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Pesquisadores testam velocidade de animais em campo aberto

Coleira de última geração revela rápidos reflexos e fenomenal aceleração dos guepardos selvagens

David Siu/Flickr
Guepardos conseguem caçar com sucesso em ambientes abertos e em vegetações densas.
Por Matt Kaplan e revista Nature

Quando um jovem antílope se afasta demais do rebanho, o guepardo, antes deitado sobre vegetação, salta – e, com uma explosão de velocidade sem igual no mundo natural, abate sua próxima refeição.

Ou era isso que pensávemos. Mas o primeiro estudo a coletar dados sobre os movimentos do animal na natureza revela que, ao contrário da opinião popular, a velocidade do guepardo não é sua única arma na caçada. Seu sucesso como predador também depende de seus reflexos quase instantâneos e de sua capacidade de acelerar mais rápido que uma Ferrari.

Determinar a velocidade com que animais correm não é nada fácil. Em zoológicos, guepardos cativos correndo em linha reta podem atingir velocidades de até 29 metros por segundo – quase 105 km/h, mais que o dobro da velocidade máxima conseguida por um corredor humano. Mas ninguém foi capaz de determinar se os animais de fato atingem essas velocidades na natureza.

Equipados com leves coleiras movidas a luz solar, com tecnologias de Sistema de Posicionamento Global e de medidas inerciais, uma equipe coordenada por Alan Wilson do Royal Veterinary College, de Londres, rastreou guepardos com precisão durante a caçada.

A equipe testou a precisão de suas coleiras pela primeira vez em um cão, deixando o animal solto em uma praia; dessa forma, a informação coletada seria analisada em relação às marcas de patas deixadas na areia. As coleiras se provaram incrivelmente precisas, a um nível de 0,2 metros.

Os pesquisadores então viajaram para a região do Delta do Okavango, norte da República do Botswana, onde usaram dardos para sedar e colocar coleiras em cinco guepardos. Os 17 meses de coleta de dados foi a parte fácil; o desafio foi compreender os dados, que confundiram expectativas.

De um total de 367 corridas, as maiores velocidades atingidas pelos cinco indivíduos foram 25,9 – 25,4 – 22,0 – 21,1 e 20,1 metros por segundo – todos abaixo do recorde estabelecido por guepardos cativos.

Além disso, a maioria das caçadas só envolveu velocidades moderadas, com uma velocidade máxima média de 14,9 metros por segundo. Mas apesar de os guepardos selvagens não terem corrido tanto quanto seus parentes cativos, eles demonstraram outras habilidades atléticas que pesquisadores não haviam medido antes.

Os dados revelaram que a capacidade de aceleração dos guepardos era de 120 watts por quilograma – aproximadamente o dobro da capacidade dos galgos mais velozes e mais de quatro vezes o de Usain Bolt durante sua corrida de 100 metros em 2009, que quebrou recordes.

Os guepardos também eram capazes de desacelerar rapidamente, absorvendo energia a uma taxa três vezes maior que a conhecida para os cavalos de polo com o melhor desempenho conhecido – animais criados para serem ágeis.

Quando os pesquisadores combinaram essas informações com observações de campo de caçadas de guepardos e informações de terreno fornecidas pelo Google Earth, perceberam que os guepardos frequentemente caçavam com sucesso no meio de vegetação espessa ao fazer curvas fechadas e paradas súbitas. “Nós sempre pensamos que guepardos eram corredores, mas agora parece que correr é apenas uma parte da história”, observa Wilson.

“Isso é impressionante”, declara o biólogo evolutivo David Carrier, da University of Utah. “Tanto a agilidade quanto a capacidade de manobra desses animais são tão importantes quanto sua velocidade”.

ver http://bcove.me/z0gfosdv

A expectativa sobre o que as coleiras de Wilson poderão revelar no futuro está crescendo rápido. “Será que guepardos vivendo em savanas abertas produzirão os mesmos resultados?”, pergunta-se Jack Grisham, coordenador do plano de sobrevivência de guepardos da Associação de Zoológicos e Aquários. 

Carrier, enquanto isso, espera que as coleiras sejam usadas para estudar os movimentos de outros animais na natureza. “Gravações simultâneas de cada membro de uma alcateia de leões ou de uma matilha de cães selvagens seriam fascinantes”, conclui ele.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 12 de junho de 2013.

 sciam14jun2013