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Pesquisadores buscam origem de novo surto de gripe aviária

Os mercados de aves podem ser os locais de transmissão do vírus H7H9 que causou 8 mortes até 9 de abril

Nature
Surtos humanos de H7N9: Até 9 de abril de 2013, 24 casos humanos do novo vírus H7N9 da gripe aviária foram relatados na China desde 31 de março, incluindo 8 mortes, com surtos concentrados em cidades do litoral leste. A origem do vírus permanece elusiva.
Por Declan Butler e revista Nature

Da revista Nature

Virologistas conhecem seu nome: H7H9. O que eles não sabem ainda é se esse novo vírus da gripe aviária – relatado em humanos pela primeira vez na China, há menos de duas semanas – desaparecerá rapidamente, se estabelecerá em hospedeiros animais para alimentar futuros surtos humanos, ou se transformará em um vírus que pode se espalhar facilmente entre pessoas e disparar uma pandemia mortal. 

Em um esforço frenético para encontrar respostas, cientistas estão atacando o H7H9 de todos os lados. Estão fazendo testes com pássaros selvagens e milhares de aves domésticas, analisando os vírus que encontram e tentando encontrar pessoas que foram expostas a pacientes infectados.

Autoridades sanitárias chinesas declaram ter mais de 400 laboratórios procurando mudanças genéticas no vírus.

“Vamos ficar apreensivos até o mês que vem para ver o que acontece”, declara Michael Osterholm, que dirige o Centro para Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da University of Minnesota, em Minneapolis.

Quando a Nature foi publicada, 24 casos humanos, incluind 8 mortes, tinham sido relatadas em 11 cidades, algumas a poucas centenas de quilômetros, no leste da China. Tantos casos em tão pouco tempo em uma área tão grande – a partir de apenas três casos em duas cidades há uma semana – é “uma situação muito preocupantes”, declara Osterholm. 

Cientistas querem descobrir urgentemente quais recursos estão alimentando as infecções humanas que resultam em sintomas como os da gripe e, na maioria dos casos relatados, em pneumonia severa.

Até agora, investigações dos casos permanecem amplamenta inconclusivas: alguns pacientes tiveram contato com aves domésticas ou outros animais logo antes de ficarem doentes, enquanto outros, não.

No final da semana passada, o vírus H7H9 foi encontrado em frangos, pombos e patos em mercados de aves vivas em Xangai e Hagzhou – tornando esses mercados os principais suspeitos. Desde então, autoridades selecionaram dezenas de milhares de pássaros e fecharam mercados em Xangai, Nanjing e Hangzhou. 

As sequências genéticas dos vírus H7N9 encontradas nas aves são altamente semelhantes às isoladas de pacientes humanos, explica Chao-Tan Guo, virologista da Academia de Ciências Médicas Zhejiang, em Hangzhou.

Apesar de o vírus poder ter se originado de outras fontes, incluindo mamíferos, o padrão de muitos casos humanos espalhados por uma vasta área em um curto período de tempo poderia ser explicado apenas pelos mercados para onde aves de uma ou algumas fontes poderiam ser transportadas, explica Malik Peiris, virologista da gripe da University of Hong Kong.

Mas as várias espécies de pássaros que se descobriu estarem infectadas podem não ser a fonte original, porque grande parte da infecção cruzada pode ocorrer em também em mercados. Pesquisadores agora precisam descobrir de quais fazendas e atacadistas vieram os pássaros, explica Peiris, e testar os pássaros de toda a cadeia de fornecimento.

Pesquisadores sabem que os vírus H7 da gripe infectam principalmente aves selvagens como patos, gansos, limícolas e gaivotas, e que elas ocasionalmente de juntam a bandos domésticos.

Kwok-Yung Yuen, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Hong Kong, destaca que os casos humanos relatados ficam próximos do delta do rio Yangtze, lar de muitas aves selvagens, e da Ilha Chongming perto de Xangai, um renomado local para a observação de aves migratórias. “É provável que patos selvagens e gansos estejam carregando vírus”, sugere ele.

Mas esse vírus H7H9 ainda não foi detectado em aves selvagens na área. “Há poucas informações específicas sobre a fonte dessa cepa viral específica, sua ecologia ou depósitos, e ainda é cedo para estarmos pensando em seus vetores”, observa Taej Mundkur, administrador do programa de rotas migratórias do grupo de conservação Wetlands International, na Holanda. Ele também participa do Grupo de Trabalho Ásia-Pacífico de Aves Aquáticas Migratórias e Gripe Aviária com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Depósito oculto

Onde quer que o vírus tenha se originado, uma questão crucial é se ele poderia se estabelecer em aves domésticas, criando um reservatório que pode levar a infecções esporádicas e continuadas em humanos.

Autoridades de saúde na China estão tentando descobrir até que ponto isso já aconteceu.

Ao contrário de seu primo H5N1 – que matou milhões de aves e várias centenas de pessoas na Ásia e em outros locais desde 2003 – o H7N9 não provoca doenças aviárias sérias, o que complica os esforços para controlá-lo, de acordo com Vincent Martin, diretor interino do Sistema de Prevenção de Emergência para Pragas e Doenças Transfronteiriças de Animais e Plantas (EMPRES), em Roma.

Seria quase impossível detectar o H7N9 com a fiscalização de rotina, já que a população aves domésticas chinesas passa de seis bilhões. “Isso significa que deter a transmissão de animais para humanos é impossível”, alerta Masato Tashiro, virologista do Centro de Pesquisa do Vírus Influenza em Tóquio, o centro de pesquisa e referência da Organização Mundial da Saúde no Japão.

A cada vez que o vírus encontra novos hospedeiros humanos, ele tem novas oportunidades de sofrer mutação e adquirir a capacidade de se espalhar entre pessoas. Isso ainda não parece ter acontecido, mas especialistas declaram que será crucial para idenficar e rastrear novos casos de suspeitas de pneumonia severa e seus contatos próximos, e para isolar pessoas se necessário.

Pesquisadores trabalhando na biologia molecular do vírus observam que ele parece ser derivado de uma recombinação de material genético de pelo menos três grupos conhecidos da gripe aviária. Um de seus principais componentes – a proteína hemoglutinina (H) na superfície do vírus – já contém mutações que se sabe mudar sua preferência de ligação de células de aves para células de mamíferos. Cientistas estão em busca de mudanças indicadoras que poderiam sinalizar uma mudança para uma forma que é mais transmissível entre humanos.

Como vírus da gripe evoluem rapidamente, comparar sequências virais de cada um dos casos humanos pode revelar se a transmissão entre indivíduos está ocorrendo, declara Andrew Rambaut, especialista na evolução de patógenos virais humanos da University of Edinburgh, no Reino Unido.

Se muitos pacientes tiverem sequências virais muito semelhantes, então isso implicaria a disseminação humana; se sequências virais forem mais diversas, isso implicaria que cada pessoa adquiriu a infecção de aves. Apenas quatro sequências de quatro casos humanos estão disponíveis até agora, mas virologistas estão sequenciando mais e publicando-as na base de dados GISAID.

Se a transmissão entre humanos de fato começar a ocorrer, “uma disseminação maior pode ser inevitável” alerta Tashiro.

A humanidade nunca ficou amplamente exposta aos vírus H7 ou N9, e portanto não tem resistência a esses subtipos. Se uma pandemia ocorresse, provavelmente teria um preço alto. Mas ainda é cedo demais para prever como os eventos se desdobrarão; especialistas em doenças infecciosas emergentes só estão começando a conhecer esse novo vilão.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 9 de abril de 2013.