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Pilotos de avião solar planejam volta ao mundo

Aeronave movida a energia solar atravessou os Estados Unidos em 65 dias

Jean Revillard/Solar Impulse
 VOO SOLAR À NOITE: A aeronave Solar Impulse HB-SIA, que acabou de sobrevoar os Estados Unidos, armazenava luz solar na forma de eletricidade para permitir que voasse à noite. 
Por David Biello

Uma aeronave sobrevoou cruzou o espaço aéreo dos Estados Unidos movida apenas por fótons. A jornada de uma costa a outra foi apenas um aquecimento para uma tentativa de circumnavegar o globo.

O voo transcontinental que não usou uma única gota de combustível precisou de 105 horas e 41 minutos para cobrir 5650 quilômetros – e o próximo será quase 10 vezes mais longo.

O Solar Impulse HB-SIA completou sua viagem pela América no Norte na semana passada, suportando o mau tempo e pousando mais cedo que o previsto devido a um rasgo na asa.

Isso não é nada se comparado ao desafio de completar a maratona transglobal no avião elétrico marcada para 2015. “A missão foi mais difícil que o previsto, especialmente devido a condições climáticas difíceis”, declara o co-piloto André Borschberg, diretor da equipe Solar Impulse, que completou o voo com cinco escalas.

“Nós tivemos que nos adaptar muito rapidamente e mudar a estratégia de voo em um tempo muito curto”.

O tecido abaixo da asa esquerda rasgou durante o voo entre Washington capital e a cidade de Nova York em 6 de julho por razões desconhedias, e fortes ventos de proa deixaram a aterrisagem Dallas-Fort Worth, em 23 de maio, particularmente desafiadora. (Ela também provocou várias ligações ao serviço de emergência sobre um possível OVNI na área).

E a aeronave, mesmo quando identificada, é um estranho objeto voador, com a envergadura de asa de um 747 mas pesando menos que um carro compacto. Mesmo assim, a aeronave solar, e seus pilotos, tiveram um desempenho impecável, apesar rasgo de 2,5 metros. “Isso demonstra que a estrutura é forte e totalmente confiável, porque ela se sustentou apesar do fluxo de vento na asa”, argumenta Borschberg.

O HB-SIA cruzou o país usando a eletricidade fornecida por 12 mil células solares, elevando-se a mais de oito mil metros e depois descendo lentamente para 1500 metros, a 15 metros por minuto, usando sua bateria de íons de lítio de 90 kilowatt/hora antes de voltar a subir quando o sol se levantou novamente de manhã.

Essa aeronave super eficaz viaja mais lentamente que uma bicicleta elétrica, fazendo em média 50 km/h na maioria das viagens, com seus quatro motores elétricos capazes de produzir no máximo 10 cavalos de potência cada somente para decolar e aterrissar. Seu voo direto mais longo – de Dallas-Fort Worth para Saint Louis – levou 21 horas e 21 minutos.

E o avião solar não tem, necessariamente, capacidade para começar a transportar passageiros. “Atualmente nós não vemos como poderíamos colocar 200 passageiros em um avião solar”, observa Bertrand Piccard, o primeiro homem a pilotar um balão ao redor do mundo, sem parar, e também diretor e co-piloto do trabalho.

“Esse avião é mais uma tentativa de demonstrar a duração incrível que é possível do que a velocidade até o destino”.

Uma melhoria fundamental para permitir o voo por distâncias mais longas será uma forma de monitoramente computadorizado, para que o piloto humano possa descansar durante o sobrevoo do Oceano Pacífico, que deve durar no mínimo cinco dias e cinco noites, enquanto o piloto automático mantém o avião estável.

Uma “caixa elétrica”, nas palavras de Borschberg, também supervisionará o estado da aeronave e só chamará a atenção do piloto para desafios específicos, em parte usando um novo sistema de interface homem-máquina, utilizando vibrações do lado esquerdo ou direito quando o ângulo de inclinação do avião exceder cinco graus. “A princípio nós não conheceremos esse avião muito bem”, lembra ele. “O primeiro voo durante a noite será cheio de suspense”.

Os pilotos já passaram pelo menos três dias e três noites em um simulador de voo, em treinamento. Borschberg observa que sua principal adaptação foi alterar seu foco mental daquilo que ele queria conquistar, para o que estava experimentando naquele momento: “Eu quase fiquei decepcionado quando o treinamento acabou”, relembra ele.

E isso não é nada se comparado ao estado de serenidade induzido pela passagem lenta do cenário e do silêncio da cabine, que só é perturbado pelo vendo passando por ele. “Nunca é tedioso voar no avião mais incrível que existe, um avião que não queima combustível e pode voar noite e dia”, escreveu Piccard durante uma sessão Pergunte-Qualquer-Coisa do Reddit, em 31 de maio, talvez porque a velocidade, inclinação e guinada do avião possam mudar todos ao mesmo tempo, tornando-o extremamente desafiador de pilotar.  

A equipe do Solar Impulse se concentrará em melhorar a eficiência energética ainda mais em sua próxima versão, batizada de HB-SIB, capaz de armazenar mais energia reserva, além de trabalhar para melhorar a confiabilidade para a tentativa de voar ao redor do mundo.

Atualmente, as condições de umidade podem manter o HB-SIA no chão porque os circuitos elétricos do avião não são completamente à prova d’água e não conseguem lidar com ventos fortes.

Críticos para o sucesso desses Phileas Foggs do século 21 serão banheiros integrados ao assento do piloto da nova aeronave.

Para o voo sobre os Estados Unidos, os pilotos usaram garrafas d’água e força de vontade. Como disse Borschberg: “O que pode ser interessante para a aviação comercial e militar é como nós vamos administrar o voo de longa duração em termos de sono, descanso, vigília e capacidade física do piloto”.