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Pinturas ocultas de Angkor Wat são reveladas com técnica digital

As imagens podem ser as primeiras tentativas de restaurar as decorações do templo cambojano

Uma técnica chamada de análise de decorrelação por esticamento, que exagera diferenças sutis de cor, revelou imagens como esta, de dois elefantes se encarando.
Por Megan Gannon e LiveScience

Todos os anos, milhões de visitantes vão até Angkor Wat, um templo antigo no Camboja moderno. Lá, eles se maravilham diante de torres com 900 anos de idade, um fosso gigante, e esculturas em relevo esbatido de deuses Hindus. Mas o que eles não podem ver são as 200 pinturas ocultas nas paredes do templo. 

Novas imagens digitalmente ampliadas revelam murais detalhados em Angkor Wat mostrando elefantes, deidades, barcos, orquestras, e pessoas montadas a cavalo – todos invisíveis a olho nu.

Muitas dessas marcas tênues poderiam ser inscrições ou desenhos deixados por peregrinos após Angkor Wat ser abandonado no século 15. De acordo com pesquisadores, porém, as pinturas mais elaboradas podem ser relíquias das primeiras tentativas de restaurar o templo.

Descobrindo Tintas

Traços sutis de tinta chamaram a atenção de Noel Hidalgo Tan, pesquisador de arte rupestre da Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, enquanto ele trabalhava em uma escavação em Angkor Wat em 2010.

Construído entre 1.113 e 1.150 D.C., Angkor Wat ficava no centro de Angkor, a capital do Império Khmer. O complexo de 500 acres (200 hectares), um dos maiores monumentos religiosos já construídos, servia originalmente como um templo hindu dedicado ao deus Vishnu, mas foi transformado em templo budista no século 14.

Tan declara ter observado traços de pigmentos vermelhos espalhados sobre as paredes enquanto caminhava pelo templo durante uma pausa para o almoço. Ele tirou algumas fotografias e decidiu ampliá-las digitalmente depois. “Eu não percebi que as imagens seriam tão detalhadas, então fiquei naturalmente chocado”, contou Tan à Live Science por email.

As imagens digitalmente ampliadas revelaram pinturas de elefantes, leões, do deus-macaco hindu Hanuman, de barcos e construções – talvez até imagens do próprio templo. Tan voltou ao local para conduzir uma pesquisa mais metódica em 2012, com seus colegas cambojanos da APSARA (Autoridade para Proteção e Administração de Angkor e da Região de Siem Reap, em inglês).

Imagens Invisíveis

“Algumas das pinturas mais detalhadas, aquelas localizadas no topo do templo, são literalmente observadas por milhares de visitantes todos os dias, mas as cenas mais elaboradas são invisíveis a olho nu”, comentou Tan por email.

Para tornar essas pinturas visíveis, Tan usou uma técnica chamada análise de decorrelação por esticamento, que exagera diferenças sutis de cor. Esse método se tornou uma ferramenta valiosa na pesquisa de pinturas rupestres, já que pode ajudar a distinguir imagens tênues da rocha subjacente. A técnica tem sido usada, inclusive, para ampliar imagens da superfície de Marte obtidas pela sonda Opportunity, da Nasa.

Uma câmara na camada mais alta da torre central de Angkor Wat, conhecida como Bakan, contém uma cena elaborada de um tradicional conjunto musical Khmer conhecido como “pinpeat”, composto de diferentes gongos, xilofones, instrumentos de sopro e outros instrumentos de percussão. Na mesma câmara há uma intricada cena de pessoas cavalgando entre duas estruturas, que podem ser templos.

“Grande parte das pinturas visíveis nas paredes era considerada grafito (pinturas ou inscrições antigas), e eu certamente concordo com essa interpretação, mas esse estudo descobriu outro conjunto de pinturas tão esquemáticas e elaboradas que provavelmente não são rabiscos aleatórios, mas uma tentativa de decorar as paredes do templo”, adicionou Tan.

Christophe Pottier, arqueólogo e codiretor do Grande Projeto Angkor não envolvido no novo estudo, concordou que esses murais mais complexos apresentam uma intenção mais deliberada e não podem ser interpretados como simples grafito.

Pottier, no entanto, adicionou que a descoberta de pinturas ocultas não é tão surpreendente. Ainda que não tenham sido estudadas de maneira sistemática até o momento, vários traços de pinturas já foram encontrados no templo durante os últimos 15 anos.

“Mas eu fico muito satisfeito, porque os traços identificados são bem diversos, vivos e originais”, elogia Pottier. A maioria das pinturas conhecidas anteriormente representava barcos, desenhos florais e geométricos, contou Pottier à Live Science por email.

Ainda que pesquisadores não saibam exatamente quando as pinturas foram criadas, Tan especula que os trabalhos mais elaborados foram encomendados pelo rei cambojano Ang Chan, que tentou restaurar o templo durante seu reinado entre 1528 e 1566. Durante esse período, esculturas inacabadas foram concluídas e Angkor Wat começou a se transformar em um local de peregrinação budista. Algumas das novas pinturas reveladas têm iconografia budista, como a pintura de um templo que se parece com um monumento budista conhecido como “stupa”.

As descobertas foram detalhadas no periódico Antiquity nesta semana.

Antiquity/Tan et al. 2014