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Poderiam alguns quilos extras ajudar você a viver mais?

Um novo estudo dinamarquês fornece mais dados mas não resolve a questão

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Pessoas que estão um pouco a cima do peso mas não são obesas - de acordo com seu índice de massa corporal (IMC) - tendem a viver mais do que pessoas homólogas que têm um peso normal, de acordo com um novo estudo dinamarquês. Mas esse nem sempre foi o caso. Em 1970, mostram os dados dinamarqueses, indivíduos estudados com mais chances de viver mais eram aqueles que possuíam IMC na faixa do normal, isto é, entre 18.5 e 25. Alguém com 1,65 metros de altura e que pesasse 68 quilogramas teria um IMC de 25.

Nos extremos - estar muito abaixo do peso ou obeso - os dados dinamarqueses mostram um risco maior de morte por todas as causas, particularmente doenças cardiovasculares. O ponto limite para considerar se uma pessoas é obesa ou não, no entanto, pode ser diferente para diferentes raças e etnias (todos os dinamarqueses estudados era brancos). Asiáticos da Índia são um dos casos. Asiáticos do Sul tendem a ter mais gordura corporal relacionado ao mesmo IMC comparado com outros grupos. Desse modo, os efeitos prejudicais associados ao aumento de peso tendem a aparecer em pesos absolutos menores para essas pessoas.

O novo estudo pode dizer mais sobre os benefícios de se morar na Dinamarca para a saúde, no entanto, do que qualquer outra coisa - todos os participantes viviam em Copenhage. Praticamente todos os dinamarqueses são protegidos por um sistema de saúde universal que cuida muito bem dos residentes do berço ao túmulo. É possível que os avanços médicos das últimas décadas no tratamento da diabetes tipo 2, hipertensão e níveis altos de colesterol tenham tido um impacto maior em pessoas com sobrepeso - o que aumenta o risco para essas condições - enquanto o efeito foi bem menor em pessoas de peso normal.

Apesar disso e de outras ressalvas, o relatório, que foi publicado no JAMA The Journal of the American Medical Association, adiciona às evidências crescentes de que ter alguns quilos a mais - especialmente depois da meia idade - talvez não seja tão ruim para sua saúde quanto você pensou. De um modo geral, o IMC associado com menores riscos de morrer por qualquer causa para os dinamarqueses estudados foi 23.7 em 1970, 24.6 em 1990 e 27.0 nos dias de hoje.

Uma tendência crescente similar apareceu mesmo em pessoas que nunca haviam fumado e não tinham histórico de doenças cardíacas ou câncer. Para eles, o IMC associado aos menores riscos de morte por todas as causas foram de 18 em 1970 e 26.1 hoje.

Quando os pesquisadores separaram o grupo por idade - menores e maiores de 60 anos - o IMC que correspondia ao menor risco de morte aumentou um pouco à medida que as pessoas envelheceram. Em 1970 era 23,5 para aqueles que tinham 60 anos ou menos e 24,4 para aqueles que eram mais velhos do que 60 - ambos ainda dentro a faixa normal. De 2003 a 2013, o IMC ligado ao menores riscos de mortalidade era 26,7 para pessoas de 60 anos ou menos e 27,3 para os maiores de 60, medida que está dentro da categoria de sobrepeso. 

Os resultados ecoam àqueles de outros grandes estudos que descobriram que estar um pouco a cima do peso parece ser benéfico - especialmente depois da meia idade. Ainda assim, não é possível concluir que o peso extra por si seja o fator protetor. Como com qualquer estudo epidemiológico, até mesmo um tão bem projetado quanto esse, correlação não prova causa.

“Essa questão existe há pelo menos 40 anos,” diz David Allison, um pesquisador de obesidade da Universidade do Alabama (UAB), em Birmingham, que não fez parte do estudo. Reuben Andres, o primeiro diretor clínico do National Institute on Agin, nos EUA, trouxe a pergunta à tona em 1980. Katherine Flegal, do National Center for Health Statistics, demonstrou a tendência nos dados nacionais, em 2005 e, nos internacionais, em 2013. A essa altura, “é praticamente indiscutível que a correlação existe,” diz Allison. “O que é discutível é o que a correlação significa.”

Talvez não seja o peso em si, mas apenas a habilidade de ganhar peso que seja sinal de saúde. (Perder peso sem querer é, muitas vezes, um sinal de doença.) E, então, ganhar um pouco de peso com a idade é apenas um sinal generalizado de saúde até que você ganhe peso demais e se torne prejudicial. Nesse caso, seria difícil analisar as estatísticas de maneira minuciosa o suficiente para mostrar a diferença.”

Ou talvez doutores ofereçam tratamentos médicos mais agressivos para pacientes com sobrepeso. Ou talvez, apenas talvez, é apenas mais difícil saber o que acontece nas áreas limites entre um IMC de 25 e 27. Talvez, para algumas pessoas, um pouco mais de peso seja protetor; para outras, não - e pesquisadores não sabem explicar por quê. “Esses estudos epidemiológicos não nos dão uma resposta,” diz Tapan Mehta, bioestatística da UAB, que não fez parte do estudo. “Eles nos dão questões interessantes para seguirmos.”

E para aqueles de nós que queremos respostas agora? “O que os dados mostram claramente é que, para a maior parte das raças e etnias, se você for extremamente obeso, tratar-se trará benefícios,” afirma Metha. Para aqueles que estão com alguns quilos a mais, não dói comer mais frutas e vegetais, dormir e se exercitar mais.”

 

Christine Gorman