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Relatório censura tratamento a animais de experimentação

O Imperial College de Londres acatou as duras críticas de revisores independentes

lculig/shutterstock
Por Daniel Cressey e Nature magazine

O tratamento de animais de laboratório em uma das mais prestigiadas universidades do Reino Unido foi severamente criticado por uma revisão independente realizada na esteira de alegações de práticas inadequadas e negligência.

De acordo com o relatório divulgado em 10 de dezembro, as instalações de pesquisa do Imperial College de Londres estão funcionando com pessoal insuficiente, falta de recursos e operando sem sistemas adequados de treinamento, supervisão, gestão e revisão ética.

“Em diversas áreas ali é necessário que haja uma melhora significativa”, declarou Steve Brown, diretor da Unidade de Genética de Mamíferos do Conselho de Pesquisa Médica, em Harwell, no Reino Unido, e o homem nomeado para presidir a revisão.

A universidade aceitou todas as recomendações da revisão e afirmou em um comunicado que “existe uma margem significativa para melhorias”.

O Imperial College nomeou Brown depois de uma investigação secreta realizada pelo grupo de campanha British Union for the Abolition of Vivisection (União Britânica para a Abolição da Vivissecção), mais conhecida como BUAV, com sede em Londres.

Em abril a entidade alegou que muitos animais nas instalações da universidade eram submetidos a sofrimentos intensos. A denúncia da BUAV incluiu imagens gráficas e relatou incidentes como o de um pesquisador que deixou um grampo dentro de um animal após uma cirurgia, e animais largados em intenso desconforto físico em laboratórios por falta de pessoal durante um fim de semana.

O Home Office (equivalente a um Ministério de Administração Interna) do governo britânico ordenou uma investigação oficial dessas alegações específicas, mas o grupo de Brown foi nomeado paralelamente para examinar os cuidados dispensados aos animais e seu bem-estar em toda a universidade.

Melhoramentos necessários

O relatório faz recomendações “substanciais” para melhorias urgentes em quatro áreas principais: nas operações das instalações de Serviços Centrais Biomédicos em Hammersmith, na região oeste de Londres; treinamento; cultura, liderança e gestão; e no corpo de revisão ética da universidade.

De modo geral, os examinadores destacaram a natureza “ad hoc” (específica) da avaliação de competências, supervisão e treinamento, e demonstraram pouca disposição para compartilhar informações e melhores práticas com os funcionários das instalações. Além disso, a cultura de trabalho foi julgada falha, com foco em procedimentos em detrimento de melhorias nos chamados “três Rs”: abordagens para substituir (replacing, em inglês), reduzir e refinar a utilização de animais em experimentos.

“O comitê constatou que há um nível de complacência na faculdade, com pouca oportunidade para desafios ou a introdução de novas ideias e que havia espaço para aprimoramentos na cultura, gestão e liderança em geral”, diz o relatório.

A revisão de Brown julgou que a instalação Hammersmith do Imperial College está bem equipada e que a qualidade de criação de animais é alta. Mas ainda assim ainda há “um espaço considerável para melhorias” nas práticas de trabalho, nos padrões operacionais e nos mecanismos para relatar preocupações sobre o bem-estar dos animais. O relatório também constatou que não há pessoal suficiente nessa unidade e que a dependência de funcionários temporários é excessiva.

Por fim, o Corpo de Bem-Estar Animal e Revisão Ética, um órgão crucial da universidade, responsável por revisar o uso dos animais, foi considerado “inadequado para o propósito” e carente de uma “reforma por atacado”, diz o relatório.

Plano de ação

Em sua resposta, o Imperial College afirma que investirá em recursos humanos e traçará um plano até fevereiro de 2014 para responder ao relatório da comissão. Também informou que já intensificou o treinamento para pesquisadores que trabalham em animais.

“A instituição agora agirá rapidamente para implementar as recomendações”, afirmou um comunicado da universidade. “O comitê elogiou os elevados padrões de criação e os cuidados com os animais no Imperial. No entanto, a faculdade aceita que há uma margem significativa para melhorias nos aspectos operacionais, de gestão e de supervisão para se tornar um líder mundial em pesquisa animal”.

Sarah Kite, diretora de projetos especiais na BUAV, afirma que as conclusões do relatório são “incriminadoras” e destacam que não há inspetores suficientes no Home Office para monitorar os pesquisadores de animais do Reino Unido.

“Não deveria ter sido responsabilidade da BUAV desmascarar essas falhas”, argumenta Kite. “Se isso está acontecendo em uma das principais universidades do Reino Unido, surge a questão do que pode estar acontecendo em outras instituições do país”.

Paul Flecknell, diretor das instalações de pesquisa animal da Newcastle University, também no Reino Unido, e um dos membros da comissão por trás do relatório, salientou que a investigação visou especificamente o Imperial College, mas observou que “toda instituição vai se apegar a alguma coisa que dissemos ou pensamos, ‘devemos prestar mais atenção a isso’”.

A conclusão da investigação do Home Office dos incidentes específicos descobertos pela BUAV deveria ter sido produzida até o final do ano, mas um porta-voz disse à Nature no início de dezembro  que atualmente não há nenhuma data específica para quando ela estará disponível.

 

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado originalmente em 10 de dezembro de 2013.

sciam12dez2013