Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Pinturas antigas ocultam pistas sobre clima do passado

Paisagens profundamente vermelhas revelam partículas no ar que o pintor retratou

Paisagem sobre o Orne, 1884, Edgar Degas
Por Lindsey Konkel e The Daily Climate

Um pôr-do-sol em vermelho profundo oferece mais que um incrível pano de fundo para pinturas de Velhos Mestres: ele pode dizer o quanto o ar estava sujo quando o pintor empunhou o pincel.

De acordo com um estudo publicado na terça-feira, o grau de vermelho nos céus de pinturas históricas é um representante dos níveis de poluição na atmosfera terrestre do passado. Além disso, o poente ficou gradualmente mais vermelhos nos últimos 150 anos, provavelmente refletindo a poluição criada pela humanidade.

Por-do-sol vermelho pode até produzir uma cena atraente, mas normalmente são resultado de partículas espalhando raios de sol. De acordo com pesquisadores, quanto mais profundo o vermelho da pintura, mais poluição existia no céu naquele momento. Pinturas produzidas após erupções vulcânicas, por exemplo, têm céus muito mais vermelhos.

‘A natureza fala’

“A natureza fala aos corações e almas dos artistas”, escreveu um dos pesquisadores. E a arte pode ajudar a ciência: “Pinturas podem fornecer estimativas confiáveis sobre aerosois na atmosfera em épocas anteriores a medidas instrumentais”, escreveu Christos Zerefosem um email, principal autor do estudo e professor de física atmosférica da Academia de Atena, na Grécia.

Pequenas partículas suspensas na atmosfera, chamadas de aerosois, espalham a luz do sol, e por isso pores-do-sol parecem mais vermelhos. Aerosois podem vir de fontes naturais como erupções vulcânicas, incêndios florestais ou tempestades de areia, ou de fontes produzidas pela humanidade, como a fuligem produzida por carros ou caminhões.

A pintura do artista alemão Caspar David Friedrich, de 1818, intitulada “Mulher Diante do Sol Poente” exibe a silhueta de uma mulher com os braços abertos sob um céu profundamente ocre – uma cena provável, de acordo com os pesquisadores, dada a erupção do vulcão Tambora, da Indonésia, em 1815. Essa erupção espalhou partículas pela atmosfera que produziram pores-do-sol vermelhos e alaranjados pela Europa durante três anos.

Quente e frio

Os efeitos de aerosois sobre o clima da Terra são complicados. Eles podem ter um grande impacto sobre o clima quando espalham a luz, resfriando o planeta no caso da erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991.

Ou eles podem absorver calor e, especialmente com a fuligem produzida pela fumaça de diesel e carvão, acelerar o derretimento de neve e gelo.

Ocasos mais vermelhos

No estudo, publicado no periódico Atmospheric Chemistry and Physics, pesquisadores da Grécia e da Alemanha analisaram 124 ocasos pintados por artistas europeus entre 1500 e 2000. Durante esse período, mais de 50 grandes erupções vulcânicas ocorreram pelo planeta. Zerefos e colegas descobriram que tons avermelhados em pores-do-sol atingiam seu auge durante períodos de atividade vulcânica.

Eles também descobriram que representações de ocasos se tornaram mais vermelhas a partir da Revolução Industrial, mesmo durante períodos sem atividade vulcânica. Artistas, sugerem eles, inconscientemente capturaram aumentos na poluição durante 150 anos.

“Aerosois influenciaram os registros de temperatura da Terra. Ao correlacionar cores em pinturas com a profundidade ótica de aerosois, esse estudo ajuda a validar reconstruções históricas de temperatura”, declarou A.R. Ravishankara, professor de química e de ciência atmosférica da Colorado State University, que não se envolveu no estudo.

Patronos das artes

Para corroborar suas descobertas, os pesquisadores contrataram um artista para pintar uma série de ocasos da ilha grega de Hidra durante e após uma tempestade que atingiu o Deserto do Saara em 2010. A tempestadelevantou partículas de poeira até a atmosfera e as carregou para o Mediterrâneo. Eles descobriram que mais poluição na atmosfera correspondia a cores mais quentes nas pinturas do artista.

“Artistas do passado criaram um registro involuntário da mudança climática. Isso começou a mudar por volta de meados do século 20, quando artistas começaram a representar a explosão da pegada ecológica da humanidadedeliberadamente”, declara William L. Fox, diretor do Centro de Arte e Meio-Ambiente, do Museu de Arte de Nevada.

Ainda que ocasos brilhantes possam ser um possível “lado positivo” da poluição, os danos claramente superam os benefícios, adicionou Ravishankara. “Você quer cores mais vibrantes ou um ar melhor para respirar?”

Este artigo foi originalmente publicado em The Daily Climate, a fonte de notícias sobre a mudança climática publicada por Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.

Exemplos de pinturas que sugerem a existência de partículas na atmosfera retratada pelo pintor

Mulher diante do Sol Nascente (Mulher diante do Sol Poente), de Caspar David Friedrich/Wikimedia Commons

Céu Vermelho e Lua Crescente, de Joseph Mallord William Turner/ Museu Tate

Paisagem no Orne/ Edgar Degas

Cavalos de Corrida /  Edgar Degas

As margens do Spree perto de Stralau/ Karl Friedrich Schinkel

O Grito/Edvard Munch

Imagens cortesia da União Geofísica da Europa