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Pesquisas biomédicas devem equilibrar gêneros estudados

O National Institutes of Health planeja novas diretrizes para financiamentos a estudos celulares e animais

 

Jochen Sands via Thinkstock
Cientistas presumiam que descobertas biológicas feitas em exemplares machos se aplicariam igualmente a fêmeas, mas um volume crescente de pesquisas descobriu que isso nem sempre é verdade.

 

 
Por Francie Diep

Em maio deste ano, a maior instituição de pesquisas biomédicas do mundo, o NIH (National Institutes of Health), havia anunciado uma mudança radical em suas decisões de financiamentos.

O dinheiro não fluiria mais tão livremente para pesquisas que excluíssem participantes de sexo feminino dos estudos.

Cientistas que solicitassem verbas da instituição teriam de adotar planos que incluíssem tanto amostras femininas como masculinas em seus experimentos — quer fossem células, camundongos, macacos ou outras formas de vida, de acordo com um comentário divulgado por duas altas autoridades do NIH na publicação científica Nature. (A Scientific American faz parte do Nature Publishing Group).

“Essas políticas serão apresentadas em fases, a partir de outubro de2014”, Janine A. Clayton, diretora do Departamento de Pesquisa sobre Saúde da Mulher do NIH, e Francis S. Collins, diretor da instituição, escreveram na ocasião.

A menos de uma semana do fim de outubro, as normas para subsídios ainda não foram mudadas.

Em vez disso, o NIH está reunindo comentários de pesquisadores sobre quais áreas de pesquisa mais necessitam de um equilíbrio de gêneros e quais são os desafios para cientistas incluírem objetos de estudo dos dois sexos em seus estudos.

Autoridades alocaram US$ 10,1 milhões em verbas para cientistas dispostos a acrescentar animais ou amostras do sexo oposto aos seus experimentos já existentes.

Além disso, o NIH está produzindo vídeos e tutoriais on-line para ensinar a cientistas novatos no estudo de ambos os sexos como projetar essas pesquisas.

Por essa razão, Janine Clayton “não pode informar” quando as novas regras de financiamento entrarãoem vigor. Segundoela, “detalhes sobre a política e os planos de implementação serão apresentados durante o ano que vem”.

Uma vez implantada e codificada, a nova exigência representaria uma grande mudança para laboratórios biomédicos americanos, muitos dos quais estudam principal ou exclusivamente animais machos.

De acordo com uma estimativa, estudos farmacológicos incluem cinco vezes mais animais machos que fêmeas; enquanto pesquisas neurocientíficas são completamente desequilibradas, com uma proporção de 5,5 machos para uma fêmea (5,5:1).

Cientistas presumiam que descobertas biológicas feitas em exemplares machos seriam igualmente aplicáveis a fêmeas [ou objetos de estudo do sexo feminino, como células humanas].

Mas um volume crescente de pesquisas descobriu que isso nem sempre é verdade.

Os corpos de camundongos machos e fêmeas, por exemplo, produzem quantidades diferentes de muitas proteínas. Homens e mulheres apresentam riscos variados para muitas condições de saúde que não são obviamente baseadas em gênero (sexo), inclusive ansiedade, depressão, hipertensão e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

No entanto, essas doenças ainda são predominantemente estudadas em animais machos.

Cientistas dedicados ao estudo das diferenças entre gêneros acreditam que essa desigualdade pode ser a razão por que mulheres sofrem mais efeitos colaterais que homens de medicamentos aprovados pelo FDA, o órgão do governo americano que controla alimentos e medicamentos. Por essa razão, fármacos que pesquisadores testam principalmente em animais machos podem funcionar melhor para homens que para mulheres.

A esperada mudança de política visa, em parte, melhorar a ação de fármacos em meninas e mulheres. Mas ela também beneficiaria homens.

Um dos problemas identificados pelo NIH, por exemplo, surge que quando pesquisadores fazem uma média dos resultados obtidos em grupos de animais laboratoriais que incluem fêmeas e machos.

Essa prática, muito comum, pode obscurecer diferenças sexuais que, se identificadas, poderiam ajudar os homens.

Uma droga que funciona bem em camundongos machos, mas não nas fêmeas, por exemplo, poderia revelar-se útil só para homens, e poderia ser desenvolvida só para eles. Mas um estudo laboratorial baseado em uma média [dos resultados] faria o fármaco parecer medíocre em termos gerais e desmerecedor de mais pesquisas.

O artigo publicado em 14 de maio na Nature provocou muitas reações de cientistas.

“Acredito que ele fez muita gente ‘pirar’ um pouco”, opina Rebecca Shansky, uma neurocientista na Northeastern University em Boston, que estuda como os cérebros dos dois gêneros respondem a estresse.

Seja como for, o dia 1 de outubro chegou e passou; e o que ficou claro é que o NIH está procedendo com cautela.

De acordo com Janine Clayton, autoridades do NIH precisam de tempo para avaliar os comentários que receberão. Entre as regras que discutirão está o que qualifica e justifica que uma proposta de estudo não inclua animais e células dos dois gêneros. (O comentário publicado em Nature havia prometido que a instituição permitiria exceções.)

O pessoal do NIH quer dar tempo para que cientistas se prepararem: os que atualmente só estudam animais de um sexo poderão ter que aprender novas habilidades para cuidar de animais de outro gênero e analisar conjuntos de dados estatisticamente mais complicados.

A liderança do NIH também quer algum tempo para si: além de escrever diretrizes para cientistas, as autoridades também formularão alterações correspondentes no processo de revisão.

“O NIH é como um porta-aviões”, exemplifica Clayton. “Não podemos fazer uma manobra num piscar de olhos”.

Antes mesmo que o comentário na Nature fosse concebido, o NIH já havia tomado algumas medidas para incluir objetos de estudo do sexo feminino.

Em 2013, seu Departamento de Pesquisa sobre Saúde da Mulher começou a oferecer subsídios suplementares para acrescer fêmeas aos estudos existentes, um prenúncio do que estava por vir.

Abraham Palmer, um geneticista que chefia um laboratório na University of Chicago, aproveitou um suplemento desses. Ele já tinha uma verba para procurar genes associados ao prazer de metanfetaminas, um potencial fator de risco para a dependência dessa droga ilegal. Seu estudo também incluía camundongos dos dois sexos, mas originalmente ele havia planejado fazer uma média dos resultados.

Essa é uma escolha compreensível.

Se um pesquisador só tem financiamento para comprar e cuidar de um pequeno número de camundongos, os resultados podem não ser estatisticamente significativos se os dados têm de ser divididos por sexo.

A verba suplementar permitiu que Palmer dobrasse o número de animais em seu estudo e permitiu que ele obtivesse resultados estatisticamente robustos, específicos para cada sexo.

Para Palmer, o subsídio sinaliza uma guinada em como o NIH pensa sobre a questão de gêneros em projetos experimentais.

Há cerca de um ano e meio, o geneticista se candidatou para receber nova ajuda financeira do NIH para um estudo sobre drogas, que propunha colher e divulgar resultados separados para animais machos e fêmeas.

Ele conta que sua proposta foi rejeitada, em parte, porque um revisor da instituição julgou que uma diferenciação por sexo prejudicaria a força estatística de seus resultados.

“Agora penso que o NIH está dizendo explicitamente ‘queremos isso; isso é valioso’”, opina. “Isso justifica fornecer os recursos necessários para aumentar o tamanho da amostragem”.