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Polêmica técnica de Estimulação Transcraniana tem efeitos químicos observados pela primeira vez

Ipan

A ideia de que  aplicação no escalpo de níveis baixos de estimulação elétrica — tão fracos que causam apenas uma sensação de formigamento — poderiam ativar o cérebro é relativamente nova e um tanto quanto controversa. Há relatos de que a técnica, chamada de Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) seria capaz de modificar o humor, a emoção e a cognição, mas pesquisadores ainda não têm evidências de como — ou mesmo se — ela modula diretamente a atividade cerebral. Ainda assim, alguns pesquisadores a veem como uma potencial estratégia para tratar distúrbios psicológicos.

Um novo estudo publicado na revista científica Biological Psychiatry é o primeiro a medir as mudanças no metabolismo cerebral durante a ETCC. Liderado pela autora sênior Shirley Fecteau da Universidade Laval, em Quebec, no Canadá, o estudo reportou que a ETCC aumenta os níveis de neurotransmissores glutamina + glutamato — o glutamato é principal mensageiro químico ativador no cérebro — e o N-acetil aspartato (NAA), um indicador de saúde neural. Ambos os neurotransmissores estão relacionados à aprendizagem e adaptação do cérebro.

"Esses dados interessantes fornecem evidências químicas que sugerem que a ETCC ativa o córtex cerebral humano,” afirma John Krystal, editor da Biological Psychiatry. "Esse tipo de mudança seria crítica para produzir efeitos comportamentais e, talvez, terapêuticos.”  

No estudo, os pesquisadores aplicaram uma única sessão de ETCC em 15 participantes saudáveis por 30 minutos em uma intensidade contínua de 1 mA, considerada uma dose suave. Eles estimularam o córtex pré-frontal, uma região do cérebro envolvida na cognição e no comportamento. Durante a estimulação, os pesquisadores utilizaram espectroscopia de ressonância magnética (ERM) para medir as mudanças nos níveis de neurotransmissores no córtex pré-frontal e no striatum, uma região importante envolvida em muitas funções, como recompensa e aprendizado.

Nos pacientes que receberam ETCC, o primeiro autor do estudo, Antoine Hone-Blanchet, mediu um aumento rápido no NAA pré-frontal, em 15 minutos de estimulação, e no glutamato + glutamina do striatum, em 30 minutos. Os níveis retornaram ao normal imediatamente após o fim da sessão. De acordo com Fecteau, esses resultados sugerem que ETCC possui um efeito excitatório rápido, mas de curta duração, tanto na região de estimulação quanto um pouco mais para baixo dela.

"Essas descobertas precisam ser replicadas em uma amostra maior, mas também pedem por maiores investigações sobre os efeitos neurais da ETCC,” disse Fecteau, apontando também que, nos últimos anos, a comunidade científica e população geral têm cada vez mais utilizado a técnica no córtex pré-frontal.

Os cientistas ainda não sabem os efeitos da estimulação recorrente ou de maior duração na atividade neuroquímica, que podem ser tanto benéficos quanto maléficos, dependendo do usuário, afirmou Fecteau. Entender o potencial de impacto da ferramenta, negativo e positivo, ajudará atrelar sua utilidade a um uso seguro e efetivo em populações saudáveis e clínicas.

 

 Biological Psychiatry
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