação de estender a mão que os azuis, mais chamativos.

Os objetos azuis, por sua vez, reduziram a precisão perceptual mais que os cor-de-rosa.

Observar os mesmos resultados tanto com o uso de recompensas como cores sugere que os efeitos podem ser generalizados em diferentes tipos de distrações.

De acordo com Tim Welsh, psicólogo experimental da Universidade de Toronto, no Canadá, não envolvido na pesquisa, os resultados poderiam mudar o modo como pesquisadores entendem o que influencia ação e atenção.

“Isso não significa necessariamente que precisamos retomar modelos antigos em que percepção, atenção e ação são processos separáveis, mas leva a essa ideia de que o modo como o sistema de ação expressa destaques (saliência) é diferente do sistema de percepção”, observa ele.

Por que há uma diferença na maneira como reagimos a distrações?

Uma resposta possível é que o cérebro tem um mecanismo de supressão que impede que fatos distrativos interrompam tarefas, por exemplo, estender a mão para o telefone ao dirigirmos.

Mas esse mecanismo só entra em ação em um determinado limiar, permitindo que distrações sutis passem pelas brechas, ou lacunas.

“Não identificamos qual é o mecanismo, mas descobrir quais são seus correlatos neurais é o nosso próximo passo”, anuncia Song.

Se esse mecanismo de supressão existir, parece que ele está presente no sistema de ação, mas não no de percepção.

Nossos cérebros podem ter evoluído desse jeito porque ações normalmente têm consequências maiores para a sobrevivência.

“Coisas que são adaptativas geralmente têm a ver com encontrar alimentos ou evitar ser alimento”, resume Moher. “Portanto, se você vê uma distração irrelevante no meio ambiente, é muito mais importante que sua ação/atenção não se desvie para ela”.

Moher sugere que a distinção entre ação e percepção se torna mais relevante à medida que transitamos de laptops para tablets, passando de uma interação indireta para outra direta com a tela.

Isso pode ser particularmente importante em atividades em que a atenção a detalhes é fundamental, como segurança de aeroporto ou radiologia.

Considere escanear uma bolsa para detectar explosivos ou procurar por um tumor em um exame médico de varredura: talvez mandar que alguém desenhe contornos ao redor de objetos suspeitos crie certa vulnerabilidade a distrações menores, enquanto escanear passivamente uma imagem talvez aumente a susceptibilidade a distrações grandes.

Levar em conta essas sutilezas pode ajudar a melhorar a precisão dessas buscas.

Embora seja importante notar ameaças imediatas em nosso ambiente, como um carro que vem em nossa direção, a maioria dos estímulos à nossa volta não é relevante para a tarefa que estamos realizando.

Nossos cérebros desenvolveram um meio para bloquear distrações, mas parece que são as sutis, que não notamos, que fazem com que nos desviemos mais de nossos objetivos.

 

Publicado em Scientific American em 16 de julho de 2015.