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Por que policiais matam

O que, no cérebro de policiais ou cidadãos, leva qualquer um desses grupos a irromper em violência?

Michael Shermer
SHUTTERSTOCK
O contínuo problema do uso de força letal contra cidadãos de minorias por parte da polícia disparou a busca por uma causa universal – mais comumente identificada como o racismo. Esse exame de consciência é compreensível, especialmente à luz dos emails racistas descobertos no departamento de polícia de Ferguson, no estado do Missouri, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos durante a investigação sobre a morte de Michael Brown, de 18 anos.

Seja qual for a extensão com que o preconceito ainda se filtre pela mente de alguns policiais em algumas partes da sociedade dos EUA (nada como há 50 anos), isso não explica as muitas interações que se desdobram sem incidente todos os anos entre a polícia branca e cidadãos de minorias, ou os milhares de casos de agressões contra policiais que não terminam em morte de policiais (49.851 em 2013, de acordo com o FBI). O que, no cérebro de policiais ou cidadãos, leva qualquer um desses grupos a irromper em violência?

Uma resposta pode ser encontrada nas profundezas do cérebro, onde uma rede neural interliga três estruturas no que o neurocientista Jaak Panksepp chama de ‘circuito da raiva’: (1) a matéria cinzenta periaquedutal (ela coordena a entrada de estímulos e a saída de respostas motoras); (2) o hipotálamo (ele regula a liberação de adrenalina e testosterona, relacionadas a motivação e emoção); e (3) a amígdala cerebral (associada com respostas emocionais automáticas, especialmente o medo, ela se acende em resposta a um rosto furioso; pacientes com danos nessa área têm dificuldade em avaliar as emoções dos outros).  Quando Panksepp estimulou eletricamente o circuito da raiva de um gato, o felino saltou em direção à sua cabeça com garras e presas à mostra. Humanos estimulados de maneira semelhante relataram sentir uma fúria incontrolável.

O circuito da raiva é cercado e modulado pelo córtex cerebral, particularmente o córtex orbitofrontal, onde decisões são tomadas sobre como você deveria responder a estímulos específicos – agir impulsivamente ou mostrar controle. Em seu livro de 1998, Guilty by Reason of Insanity (sem edição em português), a psiquiatra Dorothy Otnow Lewis aponta que quando o córtex de um gato é cirurgicamente separado das áreas inferiores de seu cérebro, ele responde a estímulos levemente desagradáveis com ferocidade e violência, não diferente de um assassino condenado e improvavelmente chamado Lucky (sortudo, em inglês), que tinha lesões entre as regiões corticais e o resto de seu cérebro. Lewis suspeita que as lesões de Lucky foram responsáveis pelo esfaqueamento selvagem de um balconista.

Em cérebros saudáveis e sob circunstâncias normais, o autocontrole cortical normalmente derrota impulsos emocionais. Em certas condições que pedem emoções fortes, como quando você se sente ameaçado por ferimentos físicos ou morte, é prudente que o circuito da raiva sobrepuje o córtex, como no caso de uma mulher chamada Susan, descrito pelo psicólogo evolutivo David M. Buss em seu livro de 2005, The Murderer Next Door (sem edição em português). Quando seu marido abusivo se aproximou dela com uma faca de caçador na mão, sob o efeito da cocaína, gritando “Morra, cadela!”, Susan chutou-o na virilha e agarrou a faca. O que aconteceu a seguir é o que o sociólogo Randall Collins chama de “pânico avançado” – uma explosão de violência semelhante aos massacres de guerra em Nanking e My Lai e o espancamento de Rodney King por agentes policiais de Los Angeles. “Eu esfaqueei a cabeça dele e esfaqueei o pescoço dele e esfaqueei o peito dele e esfaqueei o estômago dele”, testemunhou Susan durante seu julgamento por homicídio, explicando as 193 facadas resultantes de seu impulso incontrolável de vingar-se do abuso. Essas emoções evoluíram como uma adaptação a ameaças, especialmente quando não há tempo para computar as chances de um resultado. O medo faz com que recuemos e nos afastemos de riscos. A raiva nos leva a atacar e nos defender contra predadores ou agressores.      

Uma explicação condescendente para porquê policiais matam é que certas ações de suspeitos (fugir, ou resistir à prisão, ou enfiar as mãos dentro da viatura para tentar pegar uma arma) podem disparar o circuito da raiva com tanta intensidade que ele sobrepuja todo o autocontrole cortical. Isso pode ser especialmente verdadeiro se o policial estiver modificado pelo treinamento e pela experiência para procurar perigo ou estiver enviesado por perfis raciais que levam a expectativas negativas em relação ao comportamento de certos cidadãos.

O treinamento futuro da polícia deveria incluir a inserção de policiais em situações ameaçadoras e equipá-los com técnicas para minimizar o resultado. Em seu livro de 2011, Força de Vontade – A redescoberta do poder humano (Escala, 2012), Roy F. Baumeister e John Tierney descrevem métodos para suprimir esses impulsos. Cidadãos, por sua vez, deveriam se lembrar de que policiais estão trabalhando para nos proteger de ameaças à nossa segurança.

Michael Shermer é editor da revista Skeptic (www.skeptic.com). Seu novo livro The Moral Arc, já está disponível (Henry Holt, 2015). Siga-o no Twitter @michaelshermer 

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