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Por que houve menos casos de microcefalia causados pelo Zika vírus ano passado?

Novo estudo sobre dados de 2016 traz algumas descobertas surpreendentes

Wikimedia Commons/Sumaia Villela/Agência Brasil
Bebê com microcefalia é atendido por fisioterapeuta da Associação de Assistência à Criança Deficiente em Recife, PE
Dos vários mistérios que permanecem sobre o Zika vírus e seu ataque no continente americano, provavelmente o mais intrigante se relaciona com a distribuição bizarra de bebês nascidos com microcefalia em decorrência do vírus.

Depois de tantos nascimentos registrados no Nordeste do Brasil nos últimos três meses de 2015, o país - e outros lugares onde o vírus por onde o vírus se espalhou - se prepararam para um tsunami similar de casos em 2016. Porém, ele não se materializou - ao menos não no mesmo nível.

Uma nova e intrigante carta escrita para o New England Journal of Medicine oferece uma teoria para explicar os casos de microcefalia que estão “faltando” entre os bebês previstos para nascer no Nordeste brasileiro após a segunda onda de infecção do Zika, no início de 2016.

Os autores sugerem que a primeira onda de Zika da região foi, na verdade, a única até hoje. Segundo essa teoria, alguma coisa capaz de causar doenças semelhantes, como o vírus da chikungunya, provavelmente foi o responsável pelo alto nível de febre e erupções cutâneas que o Brasil registrou em 2016.

Os autores - do Ministério da Saúde do Brasil, da Fundação Oswaldo Cruz, da Organização Panamericana de Saúde e da Organização Mundial de Saúde - utilizaram informações de dois bancos de dados que registram casos de microcefalia e síndrome de Guillain-Barré (GBS, na sigla em inglês).

Quando os dados foram colocados em um gráfico, a discrepância ficou clara como o dia. Em 2015, um grande pico nos casos de GBS foi seguido por uma onda de recém-nascidos com microcefalia 23 semanas depois. Contudo, o mesmo não aconteceu com um pico correspondente no início de 2016.

Infecção por Zika pode desencadear GBS, uma paralisia progressiva da qual a maioria das pessoas se recupera. Essa infecção durante a gravidez pode atacar o feto, levando à microcefalia e outros problemas neurológicos congênitos.

A infecção por chikungunya pode causar GBS, mas a mesma infecção durante a gravidez não causa microcefalia, até onde se sabe.

“Essa não é uma declaração de fatos ou provas. Essa é a melhor das hipóteses”, disse Christopher Dye, autor sênior e epidemiologista da Organização Mundial da Saúde.

“Os casos no primeiro ano, em 2015, eram realmente de Zika. E é por conta disso que vimos microcefalia em 2015. Já em 2016, foi predominantemente chikungunya, não Zika, por isso vimos Guillain-Barré, mas não microcefalia”.

Dye disse que, baseando-se nos registros de febre e erupções cutâneas no Nordeste do Brasil no começo de 2016, esperava-se que cerca de mil bebês nasceriam com microcefalia causada por Zika a partir do final do verão. Ao invés disso, cerca de 80 foram registrados na região.

Para muitas doenças, esse tipo de exploração de dados e criação de hipóteses não serias necessárias. Durante uma onda de doença, um teste feito nos pacientes mostraria o que os estava infectando. Estudos monitorariam o sangue de pessoas que já haviam adoecido previamente e indicariam o quanto o patógeno se espalhou.

Contudo, um dos dilemas incômodos do vírus Zika é que ele se assemelha muito a vírus relacionados, de forma que o teste nem sempre pode dizer se uma pessoa está infectada com Zika ou algo semelhante, como a dengue. Testes generalizados ainda não foram feitos, disse Dye.

Ele e seus co-autores reconhecem que pode haver outras explicações.

Por exemplo, desde os primeiros estágios do surto de Zika nas Américas, foram levantadas questões sobre o elevado número de casos de microcefalia no Nordeste do Brasil. Nenhum outro lugar teve tantos, levando as pessoas a perguntarem se havia algo mais - um co-fator - responsável por agravar o impacto do vírus sobre a população da região.

O Dr. David Heymann, que foi presidente do comitê de emergência de Zika da Organização Mundial da Saúde (o qual já foi dissolvido) disse à STAT que o comitê analisou problemas como o aglomeramento populacional nas cidades do Nordeste brasileiro e o estado nutricional das pessoas de lá, entre outros fatores.

Entretanto, nenhum co-fator claramente óbvio veio à tona. Além disso, alguns outros - como o uso local de inseticidas - foram desconsiderados, disse Dye.

A carta dos autores não pode excluir a possibilidade de um co-fator, disse Dye. Mas o fato de que houve poucos casos de microcefalia no ano seguinte significa que esse co-fator estaria faltando em 2016 - o que o torna ainda mais improvável.

Os autores também observaram uma terceira possibilidade: que as mulheres da região viram o possível efeito de uma infecção por Zika durante a gravidez e muitas podem ter evitado ficar grávidas ou interrompido gravidezes. Mas se as maternidades dos hospitais da região tivessem se esvaziado em 2016, o mundo já teria ouvido falar nisso.

“Se existisse um efeito enorme como esse, viraria notícia rapidamente. Teria sido bem visível”, disse Dye.

Se a teoria de que o Zika passou pelo Nordeste do Brasil em apenas uma onda estiver certa, isso provavelmente significa que tantas pessoas foram infectadas em 2015 que poucas ainda estavam vulneráveis ao vírus em 2016. De certa forma, pode ser um bom sinal. Isso pode sugerir que os surtos de Zika são rápidos.

Mas isso não significa que o vírus já terminou. O mais provável, disse Dye, é que o Zika vai retornar após os nascimentos terem criado grupos de pessoas que não possuem imunidade ao vírus, voltando, talvez, quando as pessoas não estiverem esperando.

"Mas nós realmente não podemos descartar nada. E estamos prontos para mais surpresas sobre o vírus Zika”, ele disse.

 

Helen Branswell, STAT

Republicado com permissão da STAT. Esse artigo foi originalmente publicado em 29 de março de 2017
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