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Pesquisa sugere que altruísmo é favorecido pelo acaso

Matemáticos talvez tenham achado a resposta para a dúvida persistente sobre por que nós evoluímos para cooperar

Shutterstock

Por que nós nos sentimos bem quando fazemos doações para caridade, quando isso não traz nenhum benefício direto para nós, e nos sentimos mal quando trapaceamos? Matemáticos podem ter encontrado a resposta para a dúvida sobre por que evoluímos para cooperar.

Estudo realizado por equipe internacional de pesquisadores, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, descobriu que o altruísmo é favorecido por flutuações aleatórias na natureza, oferecendo uma explicação para o mistério de por que esse traço aparentemente desavantajoso evoluiu.

Os pesquisadores, das Universidades de Bath, Manchester e Princeton (EUA), desenvolveram um modelo matemático para prever o caminho da evolução quando “cooperadores” altruístas vivem junto com “trapaceiros” que utilizam recursos, mas não contribuem por si mesmos.

Humanos não são os únicos organismos que cooperam uns com os outros. Os cientistas usaram o exemplo da levedura de cerveja, que pode produzir uma enzima chamada invertase, responsável por quebrar açúcares complexos no ambiente, gerando assim mais alimento para todos. No entanto, as que produzem a enzima gastam energia que poderia estar sendo utilizada para a reprodução, o que significa que uma estirpe mutante “trapaceira” - que espera as outras fazerem o trabalho duro - poderia se reproduzir mais rapidamente.

A evolução darwiniana sugere que sua habilidade de reproduzir mais rapidamente permitirá com que as trapaceiras (e seus descendentes) se proliferem e, eventualmente, dominem toda a população. Esse problema é comum a todas as populações altruístas, levantando a difícil pergunta: como a cooperação evoluiu?  

O doutor Tim Rogers, da Royal Society University Research Fellow, na Universidade de Bath, diz: "Cientistas estavam intrigados por essa questão por um longo tempo. Uma teoria dominante era a de que nós agimos mais favoravelmente com nossos parentes do que estranhos, resumida pela famosa afirmação de J. S. Haldane de que ele pularia em um rio para salvar seus dois irmãos ou oito primos. O que falta é uma explicação de como esses comportamentos podem ter evoluído em organismos tão básicos quanto a levedura. Nossa pesquisa propõe uma simples respostas - acontece que a cooperação é favorecida pelo acaso.”

O insight principal é que o tamanho total da população que pode ser apoiada depende da proporção de cooperadores: mais cooperadores significa mais comida para todos e uma população maior. Se, por acaso, ocorrer um aumento aleatório no número de trapaceiros, então não haverá comida suficiente para todos e o tamanho da população diminuirá. Do mesmo modo, uma diminuição aleatória no número de trapaceiros permitirá o crescimento da população, beneficiando desproporcionalmente os cooperadores. Assim, cooperadores são favorecidos pelo acaso, e têm mais chance de ganhar em longo prazo.  

O doutor George Constable, que em breve deixará a Universidade de Princeton para se juntar à Universidade de Bath, usa uma analogia sobre lançar uma moeda, onde, caso resulte em cara, alguém ganhe 20 e, caso dê coroa, alguém perca 10:

"Ainda que as chances de ganhar ou perder sejam as mesmas, ganhar ainda é melhor do que perder é ruim. Flutuações aleatórias nos números de trapaceiros são exploradas pelos cooperadores, que se beneficiam mais do que perdem.”

 

University of Bath