Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Poderia o sinal de telefones celulares causar câncer?

Um especialista responde a perguntas sobre o que pode acontecer em nível celular depois que um relatório recente associou ondas de radiofrequência a tumores em ratos

 

Shutterstock

A publicação de um estudo na sexta ligando câncer em ratos ao tipo de radiação emitida por telefones celulares apresenta algumas das mais fortes implicações em mais de duas décadas de pesquisa sobre como altas doses de radiação podem estar ligadas a tumores em animais de laboratório — uma notícia preocupante para bilhões de usuários de telefones móveis no mundo todo. Faltam ainda, no entanto, um maior entendimento de como exatamente essa radiação de radiofrequência (RF) pode levar a mutações celulares que levam ao câncer.

O estudo, feito pelo Programa Nacional de Toxicologia dos EUA (NTP), descobriu que à medida que os milhares de ratos estudados foram expostos à maiores intensidade de radiação de RF, a maioria deles desenvolveu formas raras de câncer no coração e no cérebro que não podiam ser facilmente explicados, exibindo uma relação direta dose-resposta. NTP reconheceu que a pesquisa não é definitiva e que mais pesquisas tem de ser feitas.

Esse território é familiar para Jerry Phillips, um bioquímico e diretor do Centro de Ciência Excel da Universidade do Colorado, em Colorado Springs. Phillips conduziu uma pesquisa financiada pela Motorola sobre os impactos potenciais dos celulares durante os anos 90 enquanto ele estava no Centro Médico do U.S. Department of Veterans Affairs` Pettis VA, em Loma Linda, Califórnia. Phillips e seus colegas observaram os efeitos de diferentes sinais de RF em ratos e em celulas. “O achado mais perturbador para a Motorola na época foi que esses sinais de radiofrequência podiam interagir com tecidos humanos, que foi o que vimos nos ratos”, ele diz.

A Scientific American falou com Phillips sobre o anúncio da NTP, assim como sobre sua experiência própria tentando entender como os sinais de RF podem causar os prejuízos no DNA observados em seus ratos de laboratório.

Como a radiação do celular é diferente de outras formas de radiação?

A radiação de um celular é uma radiação não ionizada. Raios-X, por exemplo, possuem radiação ionizada e contém energia suficiente para quebrar ligações químicas. Radiação não ionizada associada a campos de radiofrequência é uma energia muito, muito baixa, então não existe energia suficiente para quebrar ligações químicas. Sempre foi assumido que, já que a energia criada pelos aparelhos era tão baixa, não seria possível gerar produção de calor — e sem essa produção, não haveria quaisquer efeitos biológicos [em usuários].

O que acontece com células vivas quando elas são expostas à radiação de RF?

O sinal se acopla às células, embora ninguém saiba qual a natureza desse acoplamento. Alguns efeitos dessa reação podem ser coisas como movimentação de cálcio através de membranas, a produção de radicais livres ou mudança na expressão de genes em uma célula. De repente, proteínas importantes estão sendo expressadas em lugares, horas e quantidades em que elas não deveriam estar, e isso possui um efeito dramático no funcionamento das células. E algumas dessas mudanças são consistentes com o que foi observado quando células se convertem de normais para malignas. Esses efeitos variam dependendo da natureza do sinal, do período de exposição e das especificidades do sinal em si.

Como o uso de ratos impacta a validade de um estudo feito para determinar se os celulares são seguros para pessoas?

Nós tentamos encontrar o melhor modelo de sistema disponível nos baseando em fisiologia, genética e o que sabemos sobre bioquímica. Ratos são um modelo muito bom para humanos. Claro, a pergunta que você fez é como a indústria de aparelhos sem fio vai lidar com isso. A réplica inicial deles é que são ratos, não humanos.

O NTP estudou tanto as modulações do Code Division Multiple Access (CDMA) e do Global System for Mobile (GSM), que ditam como sinais carregam informações. Por que testar mais de uma modulação em um estudo como esse?

Você testa ambas as modulações porque ambas são amplamente utilizadas hoje. Eu não sei exatamente qual foi o raciocínio do NTP, mas o que pensamos no nosso estudo nos anos 90 foi descobrir se a modulação do sinal tinha algum efeito naquilo que estávamos observando. Parte do problema de estudar radiação de radiofrequência é que não temos ideia do que constitui uma dose. Se você tem um químico, você pode pesá-lo e você saberá o que é uma dose. Mas com radiação de radiofrequência existem muitos parâmetros — intensidade de energia, frequência do portador, período de exposição,  intermitência do sinal ou outra combinação — e ninguém sabe o que é mais importante.

Qual tem sido o argumento mais prevalecente contra a radiação não ionizada ser uma causa de câncer?

É um questão complicada. Se você olhar para algo tão simples como fumar — por muito tempo as pessoas não tinham ideia do quê na fumaça do cigarro causava câncer. Você podia observar, quando um fumante morria, que seus pulmões estavam diferentes dos de um não fumante, mas no início foi difícil identificar o mecanismo que causava a mudança nos pulmões. Aqui temos o mesmo tipo de argumento -- não existe uma explicação plausível para algo com tão pouca energia causar efeitos biológicos o suficiente para prejudicar à saúde humana e seu desenvolvimento. Nós que trabalhamos na área de expressão de genes observamos esses efeitos, mas não tivemos como explicá-los.

O que podemos tirar dos resultados do último estudo do NTP?

Tudo que ele faz é fornecer algumas respostas, mas levantar ainda mais perguntas. Meu palpite é que não mudará muita coisa nesse país. Se você olhar, toda a pesquisa feita sobre isso é feita fora dos Estados Unidos. As pessoas querem acreditar que a sua tecnologia é segura. Eu quero. Eu adoraria acreditar, mas eu sei que não posso.

Como você concilia o uso de seu próprio celular com os potenciais danos à saúde?

Eu conecto o celular com o Bluetooth no carro. Ou mando mensagem de texto. Ou, se eu preciso fazer uma ligação, ponho no viva voz. Mas você precisa entender que esse questão abre uma porta muito maior do que celulares. Se essa radiação, essa forma de energia pode interagir com tecido biológico, então ela abrirá várias questões que já haviam sido supostamente resolvidas no que diz respeito à comunicação sem fio. Se iremos fazer parte de um novo ambiente eletromagnético, quão seguro ele é?

 

 Larry Greenemeier