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Por que esquecemos coisas?

O cérebro pode armazenar uma quantidade enorme de lembranças. Então por que não encontramos muitas dessas informações quando precisamos? Estudo recente oferece novas percepções dessa questão

Edward K.Vogel e Trafton Drew
Nosso cérebro guarda uma imensa quantidade de lembranças acumuladas com as experiências da vida. São lembranças que abrangem desde vivências profundas ─ quem sou eu, e como cheguei aqui? ─ às mais triviais ─ a placa de um carro que acabei de ver num sinal de trânsito. Além disso, nossas lembranças também variam muito em termos de exatidão. Os pais, por exemplo, quase sempre vivenciam a experiência de uma lembrança imprecisa quando estão comprando o presente de aniversário para um filho de sete anos: lembrar se o garoto queria uma estrutura que se transforma em caminhão ou avião pode fazer uma diferença enorme na satisfação com que o presente é recebido. Portanto, as “imprecisões” de nossa memória podem muitas vezes ser simplesmente tão importantes em nossa vida diária como a capacidade de lembrar em primeiro lugar de uma grande quantidade de informações.

Nas últimas décadas a psicologia cognitiva determinou que existem dois sistemas de memória primária na mente humana: a memória a curto prazo, ou “de trabalho”, que guarda informações temporariamente apenas sobre algumas coisas em que estamos pensando no momento, e a memória de longa-duração capaz de armazenar grande quantidade de informações sobre experiências adquiridas durante toda a vida.

Esses dois sistemas também são considerados diferentes em relação a detalhes que oferecem: a memória de trabalho fornece minúcias sobre coisas específicas de lembranças recentes, enquanto a memória de longo prazo dá uma imagem mais imprecisa sobre uma quantidade de coisas diferentes que vimos ou vivenciamos. Embora possamos manter uma quantidade de lembranças na memória de longo prazo, os detalhes nem sempre são nítidos e muitas vezes ficam restritos ao ponto essencial daquilo que vimos ou que aconteceu.
Um estudo recentemente publicado por Timothy F. Brady, neurocientista cognitivo do Massachusetts Institute of Technology, e colegas sugere que essas lembranças de longo prazo podem não ser tão vagas como se pensava. Os pesquisadores pediram que participantes tentassem se lembrar de 3 mil figuras de objetos comuns ─ como mochilas, telefones e torradeiras ─ que foram apresentados um a um por apenas alguns segundos.

No final da fase de visualização os pesquisadores testaram a memória dos participantes mostrando-lhes dois objetos e perguntando-lhes qual dos dois haviam visto antes. Como era esperado, os participantes se saíram excepcionalmente bem (mais de 90% de acerto) mesmo com milhares de objetos para lembrar. Esse alto índice de sucesso atesta a enorme capacidade de armazenamento da memória de longo prazo.

O que mais surpreendeu, no entanto, foi o impressionante nível de detalhes que os participantes guardaram de todas as imagens. Os participantes conseguiam lembrar, com a mesma clareza, de diferenças entre duas imagens do mesmo objeto, apesar dos detalhes sutis, como torradeiras com fatias de pão ligeiramente diferentes.

Esse trabalho mostra que a enorme quantidade de informações que guardamos na memória de longo-prazo não é tão imprecisa. Esse resultado também suscita uma pergunta óbvia: Se nossas lembranças não são tão vagas, por que esquecemos detalhes de coisas que queremos lembrar?

Uma explicação é que, apesar de o cérebro conter representações detalhadas de muitos eventos e objetos diferentes, nem sempre podemos encontrar as informações que desejamos. Se virmos um objeto, somos quase sempre capazes de dizer com precisão e riqueza de detalhes se já o vimos antes. Se estivermos em uma loja de brinquedos e tentarmos lembrar o que agradaria nosso filho como presente de aniversário, voluntariamente precisamos fazer um esforço para buscar a resposta certa em nossa memória. Parece que este mecanismo de busca voluntária é que está sujeito à interferência que induzem ao esquecimento.